Guilherme III & II (Haia, 4 de novembro de 1650 – Londres, 8 de março de 1702) foi Príncipe de Orange e estatuder da Holanda, Zelândia, Utreque, Guéldria e Overissel da República dos Países Baixos como Guilherme III de 1672 até sua morte, e também Rei da Inglaterra e Irlanda como Guilherme III e Rei da Escócia como Guilherme II a partir de 1689. Ele herdou ao nascer o Principado de Orange de seu pai Guilherme II, que havia morrido duas semanas antes. Sua mãe Maria, Princesa Real, era a filha do rei Carlos I da Inglaterra. Guilherme se casou em 1677 com sua prima Maria, filha de Jaime, Duque de Iorque, e sobrinha do rei Carlos II e reinou junto com ela até a morte dela em 1694.
Guilherme participou de várias guerras contra o poderoso rei católico Luís XIV de França em colisão com potências europeias protestantes e católicas. Vários protestantes o consideravam um defensor de sua fé. Jaime se tornou rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda em 1685, porém seu catolicismo o deixou muito impopular com a maioria protestante britânica. Guilherme foi convidado a invadir a Inglaterra por um grupo influente de políticos e religiosos, evento que ficou conhecido como a "Revolução Gloriosa". Ele desembarcou em Brixham em novembro de 1688 e depôs Jaime, tornando-se soberano junto com Maria. Reinaram juntos como comonarcas até a morte dela em dezembro de 1694, depois do que Guilherme permaneceu como o único monarca.
Sua reputação como protestante permitiu que ele tomasse as coroas britânicas em um período que muitos temiam a volta do catolicismo. Sua vitória contra as forças de Jaime em 1690, na Batalha do Boyne, cimentou sua posição como rei. Seu reinado marcou uma transição entre os governos absolutistas dos Stuart e os governos parlamentares da Casa de Hanôver.
Guilherme Henrique nasceu em Haia, República das Sete Províncias Unidas dos Países Baixos, no dia 4 de novembro de 1650. Foi o único filho do estatuder Guilherme II, Príncipe de Orange, e sua esposa Maria, Princesa Real, que era a filha mais velha do rei Carlos I de Inglaterra e irmã de Carlos II e Jaime, Duque de Iorque.
Seu pai estava doente e morreu de varíola dois dias depois de seu nascimento, fazendo de Guilherme quase imediatamente Príncipe de Orange. Surgiu um conflito entre Maria e Amália de Solms-Braunfels, mãe de Guilherme II, sobre qual deveria ser o nome do bebê. Maria queria nomeá-lo Carlos em homenagem ao irmão, porém sua sogra insistiu em nomeá-lo Guilherme para aumentar suas chances de tornar-se estatuder. Guilherme II havia nomeado em seu testamento a esposa como guardiã, porém o documento nunca foi assinado e tornou-se nulo. A suprema corte da Holanda e da Zelândia julgou que guarda da criança fosse divida entre Maria, Amália e Frederico Guilherme, Eleitor de Brandemburgo, cuja esposa Luísa Henriqueta de Orange-Nassau era a irmã mais velha de seu pai.
Maria mostrou pouco interesse na educação do filho, muitas vezes ficando ausente por anos, deliberadamente distante da sociedade holandesa. A educação de Guilherme ficou inicialmente a cargo de várias governantas holandesas, algumas de descendência inglesa, incluindo Walburg Howard e a nobre escocesa Anna Mackenzie. O príncipe recebeu a partir de abril de 1656 aulas diárias de igreja reformada do pregador calvinista Cornelis Trigland, um seguidor do teologista contra-remonstrante Gijsbert Voet. A educação ideal para Guilherme foi descrita em Discours sur la Nourriture de S. H. Monseigneur le Prince d'Orange, uma pequena dissertação possivelmente escrita por seu tutor Constantijn Huygens. Nessas aulas ele aprendia que estava predestinado a se tornar um instrumento da Divina Providência, cumprindo o destino da Casa de Orange-Nassau.
Guilherme passou sete anos a partir de 1659 na Universidade de Leida para educação formal sob a orientação do professor de ética Hendrik Bornius, apesar de nunca ter sido oficialmente matriculado como aluno. Ele tinha um pequeno séquito enquanto morava no Prinsenhof na cidade de Delft, incluindo Willem Bentinck e seu novo governador Frederico Nassau de Zuylestein, que era seu tio paterno como filho ilegítimo de seu avô Frederico Henrique, Príncipe de Orange. Ele aprendeu francês com Samuel Chappuzeau, que foi dispensado por Amália após a morte de Maria.
Johan de Witt e seu tio Cornelis de Graeff defendiam que os Estados da Holanda assumissem a educação de Guilherme. A intenção era garantir que ele adquirisse as habilidades para servir em uma futura posição de estado, mesmo que ainda indeterminada; os Estados agiram em 25 de setembro de 1660. Esse primeiro envolvimento das autoridades não durou muito. Maria morreu de varíola em 23 de dezembro do mesmo ano no Palácio de Whitehall enquanto estava em Londres para visitar seu irmão Carlos II. Em seu testamento ela pedia que Carlos cuidasse dos interesses do filho, e o rei exigiu que os Estados parassem de interferir. Eles aceitaram em 30 de setembro de 1661 para acalmar Carlos. Frederico Nassau passou a trabalhar para o rei no mesmo ano. Ele fez Guilherme escrever cartas ao tio pedindo ajuda para tornar-se estatuder algum dia. Sua educação e guarda tornaram-se pontos de disputas depois da morte de Maria entre seus apoiadores dinásticos e os apoiadores de um Países Baixos mais republicano.
As autoridades holandesas se esforçaram muito para ignorar essas intrigas, porém uma das condições de paz de Carlos após a Segunda Guerra Anglo-Holandesa era a melhora na posição de seu sobrinho. Como contramedida, os Estados da Holanda oficialmente fizeram de Guilherme um protegido do governo quando ele completou dezesseis anos, chamado "Filho do Estado". Todos os cortesãos pró-ingleses, incluindo Frederico Nassau, foram retirados da companhia do príncipe. Guilherme implorou para de Witt permitir que seu tio permanecesse, porém ele recusou. De Witt era o principal político da república e assumiu ele mesmo a educação de Guilherme, instruindo-o semanalmente sobre assuntos de estado e jogando regularmente partidas de Jogo de palma.
A maioria das províncias haviam deixado vago o cargo de estatuder após a morte de Guilherme II. O Tratado de Westminster que havia encerrado a Primeira Guerra Anglo-Holandesa tinha um anexo secreto colocado por ordem de Oliver Cromwell: ele exigia o Decreto de Seclusão, que proibia a província da Holanda de nomear um membro da Casa de Orange como novo estatuder. O decreto, que não permaneceu em segredo por muito tempo, foi declarado inválido depois da Restauração Inglesa já que a Comunidade da Inglaterra, que havia assinado o tratado, não existia mais. Maria e Amália haviam tentando persuadir os Estados provinciais em 1660 a designar Guilherme como o futuro estatuder, porém todos acabaram se recusando.
Enquanto Guilherme aproximava-se dos dezoito anos de idade em 1667, o partido orangista tentou novamente colocá-lo no poder ao assegurar os cargos de estatuder e capitão-general. De Witt, líder do partido dos Estados, permitiu que o pensionário Gaspar Fagel de Haarlem induzisse os Estados da Holanda a emitir o Édito Perpétuo para impedir a restauração da influência da Casa de Orange-Nassau. O édito declarava que o capitão-general ou o almirante-general dos Países Baixos não poderia servir também como estatuder de nenhuma província. Os apoiadores de Guilherme mesmo assim procuraram meios para melhorar seu prestígio e os Estados da Zelândia acabaram aceitando-o em 19 de setembro de 1668 como "Primeiro Nobre". Ele escapou dos tutores de estado e viajou secretamente até Midelburgo para poder receber a honra. Amália permitiu um mês depois que Guilherme administrasse sua própria criadagem e declarou que ele era maior de idade.
A província da Holanda, o centro do anti-orangismo, aboliu o cargo de estatuder e outras quatro províncias fizeram o mesmo em março de 1670, estabelecendo a chamada "Harmonia". De Witt exigiu que todos os membros do conselho da Holanda fizessem um juramento para manter o Édito; apenas um se recusou. Guilherme viu isso como uma derrota, mas na realidade esse arranjo foi um acordo: de Witt preferia ignorar completamente o príncipe, porém naquele momento estava implícita sua subida para supremo comandante do exército. Ele ainda permitiu que o príncipe entrasse no Conselho de Estado, então o órgão administrador do orçamento de defesa. Guilherme foi admitido no conselho em 31 de maio de 1670 com total poder de voto, apesar das tentativas de de Witt de limitá-lo a um conselheiro.