A Guerra da Cisplatina (1825–1828), denominada na historiografia argentina e uruguaia como Guerra do Brasil ou Guerra argentino-brasileira, foi um conflito armado entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata, com a participação de forças políticas e militares da Banda Oriental, pela posse da Província Cisplatina, território correspondente em grande parte ao atual Uruguai. Inseriu-se no contexto das disputas pela reorganização do espaço platino após a crise dos impérios ibéricos e pela definição do equilíbrio de poder na bacia do rio da Prata nas primeiras décadas do século XIX.
A guerra teve origem na incorporação da Cisplatina ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves em 1821, mantida após a Independência do Brasil, e na insurreição de 1825 liderada pelos Trinta e Três Orientais, que proclamaram a separação da província e a sua união às Províncias Unidas. O conflito desenvolveu-se em campanhas terrestres na Banda Oriental e no sul do Brasil e em operações navais no Atlântico Sul e no estuário platino, sendo marcado por um impasse estratégico: enquanto o Império manteve o controlo das principais cidades e a supremacia marítima, as forças orientais e rio-platenses dominaram amplas áreas rurais e obtiveram vitórias em batalhas campais.
O bloqueio naval brasileiro comprometeu as receitas aduaneiras de Buenos Aires, ao passo que os custos financeiros e a impopularidade da guerra agravaram a crise política do Primeiro Reinado. A mediação diplomática do Reino Unido, interessada na manutenção da liberdade de comércio e do equilíbrio regional, conduziu à assinatura da Convenção Preliminar de Paz em 1828, que estabeleceu a independência da região como o Estado Oriental do Uruguai.
A guerra integrou o ciclo das chamadas questões platinas e desempenhou papel decisivo na formação do sistema de Estados do sul da América do Sul, ao fixar fronteiras, redefinir o equilíbrio geopolítico regional e inserir o espaço platino na ordem internacional do século XIX sob forte influência britânica. Teve também impactos duradouros na política interna do Império do Brasil, contribuindo para o desgaste do governo de Pedro I, e na dinâmica de fragmentação das Províncias Unidas.
A formação da Província Cisplatina
A região da Banda Oriental constituiu, desde o período colonial, uma zona de fronteira entre os impérios ibéricos, cuja importância derivava da sua posição estratégica na entrada do estuário do rio da Prata, ponto de articulação entre o comércio atlântico e as rotas fluviais que conduziam ao interior sul-americano. A fundação da Colônia do Sacramento pelos portugueses, em 1680, inseriu-se nesse contexto de disputa geopolítica com a monarquia espanhola pelo controlo das redes comerciais platinas.
A crise da monarquia espanhola no início do século XIX e os processos de independência na América alteraram profundamente o equilíbrio político regional. Na Banda Oriental, a liderança de José Gervasio Artigas articulou um projeto autonomista vinculado às Províncias Unidas do Rio da Prata, apoiado sobretudo por setores rurais e por formas de mobilização política e militar características do espaço platino.
A intervenção militar luso-brasileira iniciada em 1816, conduzida pela Divisão de Voluntários Reais sob o comando de Carlos Frederico Lecor, resultou na ocupação de Montevidéu em 1817 e na derrota das forças artiguistas na Batalha de Tacuarembó em 1820, assegurando o domínio português sobre o território.
Em 1821, um congresso reunido em Montevidéu aprovou a incorporação da região ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves com a denominação de Província Cisplatina. A anexação foi apresentada pela Coroa como medida destinada a garantir a segurança das fronteiras meridionais do Brasil e a estabilidade política no espaço platino, sendo mantida após a Independência do Brasil em 1822.
A crise política na Banda Oriental
A integração da Cisplatina ao Império do Brasil realizou-se sob forte presença militar e apoiou-se na cooptação de setores das elites urbanas e rurais, que passaram a participar das instituições do novo Estado, enviando representantes às Cortes de Lisboa e, posteriormente, à Assembleia Constituinte de 1823.
Apesar dessa inserção institucional, a incorporação não eliminou as tensões políticas locais. Parte significativa das lideranças orientais e da população rural manteve vínculos econômicos e políticos com as Províncias Unidas e opôs-se ao domínio brasileiro, em um contexto marcado pela circulação de forças armadas, pela autonomia das milícias regionais e por identidades políticas ainda em formação.
Em 1825, o movimento dos Trinta e Três Orientais, liderado por Juan Antonio Lavalleja, desembarcou na praia da Agraciada e proclamou a separação da província do Império do Brasil e a sua união às Províncias Unidas do Rio da Prata. O apoio político, financeiro e militar de Buenos Aires ao levante transformou a crise provincial em um conflito internacional, levando o
A Guerra da Cisplatina resultou da convergência de fatores geopolíticos, econômicos e políticos que marcaram a reorganização do espaço platino após a crise das monarquias ibéricas. O conflito esteve relacionado simultaneamente às disputas pela definição de fronteiras entre os novos Estados sul-americanos, às dinâmicas internas da Banda Oriental e à inserção da região no sistema atlântico de comércio.
A questão estratégica do rio da Prata
O estuário do rio da Prata constituía um dos principais eixos de circulação econômica do continente, articulando o comércio atlântico às bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai e às regiões produtoras do interior. O controlo da Banda Oriental permitia influenciar a navegação fluvial e o acesso a essas rotas, fator que conferia à Cisplatina grande importância estratégica tanto para o Império do Brasil quanto para as Províncias Unidas do Rio da Prata.
Para o governo do Rio de Janeiro, a manutenção da província era considerada fundamental para a defesa da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e para a afirmação do Brasil como potência regional no Atlântico Sul. Para Buenos Aires, por sua vez, a reincorporação da Banda Oriental era vista como condição para a continuidade da unidade econômica e política herdada do antigo vice-reino e para o controlo das rotas comerciais do interior.
O conflito entre projetos de organização regional