A Guerra de Restauração foi um conjunto de confrontos armados travados entre o Reino de Portugal e a Coroa de Castela desencadeados após o início da Guerra dos Segadores (ou Sublevação do Principado da Catalunha), e que se estenderam por um período de 28 anos, entre 1640 e 1668. Os confrontos tiveram início no golpe de estado da Restauração da Independência de 1 de dezembro de 1640 — que pôs fim à monarquia dualista da Dinastia Filipina iniciada em 1580 — e terminaram com o Tratado de Lisboa de 1668, assinado em nome de Afonso VI de Portugal e Carlos II de Espanha, pelo qual ficou definitivamente reconhecida a independência do reino de Portugal.
O período de 1640 a 1668 caracterizou-se por confrontos periódicos entre Portugal e Espanha, tanto com pequenos enfrentamentos como graves conflitos armados, dos quais muitos deles foram ocasionados por conflitos de Espanha e Portugal com potências não ibéricas. A Espanha participou na Guerra dos Trinta Anos até 1648 e na Guerra Franco-Espanhola até 1659, enquanto Portugal participou na Guerra Luso-Holandesa até 1663. A frente manteve-se estática, pois a Espanha esteve fundamentalmente à defensiva até 1659, dada a prioridade que a corte madrilena outorgou a sufocar a Sublevação da Catalunha.
A designação Guerra da Restauração da Independência foi criada pelos historiadores portugueses do período romântico, no século XIX. Nos séculos XVII e XVIII, a guerra era conhecida, em Portugal e fora dele, como Guerra da Aclamação, referindo-se à Aclamação real do duque de Bragança como rei de Portugal.
Depois da morte sem herdeiros do rei Sebastião I de Portugal em 1578 e de seu sucessor Henrique I de Portugal em janeiro de 1580, instaurou-se um vazio de poder no trono de Portugal que provocaria uma crise dinástica. A crise deveu-se em grande parte pela ausência de normas que regulassem adequadamente a situação e resultou num momento de decadência nacional, pelas derrotas no norte de África, a redução do comércio e os embates com os piratas ingleses e franceses. As Cortes deviam decidir quem dentre vários reclamantes deveria ocupar o trono português, mas antes de que a eleição fosse feita, Filipe II de Espanha antecipou-se à decisão e ordenou a invasão militar do país, amparado nos seus direitos à sucessão à coroa portuguesa. Filipe tinha pactuado com os poderosos do país —a classe média, a nobreza e alto clero—, e não esperava uma resistência séria à ofensiva do duque de Alba. Na realidade, a união ibérica era muito provável, pois dos onze casamentos celebrados pela extinta dinastia de Avis nas suas últimas três gerações, oito tinham-no sido com os Habsburgos espanhóis. A relação entre as duas dinastias era tal, que quase formavam uma única família, com interesses similares.
Efetivamente, a oposição principal proveio do povo e do baixo clero, os que menos podiam esperar da mudança de dinastia. Em 20 de junho de 1580, adiantando-se à decisão do conselho regente, António, Prior de Crato, proclamou-se rei de Portugal em Santarém, sendo aclamado em várias localidades do país; seu governo durou 30 dias, já que suas escassas tropas foram vencidas pelo exército espanhol mandado por Fernando Álvarez de Toledo e Pimentel, duque de Alba, na batalha de Alcântara em agosto de 1580. Dom António, descendente ilegítimo do rei Manuel I, obteve o respaldo popular, inspirado num vadio sentimento patriótico, que não bastou, no entanto, para fazer frente às tropas do duque. Seguiu sustentando a oposição aos Habsburgos durante décadas, infrutiferamente. Os privilegiados portugueses, pelo contrário, celebraram o fracasso de António. No ano seguinte, Filipe II foi proclamado rei Filipe I de Portugal pelas Cortes de Tomar. Filipe contava com o apoio dos grupos influentes do país: o alto clero, a nobreza e os mercadores. Para ganhar o favor destes, o monarca espanhol prometeu respeitar e ampliar seus privilégios.
Esse seria o começo de um período em que Portugal junto com os demais reinos hispânicos foi governado por vice-reis ou governadores dos reis de Espanha, vivendo debaixo do domínio do ramo espanhol da casa de Habsburgo, partilhando o mesmo monarca numa monarquia dual aeque principaliter, que se iria prolongar até 1640. Em Madrid, passou a existir um Conselho de Portugal — composto em exclusivo por portugueses — para assessorar o rei sobre assuntos concernentes ao reino. Portugal conservou, nesse início, suas próprias leis e instituições, que lhe permitiram manter-se como nação quase independente com um importante império ultramarino que lhe outorgava grandes vantagens económicas. O rei comprometeu-se ademais a defender o vasto império português, que se estendia por territórios americanos, africanos e asiáticos. Os nobres aumentaram seus poderes políticos e económicos à custa daqueles da Coroa.
A ilusão inicial das duas partes, que esperavam prosperar com a união, durou aproximadamente até a assinatura da Trégua dos Doze Anos com as Províncias Unidas dos Países Baixos em 1609. A partir de então cresceu a tensão, afundada pelas incursões holandesas no Brasil. A partir de 1630, estendeu-se o espírito da sublevação que se desatou finalmente em 1640. A principal causa do descontentamento eram os prejuízos portugueses ocasionados pelo conflito entre a Coroa e os holandeses. A isso uniu-se, a princípios do reinado de Filipe IV, a politica a que o valido conde-duque de Olivares submeteu o comércio luso. Outra das razões do descontentamento era a incapacidade real para defender as colónias de outras potências como França e Inglaterra. Um quarto motivo de queixa, a ausência do soberano, em realidade era hipócrita, pois a nobreza aproveitou-a para aumentar seu poder no território mediante a participação em juntas de administração que tratavam de rivalizar com o poder do vice-rei. Relacionada com esta achava-se o empenho real em recuperar as rendas que lhe correspondiam, entregadas principalmente em usufruto à nobreza, e reformar a tributação para aumentar as contribuições dos privilegiados, objetivos que desagradaram profundamente aos portugueses.
Os partidários da união, os que tinham saído favorecidos por ela (os membros da Administração, o alto clero e a alta nobreza) defendiam em geral a interpretação da Coroa do pacto das Cortes de Tomar: uma graça real que o rei podia mudar quando desejasse. Os preteridos, fundamentalmente a baixa nobreza, temiam perder as suas mordomias, ser vítimas das revoltas populares cada vez mais frequentes ou ser prejudicados pelos assaltos de ingleses e holandeses.
A política fiscal da Coroa em prejuízo dos privilegiados, tanto laicos como eclesiásticos, teve um papel fundamental na origem da conjura de 1640. O objetivo da Coroa era aumentar a arrecadação e que a contribuição da nobreza e o clero crescesse; estas classes, por sua vez, recusaram qualquer infração de suas mordomias fiscais, que as isentavam de impostos fixos. Os fundos seriam para financiar novas frotas, necessárias para enfrentar os holandeses, que tinham tomado controlo de Pernambuco. O plano reformista, que afetou todas as classes sociais, acelerou-se com a chegada da nova vice-rainha, Margarida de Saboia, duquesa de Mântua, em 1634. Entre as medidas financeiras contou-se a elaboração em 1635 de um inventário de bens eclesiásticos com o fim de desamortizar alguns, cuja posse pela rica Igreja lusa era ilegal. A medida suscitou a inimizade desta com a Coroa. Especial desdém para os Habsburgos mostrava a Ordem Jesuíta, que tinha tido vários conflitos com a Coroa e Castela desde o começo da união. Em 1637 o rei ordenou a criação de um cadastro de propriedades da nobreza, outra medida que atiçou o descontentamento. Em agosto desse mesmo ano, a imposição de um novo imposto ao vinho e à carne e o incremento das sisas num momento de crise económica e más colheitas desencadearam uma revolta popular que começou em Évora e estendeu-se velozmente pelo sul do reino. Ao contrário da nobreza, que se absteve de participar nela, mas também não contribuiu para a sufocar, alguns membros da Companhia de Jesus apoiaram os rebeldes. O rei teve de enviar tropas castelhanas para aplastar a rebelião e seguidamente, em 1638, convocou a grande parte dos nobres a Madrid para criticá-los pela sua passividade.