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Guerra Civil Irlandesa

Conflito de 1922-1923 entre as facções do IRA

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A Guerra Civil Irlandesa (em irlandês: Cogadh Cathartha na hÉireann, em inglês: Irish Civil War; 28 de junho de 1922 — 24 de maio de 1923) foi um conflito que acompanhou a criação do Estado Livre Irlandês como uma entidade independente do Reino Unido dentro do Império Britânico.

O conflito foi travado entre dois grupos opostos de nacionalistas irlandeses: as forças do novo governo do Estado Livre, apoiantes do Tratado Anglo-Irlandês, e os republicanos, para quem o Tratado representava uma traição da República da Irlanda. A guerra foi ganha pelas forças governistas.

Segundo historiadores, a guerra civil na Irlanda pode ter levado mais vidas do que a guerra da independência contra a Grã-Bretanha, que a precedeu, e deixou a sociedade irlandesa dividida e ressentida nas décadas seguintes. Atualmente, os dois principais partidos políticos da República Irlandesa, a Fianna Fáil e a Fine Gael, são os descendentes diretos dos lados opostos desta guerra.

A Irlanda havia sido por 700 anos um dos mais problemáticos territórios do Reino Unido. Finalmente, após uma guerra de dois anos contra a Inglaterra pela reivindicação da independência, ambos os lados firmaram uma trégua em julho de 1921 e cinco meses depois assinaram o Tratado Anglo-Irlandês. Apesar de conceder o direito de auto-governo a um futuro Estado irlandês em 26 dos 32 condados da Irlanda, permitindo a criação de exército e polícia próprios, o tratado também previa que a nova nação seria parte da Commonwealth britânica, da mesma forma que o Canadá e a Austrália. Além disso, a Coroa Britânica seria representada no novo Estado pelo governador-geral, e os membros do Parlamento teriam que jurar fidelidade à monarquia britânica:

A oposição ao tratado dentro do Sinn Féin (um dos dois principais partidos políticos do país) e dentro do Exército Republicano Irlandês (IRA) foi liderada pela facção republicana mais fanática e intransigente, chefiada por Éamon de Valera. Eles argumentaram que o documento em questão não atendia às exigências para as quais o país tinha lutado durante a guerra de independência (1919–1921).

Embora no tratado fosse prevista a divisão inevitável da Irlanda em duas, o ponto crucial da disputa sobre o acordo era o fato do líder do governo irlandês ter que jurar lealdade ao monarca britânico. Os defensores do acordo, cujos líderes eram Arthur Griffith e Michael Collins, argumentavam que as condições oferecidas foram as melhores que haviam sido propostas até então.

O novo Estado Livre Irlandês teria Parlamento e governo próprios e total controle sobre sua economia e exército. A facção pró-tratado reconheceu que o acordo não contemplava todas as reivindicações pelo qual haviam lutado na guerra contra a Grã-Bretanha, mas dava oportunidade a que mais tarde pudesse ser alcançado um grau de liberdade maior. Em sua opinião, a oposição ao tratado teria como consequência um novo conflito armado contra os britânicos que o IRA não conseguiria vencer.

O documento foi discutido no Parlamento (Dáil Éireann) de 14 de dezembro de 1921 até 7 de janeiro de 1922, data em que foi votado e aprovado por 64 votos a favor e 57 contra. O tratado também foi levado a referendo popular e acabou sendo ratificado. Em protesto, de Valera renunciou à presidência e deixou o parlamento junto com seus apoiadores. Os republicanos afirmaram que não iriam reconhecer a nova Dáil e os acusaram de trair os ideais da república que tinha sido declarada em 1916.

Isto levou à divisão do Sinn Féin e, mais importante, à divisão do IRA em dois grupos, um favorável ao Tratado Anglo-Irlandês e outro contrário. As negociações para a reunificação do movimento duraram seis meses, mas eram posições irreconciliáveis. Michael Collins tentou formar um "comitê de reunificação do exército" para unir o IRA e propôs um governo de coalizão com de Valera para as próximas eleições. Collins continuou a tentar ganhar apoio dos republicanos ao propor que o futuro Estado Livre teria uma constituição republicana, sem mencionar o rei inglês, mas isso foi vetado pelos britânicos.

Em junho de 1922, a facção pró-tratado do Sinn Féin venceu as eleições, aumentando ainda mais a divisão dentro do movimento. Antevendo a guerra, Michael Collins e Arthur Griffith rapidamente se moveram para firmar o Estado Livre Irlandês, organizando suas instituições e criando um novo exército, formado por membros do IRA simpatizantes do novo governo e apoiado por novos recrutas. Ainda assim, grande parte dos oficiais do Exército Republicano Irlandês permaneceu contrária ao tratado o que, quando o novo regime tentou exercer sua autoridade militar dentro do próprio território, acabou precipitando a guerra.

Em 14 de abril de 1922, cerca de duzentos membros da facção antitratado do IRA, liderados por Rory O'Connor, ocuparam o prédio da Four Courts e vários outros edifícios em Dublin, deixando um clima tenso no país. Os republicanos contrários ao tratado queriam, na verdade, reacender o conflito com o Reino Unido, que eles esperavam que iria unir os dois lados do IRA novamente contra o seu inimigo comum. Contudo, para os apoiantes do Estado Livre, que queriam tornar a nova administração nacional viável, isso era um simples ato de rebelião que tinha que ser derrubado por eles (o governo irlandês) e não pelos britânicos. Arthur Griffith, um dos líderes do novo Estado, exigia uma ação militar imediata contra os rebeldes, mas Michael Collins, chefe do governo provisório, queria evitar a guerra civil a todo custo. Nesta altura, a facção pró-tratado do Sinn Féin havia conquistado a maioria dos votos nas eleições gerais daquele ano. Collins também estava sendo pressionado por Londres para reafirmar a autoridade do seu governo pelo país.

Os britânicos estavam perdendo a paciência, em parte devido a uma ação que o próprio Michael Collins teria ordenado. Sir Henry Hughes Wilson, um marechal aposentado do exército britânico e um proeminente conselheiro do primeiro-ministro da Irlanda do Norte, Sir James Craig, foi assassinado em Londres em 22 de junho. Foi alegado que Collins teria ordenado a morte de Wilson em represália por ele não ter evitado os ataques contra católicos romanos no norte do país. Winston Churchill assumiu que a facção antitratado do IRA era responsável pelo assassinato e então ele alertou que se Collins e o governo provisório não tomassem providências contra os rebeldes, ele (Churchill) o faria usando tropas inglesas.

Por fim, em um gesto final de desafio a nova administração do país, a guarnição de republicanos no Four Courts sequestrou, em 27 de junho, JJ "Ginger" O'Connell, um general do novo exército nacional. Collins, após ter dado um último ultimato à tropa no Four Courts para que evacuasse o complexo, decidiu atacar o prédio e bombardeá-lo até que se submetesse. O novo governo irlandês então apontou formalmente Michael Collins como comandante em chefe do exército. Este não foi o primeiro confronto militar da guerra civil, já que diversos pequenos combates entre facções contrárias e favoráveis ao tratado já estavam acontecendo em alguns pontos do país. Porém, foi nesta batalha que a situação chegou a um 'ponto sem retorno', em que ambos os lados deixaram, por um tempo, as conversas de lado e partiram para medir forças se enfrentando pelo país.

Collins aceitou a oferta britânica de ajuda militar, que traduziu-se no empréstimo ao Estado Livre de diversos canhões de artilharia, além de outros armamentos leves, como fuzis e pistolas. A guarnição antitratado que estava no Four Courts, se rendeu após dois dias de bombardeio de pequenos morteiros e canhões. Em seguida, as tropas do governo provisório irlandês invadiram e tomaram o prédio rapidamente. Pouco antes do fim da luta no Four Courts, uma grande explosão atingiu a ala oeste do complexo, onde ficava o prédio da administração pública local, e resultou na destruição de vários documentos históricos da Irlanda. Segundo o governo, o prédio havia sido minado, embora historiadores modernos acreditem que era ali que os rebeldes guardavam munição e um projétil provavelmente acabou acertando o local e deu início à explosão. Nos dias seguintes a conquista do Four Courts, as tropas do governo provisório investiram contra as posições dos rebeldes na capital, tomando violentamente de assalto os bairros e ruas controladas por estes.

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