Helen Adams Keller (Tuscumbia, 27 de junho de 1880 – Easton, 1 de junho de 1968) foi uma escritora, conferencista e ativista social norte-americana. Foi a primeira pessoa surdo-cega da história a conquistar um bacharelado.
A história sobre como sua professora, Anne Sullivan, conseguiu romper o isolamento imposto pela quase total falta de comunicação, permitindo à menina florescer enquanto aprendia a se comunicar, tornou-se amplamente conhecida através do roteiro da peça The Miracle Worker, que virou o filme O Milagre de Anne Sullivan (1962), dirigido por Arthur Penn (em Portugal, O Milagre de Helen Keller). Seu aniversário em 27 de junho é comemorado como o Helen Keller Day no estado da Pensilvânia, e foi autorizado em nível federal por meio da proclamação presidencial de Jimmy Carter em 1980, no centenário de seu nascimento. Tornou-se uma célebre e prolífica escritora, filósofa e conferencista, uma personagem famosa pelo extenso trabalho que desenvolveu em favor das pessoas com deficiência. Keller viajou muito e expressava de forma contundente suas convicções. Membro do Socialist Party of America e do Industrial Workers of the World, participou das campanhas pelo voto feminino, direitos trabalhistas, socialismo e outras causas progressistas. Ela foi introduzida no Alabama Women's Hall of Fame em 1971.
Infância, doença e as primeiras palavras
Nascida na cidade de Tuscumbia, Alabama, em 27 de junho de 1880, Helen era filha de Kate Adams Keller e do Coronel Arthur Keller (capitão do Exército dos Estados Confederados da América). Helen ficou cega e surda aos 18 meses de idade devido a uma doença diagnosticada então como "febre cerebral" (hoje acredita-se que possivelmente tenha sido escarlatina ou meningite). Já nessa época ela conseguia comunicar-se com a filha da cozinheira da família, através de sinais. Aos 7 anos, Keller já tinha mais de 60 sinais com os quais se comunicava com sua família.
Em 1886, sua mãe, inspirada pelo relato de Charles Dickens em American Notes a respeito da educação bem-sucedida de outra mulher surda, Laura Bridgman, despachou a jovem Keller, acompanhada de seu pai, para ver o médico J. Julian Chisolm, especialista em olhos, ouvidos, nariz e garganta, em Baltimore, em busca de aconselhamento. Chisolm encaminhou os Kellers para Alexander Graham Bell, que estava trabalhando com uma criança surda à época. Bell, por sua vez, os aconselhou a contratar a Perkins Institute for the Blind, escola onde Laura Bridgman havia sido educada, localizada em South Boston. Michael Anagnos, diretor da escola, solicitou à ex-aluna, Anne Sullivan, ela própria uma pessoa com deficiência visual, para tornar-se instrutora de Helen. Este foi o início de uma relação de 49 anos durante a qual Sullivan tornou-se professora e acompanhante de Keller.
Anne Sullivan chegou à casa de Keller em 3 de março de 1887, quando tinha 20 anos, e imediatamente começou a ensiná-la a se comunicar soletrando palavras em sua mão, a começar com a palavra 'boneca', utilizando ao mesmo tempo uma boneca que as crianças da Perkins School haviam feito para presentear Helen. Anne acreditava que poderia ensinar à Helen a conexão entre objetos e palavras. Helen aprendeu rapidamente as letras e na ordem correta, mas não sabia que elas formavam palavras. A princípio, Keller ficava frustrada porque ela não entendia que cada objeto possuía uma palavra única para identificá-la. Na realidade, quando Sullivan tentava ensinar para ela a palavra "caneca", Keller ficou tão frustrada que chegou a quebrar a caneca. Seu grande salto evolutivo em comunicação começou no mês seguinte (em 5 de abril de 1887), quando compreendeu que os movimentos que sua professora fazia na palma de sua mão, enquanto deixava a água escorrer sobre sua outra mão, simbolizavam a ideia de "água". Naquele mesmo dia, Helen aprendeu 30 palavras e, a partir de então, ela praticamente levou Sullivan à exaustão perguntando os nomes de outros objetos familiares de seu mundo. Helen passou a entender o alfabeto tanto o manual, quanto impresso em relevo, o que facilitou a leitura e escrita para ela.
Formação, trabalho literário e atuação política e social
Em 1902 estreou na literatura publicando sua autobiografia A História da Minha Vida. Depois iniciou a carreira no jornalismo, escrevendo artigos no Ladies Home Journal. A partir de então não parou de escrever.
Em 1904 graduou-se bacharel em filosofia, como membro da Phi Beta Kappa do Radcliffe College, instituição que a agraciou com o prêmio Destaque a Aluno, no aniversário de cinquenta anos de sua formatura, tornando-se a primeira pessoa surdo-cega da história a conquistar um bacharelado.
Keller se tornou uma palestrante e escritora mundialmente famosa. Ela é lembrada como uma defensora das pessoas com deficiência, em meio a inúmeras outras causas. A comunidade surda foi amplamente impactada por ela. Ela viajou para vinte e cinco países diferentes, dando palestras motivacionais sobre as condições dos surdos. Ela era sufragista, pacifista, socialista radical, defensora do controle de natalidade e oponente de Woodrow Wilson. Keller viajou para mais de 40 países com Sullivan, fazendo várias viagens ao Japão e se tornando a favorita do povo japonês. Keller conheceu todos os presidentes dos Estados Unidos, de Grover Cleveland a Lyndon B. Johnson, e foi amiga de muitas figuras famosas, incluindo Alexander Graham Bell, Charlie Chaplin e Mark Twain. Keller e Twain foram considerados radicais políticos aliados da política de esquerda.
Ao longo da vida foi agraciada com títulos e diplomas honorários de diversas instituições, como a universidade de Harvard e universidades da Escócia, Alemanha, Índia e África do Sul. Em 1952 foi nomeada Cavaleiro da Legião de Honra da França. Foi condecorada com a Ordem do Cruzeiro do Sul, no Brasil, com a do Tesouro Sagrado, no Japão, dentre outras. Foi membro honorário de várias sociedades científicas e organizações filantrópicas nos cinco continentes.
Socialista, era filiada ao Partido Socialista da América (SPA) e ativamente fez campanha e escreveu em apoio à classe trabalhadora de 1909 a 1921. Em muitos de seus discursos e escritos desenvolveu uma intensa luta pelo sufrágio universal, ou seja, pelo direito a voto às mulheres, negros, pobres, imigrantes, nativos americanos e outras minorias; além disso, ela discutiu sobre os impactos da guerra e apoiou causas que se opunham à intervenção militar. Ela fez terapia fonoaudiológica para ter sua voz mais bem ouvida pelo público. Quando a imprensa sob propriedade da família Rockefeller se recusou a imprimir seus artigos, ela protestou até que seu trabalho foi finalmente publicado. Em 1912 se filiou à Industrial Workers of the World (IWW ou "os Wobblies"), passando a defender um sindicalismo revolucionário-democrático. Keller também desenvolveu diversos trabalhos em apoio aos direitos trabalhistas. Ela apoiou o candidato do Partido Socialista, Eugene V. Debs, em cada uma de suas campanhas à presidência. Antes de ler Progresso e Pobreza, Helen Keller já era uma socialista que acreditava que o georgismo era um bom passo na direção certa. Mais tarde, ela escreveu sobre encontrar "na filosofia de Henry George uma rara beleza e poder de inspiração, e uma fé esplêndida na nobreza essencial da natureza humana".
Em 1924, começou a trabalhar para a American Foundation for the Blind (instituição fundada em 1921 em prol das pessoas com cegueira e baixa visão), onde ficou por mais de 40 anos. Nessa organização teve todo o apoio para lutar pelos direitos das pessoas com perda visual e devido às suas viagens pelos Estados Unidos várias conquistas foram obtidas: a criação de comissões estaduais para cegos, de centros de reabilitação e acessibilidade na educação das pessoas com perda da visão.
De 1946 a 1957, Helen empreendeu 7 viagens, visitando 35 países nos 5 continentes e encontrando vários líderes mundiais como Winston Churchill, Jawaharlal Nehru e Golda Meir. Aos 75 anos de idade, em 1955, ela iniciou sua mais longa viagem: percorrendo 64 374 km (40 mil milhas), por 5 meses, através da Ásia.