Isabel da Baviera, também referida como Isabel de Wittelsbach-Ingolstádio ou de Wittelsbach-Ingolstadt (em francês: Isabelle de Bavière, Isabeau de Bavière; c. 1370 — 24 de setembro de 1435) foi rainha da França como esposa do rei Carlos VI, com quem se casou em 1385. Nasceu na antiga e prestigiosa Casa de Wittelsbach, filha mais velha do duque Estêvão III da Baviera-Ingolstádio e Tadeia Visconti de Milão. Isabel foi enviada à França quando tinha cerca de 15 ou 16 anos, sob aprovação do jovem rei francês; os dois se casaram três dias depois de seu primeiro encontro.
Em 1389, Isabel foi homenageada com uma cerimônia luxuosa de entrada e coroação em Paris. Carlos sofreu o primeiro ataque de sua vida, uma doença mental progressiva em 1392, e foi forçado a retirar-se temporariamente do governo. Estes acontecimentos ocorreram com uma frequência cada vez maior, deixando uma corte dividida por facções políticas e mergulhada em extravagâncias sociais. Uma mascarada em 1393 para uma de suas damas de companhia — um evento posteriormente conhecido como "Baile dos Ardentes" — terminou em desastre com o rei quase queimado até a morte. Embora o monarca tenha exigido a retirada de Isabel da sua presença durante seus ataques de doença, sempre lhe permitiu autoridade para agir em seu nome, e concedeu-lhe o papel de regente para o Delfim de França (seu herdeiro), dando-lhe um lugar no conselho de regência, muito mais poder do que era habitual para uma rainha medieval.
A enfermidade de Carlos criou um vazio no poder que levou à guerra civil dos Armagnacs e Borguinhões entre os partidários de seu irmão, Luís de Orleães, e os duques reais de Borgonha. Isabel trocou alianças entre as facções, a escolha de rumos que acreditava mais favoráveis para o herdeiro do trono. Quando optou por seguir os Armagnacs, os Borguinhões acusaram-na de adultério com Luís de Orleães; quando tomou o partido dos Borguinhões, os Armagnacs tiraram-na de Paris e prenderam-na. Em 1407 João sem Medo assassinou o duque de Orleães, provocando hostilidades entre as facções. A guerra terminou logo após o filho mais velho da rainha, Carlos, assassinar João sem Medo em 1419 — um ato que o levou a ser deserdado. Isabel esteve presente na assinatura do Tratado de Troyes, em 1421, no qual foi acordado que o rei inglês herdaria a coroa francesa após a morte de seu marido, Carlos VI. Ela viveu na Paris ocupada pelos ingleses até sua morte em 1435.
Embora defendida pela autora contemporânea Cristina de Pisano, a rainha Isabel foi vista como uma perdulária e amante irresponsável. No final do século XX e início do século XXI historiadores reexaminaram as extensas crônicas escritas durante sua vida, concluindo que muito de sua reputação negativa era imerecida e, provavelmente, o resultado de propaganda política.
Os pais de Isabel eram o duque Estêvão III da Baviera-Ingolstádio e Tadeia Visconti, com quem se casou por um dote de 100 000 ducados. Ela provavelmente nasceu em Munique, onde foi batizada como Isabel na Igreja de Nossa Senhora Bendita. Era da antiga e bem estabelecida família Wittelsbach, descendente de Carlos Magno, e também era bisneta do Sacro Imperador Romano e Wittelsbach Luís IV. Naquele período a Baviera era o mais poderoso dos estados alemães e dividida entre os membros da Casa de Wittelsbach, onde confusamente todos usaram o título de Duque da Baviera.
Seu tio, o duque Frederico da Baviera-Landshut, sugeriu em 1383 que ela fosse considerada como noiva para o rei Carlos VI de França. O casamento foi proposto novamente no luxuoso matrimônio borgonhês duplo em Cambrai em abril 1385 — João sem Medo e sua irmã Margarida de Borgonha casaram-se com Margarida e Guilherme da Baviera-Straubing, respectivamente. Carlos, então com 17 anos, cavalgou nos torneios do casamento. Era um homem jovem e atraente, em boa forma física, que gostava de justas e caça e estava animado em se casar.
O tio de Carlos VI, o duque Filipe, o Audaz de Borgonha, acreditava que o casamento proposto era ideal para construir uma aliança com o Sacro Império Romano e contra os ingleses. O pai de Isabel concordou com relutância e a mandou para a França com seu irmão, o tio dela, com o pretexto de fazer uma peregrinação em Amiens. Estava convencido de que ela não estava sabendo que estava sendo enviada à França para ser examinada como uma noiva em potencial para Carlos, e se recusou a permissão para que ela fosse examinada nua, um costume na época. Segundo o cronista contemporâneo Jean Froissart, Isabel tinha 13 ou 14 anos quando o matrimônio foi proposto e cerca de 16 no momento do casamento, em 1385, sugerindo a data de aniversário por volta de 1370.
Antes de sua apresentação perante o rei, visitou Hainaut por cerca de um mês, ficando com ela seu tio-avô duque Alberto I, governante de alguns territórios da Baviera-Straubing e Conde de Holanda. Sua esposa, Margarida de Brieg, substituiu o estilo bávaro das vestes da Isabel, considerado-as impróprias como trajes da corte francesa, e ensinou-lhe a etiqueta apropriada para a corte do país. Aprendeu rapidamente, sugerindo que tinha um caráter inteligente e perspicaz. Em 13 julho de 1385, viajou para Amiens para ser apresentada ao rei Carlos.
Froissart escreveu sobre o encontro em suas Crônicas, dizendo que Isabel ficou imóvel enquanto estava sendo inspecionada, exibindo um comportamento perfeito para os padrões de sua época. Os arranjos foram feitos para que os dois se casassem em Arras, no primeiro encontro Carlos sentiu a "felicidade e amor entrando em seu coração, pois viu que ela era linda e jovem, e assim desejou muito olhá-la e possuí-la". Ela ainda não falava francês e pode não ter refletido a beleza idealizada do período, talvez herdando escuras características italianas de sua mãe, até então fora de moda, mas Carlos certamente a aprovou visto que ambos se casaram três dias depois. Froissart documentou o casamento real, brincando sobre os convidados lascivos na festa e o "jovem casal quente".
O rei aparentemente amava sua jovem esposa, lhe esbanjando presentes. Na ocasião de seu primeiro Ano Novo em 1386, deu-lhe uma sela de palafrém feita de veludo vermelho, enfeitado com cobre e decorado com um entrelaçado com as letras K e E (isto é, Karol e Elisabeth), e ele continuou a dar-lhe presentes de anéis, utensílios de mesa e vestuário. Os tios também, aparentemente, ficaram satisfeitos com o matrimônio, que os cronistas contemporâneos, nomeadamente Froissart e Michel Pintoin (o Monge de St. Denis), descreveram de forma semelhante como um jogo enraizado na vontade e com base na beleza dela. No dia após o casamento, Carlos foi para uma campanha militar contra os ingleses, e Isabel foi para Creil para viver com sua tia-avó Branca, duquesa de Orleães, que ensinou-lhe as tradições da corte. Em setembro, fixou residência no Castelo de Vincennes, onde nos primeiros anos de seu casamento Carlos frequentemente se juntou a ela, e que se tornou sua casa favorita.
A coroação de Isabel foi celebrada em 23 de agosto de 1389 com uma entrada cerimonial luxuosa em Paris. Sua cunhada e também prima em segundo grau, Valentina Visconti, que se casara com seu próprio primo Luís de Orleães (irmão mais novo de Carlos) dois anos antes por procuração e dispensa papal, chegou em grande estilo, escoltada através dos Alpes de Milão por 1 300 cavaleiros que transportavam luxos pessoais, como livros e uma harpa. As mulheres nobres na procissão de coroação estavam vestidas com trajes luxuosos com bordados em fio de ouro, e andavam em liteiras escoltadas por cavaleiros. Filipe, o Audaz usava um gibão bordado com 40 ovelhas e 40 cisnes, cada um decorado com um sino feito de pérolas.
A procissão durou de manhã até a noite. As ruas estavam cheias de pintura viva (Tableau vivant) exibindo cenas das Cruzadas, Deësis e as Portas do Paraíso. Mais de mil burgueses ficaram ao longo da rota; aqueles de um lado estavam vestidos em revestimento verde, os da frente em vermelho. A procissão começou no Porte Saint-Denis e passou sob um dossel de pano azul-celeste debaixo do qual crianças vestidas como anjos cantaram, virando na Rue Saint-Denis antes de chegar em Notre Dame para a cerimônia de coroação. Como Tuchman descreveu o evento, "Tantas maravilhas deviam ser vistas e admiradas que já era noite, antes da procissão atravessar a ponte que leva à Notre Dame, quando a exibição culminou."