O chamado Incidente de Mayerling refere-se a uma série de eventos que levaram à controversa morte do arquiduque Rodolfo da Áustria e de sua amante, a baronesa Maria Vetsera. Rodolfo era o único filho varão do imperador Francisco José I da Áustria e da imperatriz Isabel, e herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. Sua amante era filha do falecido barão Albin Vetsera, diplomata na corte austríaca. Os corpos do arquiduque, de 30 anos, e da baronesa, de 17, foram descobertos no Imperial Pavilhão de Caça em Mayerling, nos Bosques de Viena, cerca de 25 km a sudoeste da capital, na manhã de 30 de janeiro de 1889.
A morte do príncipe teve consequências no curso da história no século XIX e interrompeu a linha sucessória imediata ao trono austro-húngaro. Como Rodolfo não havia tido filhos varões, a sucessão recaiu sobre seu tio, o arquiduque Carlos Luís — irmão de Francisco José I que, no entanto, renunciou aos seus direitos em favor de seu filho, o arquiduque Francisco Fernando. Esta desestabilização pôs em risco a reconciliação que vinha se esboçando entre a Áustria e facções húngaras do império, tornando-se um catalisador nos desenvolvimentos inexoráveis que levaram ao assassinato, em 28 de junho de 1914, do arquiduque e de sua esposa, a duquesa Sofia de Hohenberg, por um nacionalista sérvio em Sarajevo — fato que foi um dos estopins da Primeira Guerra Mundial.
Em 1889, muitas pessoas da corte austríaca, incluindo os pais de Rodolfo e sua esposa Estefânia, sabiam de seu envolvimento amoroso com a jovem Maria. O casamento do arquiduque com a princesa da Bélgica não foi particularmente feliz e resultou no nascimento de apenas uma filha, Elisabeth, conhecida como "Erszi".
Em 29 de janeiro de 1889, Francisco José e Isabel ofereceram um jantar para a família antes de partirem para Buda, na Hungria, no dia 31; Rodolfo declinou do convite, alegando uma indisposição. Ele organizou uma caçada em Mayerling para a manhã do dia 30 mas, quando seu criado Loschek foi chamá-lo em seus aposentos, não houve resposta. O mesmo fez o conde José Hoyos, companheiro de caça do arquiduque, mas Rodolfo não atendeu ao seu chamado. Eles tentaram forçar a porta, mas ela estava trancada. Loschek, então, arrombou a porta com um machado e encontrou o quarto às escuras. Rodolfo encontrava-se sentado (alguns autores sugerem que ele estava deitado) imóvel ao lado da cama, inclinado para a frente e sangrando pela boca. Na mesa de cabeceira havia um copo, que levou Loschek a acreditar que o príncipe havia ingerido veneno, pois sabia que a estricnina provoca sangramentos. Na cama jazia o corpo de Maria Vetsera, pálida, fria e já bastante rígida. A versão errônea de que havia ocorrido um envenenamento — e mesmo que a baronesa teria envenenado Rodolfo e se matado — persistiu por algum tempo.
Hoyos não viu os corpos de perto, mas correu para a estação e tomou um trem especial para Viena. Ele procurou o conde Paar, ajudante de ordens do imperador, e pediu-lhe que transmitisse a terrível notícia ao soberano. O sufocante protocolo que regia cada passo dado em Hofburg prevaleceu neste momento; Paar protestou que somente a imperatriz poderia dar tão catastrófica notícia ao imperador. O barão Nopcsa, veador da imperatriz, foi encarregado da tarefa, mas este preferiu entender-se antes com a condessa Ida von Ferenczy, dama de companhia favorita de Isabel, para determinar como Sua Majestade deveria ser informada do ocorrido. Isabel estava tendo aulas de grego e ficou impaciente com a interrupção. Bastante pálida, Ferenczy anunciou que o barão Nopcsa tinha notícias urgentes a dar, ao que a imperatriz respondeu que ele deveria aguardar e voltar mais tarde. A condessa insistiu que o barão deveria ser recebido imediatamente e acrescentou que ele tinha graves notícias sobre o príncipe herdeiro. Este relato foi feito pela condessa Ferenczy e pela arquiduquesa Maria Valéria, a quem Sissi ditou as memórias do incidente, além do registro em seu diário.
A condessa entrou novamente na sala, onde encontrou a imperatriz bastante abalada e chorando incontrolavelmente. Neste momento, o imperador veio até os aposentos, mas foi obrigado a aguardar do lado de fora junto com Nopcsa, que fazia um visível esforço para se controlar. Isabel deu a notícia a seu marido em particular e ele deixou o local completamente devastado.
O chefe de polícia foi convocado e os serviços de segurança nacional isolaram o pavilhão de caça e toda a área ao redor. O corpo de Maria Vetsera foi enterrado o mais rápido possível, sem inquérito e em segredo — nem mesmo sua mãe teve permissão de participar do enterro.
Em nome do imperador, o primeiro-ministro conde Eduard Taaffe emitiu um comunicado ao meio-dia informando que Rodolfo havia morrido "devido à rutura de um aneurisma no coração". A família imperial, a corte e, aparentemente, até mesmo a mãe de Maria, a baronesa Helena Vetsera, ainda acreditavam na versão do envenenamento. Somente quando a comissão médica da corte, chefiada pelo Dr. Widerhofer, chegou a Mayerling naquela tarde é que a causa precisa da morte foi estabelecida. Às 6 horas da manhã do dia 31, Widerhofer encaminhou um relatório ao imperador com a versão oficial dos fatos, que foi publicada naquele mesmo dia: "Sua Alteza Imperial e Real, o Príncipe Herdeiro Arquiduque Rodolfo, morreu ontem em sua residência de caça de Mayerling, próximo a Baden, pela ruptura de um aneurisma no coração".
Correspondentes estrangeiros dirigiram-se a Mayerling e logo se soube que a amante de Rodolfo estava implicada em sua morte. A primeira versão oficial sobre um ataque cardíaco foi rapidamente abandonada e a versão da "insuficiência cardíaca" foi alterada. Foi anunciado que, num pacto de suicídio, o arquiduque havia atirado na baronesa, sentando-se depois ao lado de seu corpo durante várias horas antes de se matar. Surgiram relatos de que Rodolfo e o imperador haviam tido recentemente uma violenta discussão, onde Francisco José exigia que o filho terminasse seu relacionamento com a adolescente. Suas mortes teriam sido o resultado trágico de uma decisão desesperada tomada pelos amantes contrariados "enquanto o arquiduque encontrava-se mentalmente desequilibrado". A polícia encerrou as investigações com surpreendente rapidez, em aparente resposta aos desejos do imperador.
Francisco José fez tudo o que pôde para obter autorização da Igreja para que Rodolfo pudesse ser enterrado na Cripta Imperial, algo que seria impossível devido ao fato do arquiduque ter cometido assassinato e suicídio. A dispensa especial foi obtida a partir do Vaticano, que declarou que Rodolfo encontrava-se em estado de "desequilíbrio mental", permitindo que ele fosse sepultado na Igreja dos Capuchinhos, em Viena, junto a outros 137 Habsburgos. O dossiê sobre as investigações e as ações relacionadas não foram depositados nos arquivos do Estado, como normalmente acontecia.
Acredita-se que a notícia de que Rodolfo havia se desentendido seriamente com o pai por causa da baronesa tenha sido espalhada por agentes do chanceler alemão Otto von Bismarck, que nutria pouca simpatia pelo politicamente liberal arquiduque. Tal acontecimento foi posto em dúvida por muitos parentes próximos de Rodolfo, que conheciam o chanceler pessoalmente.
A imperatriz Vitória da Alemanha registrou em 9 de abril de 1889:
"O príncipe Bismarck veio ontem. Foi uma pílula amarga para mim ter que recebê-lo depois de tudo que aconteceu e com tudo o que está acontecendo. Ele falou muito sobre Rodolfo e falou sobre uma cena que havia acontecido com o imperador, segundo o relato de Reuss. Talvez Reuss esteja errado. Eu acho que é muito provável."
Em carta datada de 20 de abril de 1889 e dirigida à sua mãe, a rainha Vitória, a imperatriz alemã declarou:
"… Tenho ouvido diferentes coisas sobre o pobre Rodolfo que talvez possam lhe interessar. O Príncipe Bismarck me disse que as violentas cenas e altercações entre o Imperador e Rodolfo tinham sido a causa do suicídio de Rodolfo. Eu respondi que tinha ouvido isso e que duvidava muito, ao que ele disse que Reuss havia escrito isso e que assim foi! Ele me mandaria o despacho para eu ler, se quisesse, mas eu recusei. Eu não disse o que pensei, que em trinta anos tive a experiência de quantas mentiras os agentes diplomáticos do Príncipe Bismarck (com algumas exceções) escreveram a ele e, portanto, geralmente duvido completamente daquilo que escrevem, a não ser que eu saiba que são homens honestos e de confiança. Szechenyi, o embaixador em Berlim, que conhecemos muito bem, diz-me que não houve cenas com o Imperador, que disse a Szechenyi: Dies ist der erste Kummer, den mein Sohn mir macht. Eu te dou as notícias que valem a pena. O General Loe ouviu de fontes austríacas que a catástrofe não havia sido planejada para aquele dia! Mas que a jovem destruíra a si mesma e Rodolfo, vendo que mais nada lhe restara, havia se matado com uma Gewehr Förster que ele apoiou no chão e depois pisou no gatilho. Loe considera, como eu, uma desgraça a morte do pobre Rodolfo. O chanceler, eu acho, não lamenta, e não gosto dele!"