O Golpe ou Intentona de 11 de Março de 1975 foi uma tentativa de golpe de estado dirigida por António de Spínola. Precedida pela manifestação da "maioria silenciosa". Rumorejada sucessivamente, terá sido finalmente desencadeada pela crença de Spínola de que a extrema-esquerda estava prestes a levar a cabo uma série de assassinatos, na suposta "Operação Matança da Páscoa". Resultou no exílio de Spínola, e instiga o tumultuoso Verão Quente.
Ao longo de 1974, após a revolução de Abril, as forças políticas de direita então democrática são lideradas por António de Spínola. Este, desistindo em julho da federalização de Portugal colonial, procurava ainda assim que Portugal liderasse uma organização supranacional que incluiria as antigas colónias, e que se garantisse preservação dos interesses e entidades nacionais nestas.
Esta posição vê-se oposta pelos apologistas do retirar incondicional de forças, da descolonização total e imediata, incluindo aderentes aos dogmas marxistas que cada vez mais protagonizam o Processo Revolucionário Em Curso (PREC), principalmente os membros do Movimento das Forças Armadas (MFA) que viriam a ser chamados "militares vermelhos", concedendo o seu apoio aos partidos totalitaristas marxistas africanos que estavam a consolidar controlo dos territórios recém-independentes, chegando os portugueses do MFA até a posicionar-se contra as organizações de nativos oposicionistas, ajudando na sua supressão. Sob os novos regimes africanos em consolidação, os populares portugueses e os autóctones, que são apoiantes do antigo regime ou pertencentes a facções opostas, algumas democráticas que desejam maior ligação ao Portugal, verificam ter uma permanência atribuladamente precária, com crescentes conflictos, perseguições políticas e exclusões dos processos transicionários na forma de violência, exílios, prisões e mesmo mortes.
Ao contrário do explícito no programa do MFA apresentado na revolução de 25 de Abril, o institucionalizado MFA já não planeava antecipar as eleições nas quais a "questão do ultramar" pudesse ser alvo de escrutínio eleitoral, eleições às quais o ainda popular Spínola planearia candidatar-se. O MFA tampouco desejava fazer valer a integridade dos termos transicionários e garantias aos portugueses em África que vinham a ser explícitos nos tratados de independência, já que tal implicaria esforços de contenção da rápida consolidação de poder dos novos regimes africanos até que um governo português eleito podesse deliberar. O que levaria a constante fricção do grosso do MFA com o presidente que desejava fazer valer as suas promessas às oposições locais, a sua visão lusista e pluralista de independência dos territórios. A despeito dos desejos dos spinolistas, muitos nas forças armadas não estão dispostos a prolongar a sua presença em África e um crescente número de militares apoia mesmo os movimentos pró-soviéticos. Exauridos ao fim de treze anos de guerra infrutífera, as intenções de Spínola soam-lhes demasiado à propaganda salazarista que em tempos este ajudou a compor, retórica que não havia trazido fim à guerra.
Em Portugal, verifica-se também crescente ostracização da direita política e o extremar de posições. Spínola, temente de igual processo ao que se verifica nas colónias, às mãos dos seus novos senhores africanos ajudados pelo PCP e militares vermelhos, e vendo a perseguição dos seus próprios aliados políticos em África, reage tentando concentrar poderes presidenciais, procurando para isso apoio popular.
Após a supressão da manifestação da "maioria silenciosa", com a qual pretenderia reforçar os poderes da Presidência e assim aplicar restrições de direitos civis que empurrassem a crescente extrema-esquerda de volta para a clandestinidade a que havia estado condenada no fascismo, Spínola afasta-se do poder e do MFA em 30 de setembro de 74.
Verifica-se a supressão de certas forças conservadoras, dos remanescentes saudosistas do antigo regime, mas crescentemente também dos democratas. A crescente exclusão da vida política instiga o seu radicalizar; observam com desgosto várias instituições da sociedade civil, em particular o próprio governo do MFA, inflectirem-se ao ideário marxista revolucionário.
Os membros da NATO, em especial os EUA, a par da Espanha franquista, acompanham os desenvolvimentos em Portugal com manifesta preocupação.
Em sequência à pública insatisfação de caudilhos conservadores como Spínola, Kaúlza e Galvão de Melo, e à criação de grupos de restauração fascista como o Exército de Libertação de Portugal (ELP), surgem rumores de planeados golpes de estado entre as inteligências de vários estados que acompanham os desenvolvimentos portugueses, sendo o governo do MFA sucessivamente avisado. Identifica-se a Base Aérea de Tancos como sendo o mais provável centro de operações golpista.
Em março de 75, Spínola, já conspirando, é informado da suposta "Operação Matança de Páscoa", alegadamente apoiada pelo Bloco Soviético, que visaria eliminar chefias das principais forças opostas aos simpatizantes deste bloco via centenas de assassinatos, alinhando-se com as mais catastróficas previsões de Spínola. Sem demoras, põe em marcha o golpe, e dirige-se incógnito a Tancos.
A 11 de março, liderados por Spínola, aeronaves e paraquedistas atacam a base do Regimento de Artilharia de Lisboa (RALIS, antigo Regimento de Artilharia Ligeira n.°1 - RAL-1) e tentam tomar o controlo operacional da base aérea de Monte Real, estando planeado o ataque prosseguir em seguida para outras posições estratégicas do governo e sociedade civil. Os golpistas incluiam membros e ex-membros da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia de Segurança Pública (PSP), a sua missão focada em tomar postos policiais, logísticos e de comunicação.
Várias unidades militares nas quais Spínola contava não aderem ao golpe. Os defensores rechaçam os golpistas em várias frentes e chegam ao RAL-1 reforços do MFA e populares, por ele armados, que tomam o lado dos defensores, dos quais morrerá um soldado.
Gera-se um impasse desfavorável à ofensiva, que resulta eventualmente na rendição do grosso dos golpistas, e fuga de alguns, incluindo Spínola, via Espanha franquista, ao fim de cerca de 8 horas desde o início da intentona.
Verifica-se imediata e crescente desestabilidade política, com os mais extremos opositores do radicalizado Spínola a capitalizarem da sua queda e exílio, em particular Otelo de Carvalho e Vasco Gonçalves.
A rejeição popular de um golpe spinolista, contra o demais MFA que havia liderado a Revolução de Abril, leva a uma antagonização da direita política, incluindo militares presumivelmente associados a Spínola. Chega a haver breve discussão de fuzilamento dos revoltosos de 11 de Março, contraposta com sucesso pelos moderados, que se vêem inicialmente assoberbados pelo avivar de fervor revolucionário e de preocupações de segurança do novo regime. O MFA divulga a necessidade de "saneamento" das forças armadas. Políticas de nacionalização da Banca e expropriação de recursos e sectores produtivos são sumariamente aprovadas, e industriais potencialmente problemáticos presos.
Os moderados fazem, no entanto, preservar os planos para eleições democráticas. As eleições constituintes resultantes definem que a criação da constituição fica sobretudo a cargo do Partido Socialista (PS) e Partido Popular Democrático (PPD).
A hostilidade para com a direita política tem cúmulo em actos de violência como manifestações destrutivas, supressão partidária e mesmo detenções ilegais e tortura. Do exílio, Spínola estabelece o terrorista Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP). Organizações radicais, de lados opostos do espectro político, fustigam crescentemente a sociedade civil.
Os EUA, que haviam sido acusados de planear um golpe em Portugal ainda antes da antecipada intentona de Spínola, são antagonizados pela extrema-esquerda, empoderada pela queda auto-infligida de Spínola e das suas ideias políticas. A Espanha franquista começa a defender perante membros da NATO a necessidade de intervenção militar em Portugal para prevenir um socialismo autocrático alinhado com o bloco da União Soviética, ideia apoiada por certos elementos americanos.