A Guerra Boshin (戊辰戦争, Boshin Sensō; "Guerra do Ano do Dragão"), também conhecida no plural como Guerras Boshin ou simplesmente Batalha de Boshin, foi uma guerra civil no Japão, travada de 1868 a 1869, entre forças leais ao governo do Xogunato Tokugawa e aqueles que eram favoráveis à restauração do poder imperial sob o imperador Meiji (r. 1867–1912). A guerra teve como uma de suas causas a declaração de Meiji de que iria decretar a abolição do xogunato de mais de 200 anos e imporia o comando direto da corte imperial. Movimentos militares das forças imperiais e atos de violência feitos por partidários de Meiji em Edo levaram o xogum Tokugawa Yoshinobu (r. 1866–1867) a lançar um ataque para controlar a corte em Quioto.
Em pouco tempo, os militares passaram à facção imperial, que era pequena mas relativamente modernizada, e após uma série de batalhas que culminaram na rendição de Edo, Yoshinobu rendeu-se pessoalmente. O restante do governo Tokugawa recuou ao norte de Honshu e posteriormente para Hokkaido, onde declarou uma república. Derrotados na Batalha de Hakodate, o último resquício do xogunato foi destruído, dando controle supremo do Japão ao império e completando a fase militar da Restauração Meiji.
Cerca de 120 mil homens foram mobilizados durante esse conflito, estimando-se de 3500 a 8200 mortos. No fim da guerra a vitoriosa facção imperial abandonou seus objetivos de expulsar estrangeiros do Japão e, ao invés disso, adotou uma política de contínua modernização com o objetivo de eventualmente renegociar os Tratados Desiguais com os poderes ocidentais. Os partidários dos Tokugawa foram poupados, devido à persistência de Saigo Takamori (um líder proeminente da facção imperial), e muitos dos antigos líderes xogunais foram presenteados com posições de grande responsabilidade no novo governo que se estabelecia.
A Guerra Boshin foi um acontecimento que colocou em evidência o avançado estado de modernização que foi alcançado pelo Japão nos 14 anos após sua abertura para o ocidente, o alto envolvimento de nações ocidentais (especialmente Grã-Bretanha e França) na política do país, e a instalação um tanto turbulenta do poder imperial. Com o tempo, a guerra foi romantizada pelos japoneses e outros que consideram a Restauração Meiji como uma "revolução pacífica", apesar do número de baixas. Várias dramatizações da guerra foram feitas no Japão, e elementos do conflito foram incorporados no filme estadunidense O Último Samurai (2003).
Descontentamento contra o xogunato
Nos dois séculos anteriores a 1854, o Japão havia limitado severamente o comércio com nações estrangeiras (sobretudo as europeias), à exceção da Coreia (através da ilha de Tsushima), da Dinastia Qing (através das ilhas Léquias), e do Império Colonial Holandês (através de portos comerciais em Dejima). Em 1854, Comodoro Perry abriu o Japão ao comércio global sob a ameaça implícita do uso da força militar, iniciando período de rápido desenvolvimento no comércio exterior e na ocidentalização do país. Em grande parte devido aos termos humilhantes dos Tratados Desiguais, impostos por Comodoro Perry, o xogunato enfrentou o descontentamento interno que se materializou no movimento radical xenofóbico Sonnō jōi (尊王攘夷, lit. "Reverenciar o Imperador, expulsar os bárbaros").
O imperador Komei (r. 1846–1867) era favorável a esse pensamento, e — quebrando séculos de tradição imperial — tomou um papel ativo em assuntos do Estado: quando oportunidades surgiam, fulminava contra os tratados e tentava interferir na sucessão xogunal. Seus esforços resultaram na sua "ordem de expulsar os bárbaros" em 1863. O xogunato não tinha a mínima intenção de reforçar a ordem, por isso ela inspirou ataques contra o próprio xogunato e contra estrangeiros no Japão: o incidente mais famoso foi o assassinato do comerciante inglês Charles Lennox Richardson, em que o governo Tokugawa foi obrigado a pagar indenização de cem mil libras. Outros ataques incluíram o bombardeio de navios estrangeiros em Shimonoseki.
Em 1864, essas ações xenofóbicas foram controladas com sucesso por retaliações armadas de poderes estrangeiros, como o Bombardeio Britânico de Kagoshima e o Bombardeio de Shimonoseki. Ao mesmo tempo, as forças de Chōshū, juntamente com ronins xenofóbicos, realizaram a Rebelião Hamaguri na tentativa de tomar controle de Quioto, onde a corte imperial estava, mas o futuro xogum Tokugawa Yoshinobu comandou uma expedição punitiva e os derrotou. Nesse ponto a resistência inicial entre os líderes em Chōshū e na corte diminuiu, mas durante o ano seguinte os Tokugawa se mostrariam incapazes de reafirmar seu controle total sobre o país, já que muitos daimiôs começaram a ignorar ordens e pedidos de Edo.
Assistência militar estrangeira
Apesar do incidente de Kagoshima, o domínio de Satsuma se aproximou dos britânicos e buscava a modernização das tropas e marinha com o apoio deles. O negociante escocês Thomas Glover vendeu navios de guerra e armas às províncias sulistas. Conselheiros militares anglo-americanos, geralmente ex-oficiais, podem ter se envolvido diretamente nesse esforço militar. O embaixador britânico Harry Parkes apoiou forças antixogunais no esforço de formar governo imperial unificado e legítimo no Japão. Durante o período, líderes japoneses do sul como Saigo Takamori de Satsuma, ou Ito Hirobumi e Inoue Kaoru de Chōshū cultivaram conexões pessoais com diplomatas britânicos, notavelmente com Ernest Mason Satow.
O xogunato também estava se preparando para futuros conflitos, modernizando suas forças. Devido aos desígnios de Parkes, os britânicos, os principais parceiros do xogunato, provaram-se relutantes em providenciar assistência. Os Tokugawa então confiavam sobretudo em conselheiros franceses, confortados pelo prestígio militar de Napoleão III à época, conquistado pelos seus sucessos na Guerra da Crimeia e na Guerra da Itália. O xogunato tomou grandes medidas à construção de um exército moderno e poderoso: uma marinha com oito navios de guerra a vapor como núcleo foi feita no decorrer dos anos e já era a mais forte de toda Ásia. Em 1865, o primeiro arsenal naval moderno do Japão foi construído em Yokosuka pelo engenheiro francês Léonce Verny. Em janeiro de 1867, a missão militar francesa chegou para reorganizar os exércitos xoguais e criar uma força de elite, conhecida como Denshūtai, e um pedido foi feito aos Estados Unidos para comprar o navio de guerra couraçado CSS Stonewall, construído pelos franceses. Devido a declaração de neutralidade dos poderes ocidentais, os americanos recusaram-se a liberar o navio, mas uma vez que a declaração foi revogada, a facção imperial obteve o navio e usou-o combates em Hakodate sobre o nome de Kotetsu (literalmente couraçado).
Seguindo um golpe interno, a revolta renovada de Chōshū e a intenção anunciada do xogunato de mandar uma expedição para acabar com a revolta, Chōshū formou aliança secreta com Satsuma (Aliança Satcho). No fim de 1866, xogum Iemochi (r. 1858–1866) e Komei morreram, respetivamente sucedidos por Yoshinobu (r. 1866–1867) e Meiji (r. 1867–1912). Os eventos, nas palavras de Marius Jansen, "criaram uma trégua inevitável". Em 9 de novembro de 1867, ordem secreta enviada a Satsuma e Chōshū em nome de Meiji ordenava o "massacre dos traidores leais a Yoshinobu." Mas antes disso, seguindo sugestão do daimiô de Tosa, Yoshinobu abdicou, aceitando solicitar uma assembleia geral de daimiôs para criar um novo governo. O Xogunato Tokugawa havia terminado.
Enquanto a rendição de Yoshinobu criara um vazio nominal no nível mais alto do governo, a máquina do estado continuava a existir. Além do mais, o governo do xogunato, particularmente a família Tokugawa, iria permanecer uma força proeminente na nova ordem política e iria permanecer com muitos poderes executivos, uma perspetiva que os daimiôs de Satsuma e Chōshū acharam intolerável. Os eventos culminaram num desfecho crítico em 3 de janeiro de 1868, quando esses elementos tomaram controle do palácio imperial em Quioto, e no dia seguinte fizeram Meiji, com apenas 15 anos, declarar sua própria restauração do poder total sobre o governo. Embora a maior parte da assembleia consultiva imperial estivesse feliz com a declaração formal do controle imperial e favorecesse uma colaboração contínua com os Tokugawa, Saigo Takamori ameaçou a assembleia para que ela proclamasse a abolição do título de "xogum" e que confiscasse as terras de Yoshinobu.