A guerra das Comunidades de Castela, também conhecida como Revolta dos Comuneiros (em castelhano: comuneros) foi um levantamento contra a coroa que teve lugar entre 1520 e 1522, protagonizado pelas cidades do interior do Reino de Castela.
Alguns historiadores qualificam-na como uma das primeiras revoluções modernas. Em Castela, a Revolta aconteceu motivada contra as pretensões do rei Carlos I da Espanha em modificar o governo da coroa, subtraindo poderes das comunidades de Vila e Terra castelhanas (as cidades) com o objetivo de aprofundar a centralização do poder. No primeiro caso alinha-se o historiador José Antonio Maravall, Julio Valdeón Baruque ou o historiador francês Joseph Pérez. autor do livro Los comuneros, e talvez o maior perito no movimento comunero.
Em contrapartida, os partidários da segunda opinião defendem que um maior poder real é garantia de modernidade, posto que é característica do medievo a fragmentação do poder e, no caso da Coroa de Castela, a necessidade dos monarcas, desde tempos remotos, de apoiarem-se nas cidades (as denominadas "cidades com voto nas Cortes", que tinham um poder importante por seu direito em participar das Cortes estamentais mediante o envio de representantes), pelo que a Guerra das Comunidades seria supostamente uma última tentativa dessas cidades em manter seu status que havia sido conquistado ao longo dos séculos e impedir a continuação de um caminho que conduzia ao absolutismo.
Ainda que a causa imediata da revolta tenha sido o fato de que, ao chegar um rei estrangeiro assim como o uso dos recursos e impostos de Castela a favor do Império, as raízes do problema devem ser encontradas anteriormente, na época das regências em Castela (1504-1517), quando foram expostos diversos conflitos da sociedade castelhana: a preocupação da nobreza em recuperar prestígio depois do reinado de Isabel I, que havia sido reduzido notavelmente (em geral, os comuneros seriam membros da pequena burguesia comercial e artesanal das cidades castelhanas); o conflito entre os grandes comerciantes (representados por Burgos, sede do "Consulado do Mar", onde se centralizavam as exportações da lã castelhana) que desejavam exportar a lã em estado bruto e as manufaturas (representados por Segóvia), que desejavam uma maior quota para poderem desenvolver a incipiente indústria têxtil de Castela (como a que existia, por exemplo, em Flandres e que se servia, justamente, da lã castelhana); o problema dos conversos, devido ao rigor da Inquisição; ou, finalmente, às tensões existentes nas cidades onde o poder político estava nas mãos de clãs determinados.
O fator político motivador das revoltas comuneras de 1520 foi a ameaça às formas de gestão política das comunidades da Espanha, sobretudo da região de Castela. Tais locais possuíam uma longa tradição de gestão política autônoma, geridas pelo princípio do Procomún ou Derecho Del Comun. Além da autogestão política o Procomún garantia que o bem comum não seria prejudicado a partir das ações e mandos do monarca. O princípio medieval do Procomún entrava em conflito com a política de Carlos I, a partir do alinhamento do Imperador com o princípio do Princeps que considerava o Imperador como “o senhor único do mundo”. As comunidades, até outrora autônomas e com liberdade para gerir a sua própria organização, vêem-se ameaçadas pelas decisões e atitudes de Carlos I e, a partir daí, revoltam-se e rebelam-se contra este.
"O serviço" era uma espécie de imposto destinado a sustentar os gastos de Carlos I no estrangeiro. Nas cortes de Valladolid, em 1518, os procuradores castelhanos negaram o pedido de pagamento do serviço a Carlos I. Aos finais de março de 1520, o Imperador convocou as Cortes em Santiago de Compostela com o objetivo de obter um novo serviço e também recebe resultado negativo. Semanas depois voltou a convocar as Cortes na Corunha, com vistas a sua próxima campanha. Ainda que os procuradores castelhanos tenham sido em sua maioria com o claro fito de votar contra, muitos deles foram impedidos na última hora de entrar, outros (mortos quando voltaram) traíram suas cidades, sob coação ou suborno. Como resultado, o serviço ficou finalmente aprovado.
Em 29 de julho de 1520 é constituída, em Ávila, a Santa Junta do Reino, formada por representantes das cidades castelhanas, elegendo-se como presidente ao toledano Pedro Lasso de Vega (irmão do poeta e membro do exército imperial Garcilaso de la Vega) e como chefe do exército comunero ao também toledano Juan de Padilla. A Santa Junta trasladou-se para Tordesilhas, com a esperança de que a confinada rainha Joana I viesse a apoiá-la, ainda que enviados saíssem de uma entrevista convencidos de que nada podiam esperar da soberana, pois estava, efetivamente, louca.
A revolta foi uma rebelião da comunidade política (oligarquia local e a nobreza) contra o Rei. Burgos, devido ao seu óbvio interesse econômico na exportação, foi a única cidade castelhana contrária aos comuneros. Apesar do caráter eminentemente urbano da rebelião, no verão de 1520 numerosos insurrectos rurais somaram-se aos rebeldes. O selvagem incêndio de Medina del Campo por parte das tropas realistas em 21 de agosto de 1520, como represália por haver negado a estas a entrega dos canhões de artilharia que pretendiam utilizar contra Segóvia, alinhou definitivamente Valladolid com os comuneros.
Início da guerra das Comunidades
Em 23 de outubro Carlos foi coroado Imperador do Sacro Império como Carlos V, e a 31 deste mês o cardeal Adriano de Utrecht, regente flamenco nomeado pelo rei, declara guerra aos comuneros. Os realistas tomam Tordesilhas e a Junta foge para Valladolid. Juan de Padilla volta a Toledo. O bispo de Zamora Antonio de Acuña organiza um exército em Tierra de Campos que assalta fortalezas senhoriais para depois marchar para o planalto sul.
Carlos I nomeia dois novos vice-reis dentre nobres castelhanos: o Condestável de Castela e o Almirante de Castela.
Os pecheros (grupo que não se encaixava em definições muito exatas sobre seu local social) se encontravam em situação de vulnerabilidade desde princípio do século XVI, estes estiveram impossibilitados de participar da política local, que até então, se preservava reduzida aos fidalgos. A representatividade dos pecheros mantinha-se restrita às sociedades rurais, onde a nobreza não se fazia presente. Em centros de maior desenvolvimento do comércio, a exemplo de Ávila, nos conselhos administrativos, a maioria da população não possuía representação, e quando a tinha esta estava limitada ao silêncio e a passividade.
Com o desenvolvimento do comércio, das letras, custeada pela Igreja, e do controle real nos conselhos, os comuns passaram a questionar a impossibilidade de participação ativa na política, pleiteando novas conquistas e espaço de atuação.
Os fidalgos por sua vez se encontram em posição de desvantagem em relação ao reino, e apesar de estes se manterem contra a equidade dentre estes os pecheros, alguns membros das oligarquias participaram da luta contra o Reino, não com a pretensão de alterar o poder, mas para tornar-se mais influente no âmbito cortesão e tornar o voto das famílias nobres mais fortes frente às decisões do governo, para isso questionavam o governo administrativo real, caracterizado por posturas rígidas e conservadoras.
O papel da experiência religiosa nas Revoltas Comuneras
O movimento Comunero teve uma influente componente religioso, mesmo em início da Idade Moderna, a religião desempenhava importante papel na formação social e estrutural. Os movimentos clericais estavam profundamente envolvidos na Revolução, assumindo uma postura oposicionista ao reinado. A ação religiosa estava basicamente em algumas frentes: o papel político das confrarias, quando sediam seus espaços para confabulações políticas; as profecias milenaristas que utilizavam o conflito como meio de propaganda política. Autores como Máximo Diago Hernando afirmam que consideram esta e outras rebeliões semelhantes que aconteceram na Europa como “autênticas revoluções”, pelo caráter de rompimento da ordem vigente, e construção de algo novo, que necessariamente envolveria as questões religiosas na estrutura nova. O autor afirma que havia uma simbiose entre teologia e política e que todas estas revoltas da primeira metade do século XVI foram o intermédio para a implantação da reforma protestante.