Neste Dia

Jean-Marie Lustiger

Jean-Marie Lustiger (Paris, 17 de setembro de 1926 — Paris, 5 de agosto de 2007) foi um clérigo católico francês. Serviu

Anúncio

Jean-Marie Lustiger (Paris, 17 de setembro de 1926 — Paris, 5 de agosto de 2007) foi um clérigo católico francês. Serviu como arcebispo de Paris entre janeiro de 1981 a fevereiro de 2005 e foi criado Cardeal da Igreja Católica Romana em 1983. Um converso do Judaísmo, era conhecido como "o cardeal judeu".

Lustiger nasceu com o nome Aaron Lustiger, filho de Charles e Gisèle Lustiger, família de comerciantes judeus de origem polonesa que se estabelecera na França antes da Primeira Guerra Mundial. A família respeitava as tradições judaicas, mas a educação dos filhos era laica. Ainda criança, experimentou episódios de antissemitismo. Quando os alemães ocuparam a França em 1940, ele foi enviado para a casa de uma família cristã em Orleães. Começou a ler a Bíblia e visitou a catedral de Orleães na Semana Santa, vindo a converter-se ao catolicismo e recebeu o batismo do bispo de Orleães a 21 de agosto de 1940, adotando o nome Jean-Marie. Seus pais relutantemente consentiram com sua conversão, acreditando que era uma precaução sensata a ser tomada em 1941.

Enquanto seu pai se mudou para a Zone libre, sua mãe retornou a Paris para administrar a loja. Quando as prisões de judeus parisienses começaram em 1942, Giselle foi denunciada pela empregada da família e presa pela polícia francesa. Com isso, o bispo de Orleães providenciou para que Jean-Marie vivesse em um seminário fora de Paris. Mais tarde, ele se juntou ao pai e à irmã no sul da França, onde a família permaneceu escondida até a Libertação. Após a guerra, o pai de Lustiger, auxiliado pelo Rabino Chefe de Paris, tentou anular o batismo do filho alegando que Aaron havia se convertido por razões empíricas, um argumento que Jean-Marie negou veementemente.

Lustiger foi educado na Universidade de Paris (Sorbonne), onde se licenciou em artes, e no Instituto Católico de Paris. Fez sua primeira visita a Israel em 1951. Foi ordenado ao sacerdócio em 17 de abril de 1954, pelo bispo Émile-Arsène Blanchet, o mesmo que o ordenara diácono um ano antes, na capela de São José des Carmes no Instituto Católico de Paris. Entre 1954 e 1959 foi um aumônier (capelão) na Universidade de Paris. Entre 1959 e 1969 foi diretor do Centro Richelieu, que treina capelães da universidade. Ele era frequentemente um guia turístico para peregrinos e grupos de estudantes para Roma, Chartres e a Terra Santa. Entre 1969 e 1979, foi pároco da Igreja de Sainte-Jeanne-de-Chantal, no XVI arrondissement de Paris.

Em 10 de novembro de 1979, Lustiger foi nomeado bispo de Orléans pelo Papa João Paulo II. No dia 8 de dezembro de 1979, recebeu a ordenação episcopal do Cardeal François Marty, na Catedral de Orleães, auxiliado pelo arcebispo Eugène-Marie Ernoult e o bispo Daniel Pézeril, na presença do Núncio Apostólico Angelo Felici e dezessete bispos.

Em 31 de janeiro de 1981, foi promovido à sé metropolitana de Paris. Em 12 de março o papa também o nomeou Ordinário para fiéis de rito oriental na França.

Foi elevado a cardeal no consistório de 2 de fevereiro de 1983 com o título de presbítero de Santos Marcelino e Pedro, depois com o de São Luis dos Franceses, em 26 de novembro de 1994.

Durante seu governo, ordenou mais de 250 padres para a arquidiocese. Tornou-se Arcebispo emérito de Paris em 11 de fevereiro de 2005, quando sua renúncia foi aceita, e Ordinário emérito para fiéis de rito oriental na França sem ordinários próprios em 14 de março de 2005. Participou como cardeal eleitor no conclave de 2005.

Tornou-se membro da Académie Française em 15 de junho de 1995, na cátedra do Cardeal Albert Decourtray. Recebeu os títulos de Doutor honoris causa das universidades de Melbourne, Augsbourg e Loyola de Chicago. Foi destinatário do Grande cordão da Ordem Nacional do Cedro (Líbano); Bailio Grã-Cruz de Honra e Devoção da Ordem Soberana e Militar de Malta; Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (Portugal).

Com a aposentadoria, passou a viver no pequeno laranjal no jardim da casa de repouso para padres em Paris. No início de 2007, ele anunciou que estava sofrendo de uma doença grave e, em maio, bastante frágil, fez uma aparição emocionada diante da Académie Française. Após uma longa batalha contra o câncer ósseo e de pulmão, faleceu aos 80 anos.

Antes de morrer, pediu que seu funeral incluísse ambas as religiões, judaica e católica, bem como que uma placa comemorativa fosse colocada dentro de Notre-Dame com os dizeres: "Eu nasci judeu. Recebi o nome do meu avô paterno, Aron, tornei-me cristão pela fé e pelo batismo, e permaneci judeu como os apóstolos".

Centenas de pessoas, incluindo importantes líderes judeus da França, sobreviventes do Holocausto e o presidente francês Nicolas Sarkozy, se reuniram para ver o simples caixão de madeira de Lustiger ser carregado por multidões e colocado na praça de pedra em frente à Notre-Dame. O sobrinho-bisneto de Lustiger, Jonas, leu um salmo em hebraico e francês, e colocou uma tigela de terra coletada de locais judaicos e cristãos na Terra Santa sobre o caixão. Seu primo e sobrevivente de um campo de concentração, Arno Lustiger, liderou a leitura do Kadish do Enlutado, entre uma série de orações centrais ao culto judaico. Depois, a cerimônia se mudou para dentro da catedral, onde o sucessor de Lustiger, Andre Vingt-Trois, liderou uma missa fúnebre. Foi sepultado na cripta da catedral, onde outros arcebispos estão enterrados.

O Papa Bento XVI lembrou "desta grande figura da Igreja na França", destacando-o como "pastor apaixonado pela busca de Deus e pelo anúncio do Evangelho ao mundo", bem como um "homem de fé e de diálogo, que se dedicou generosamente a fim de promover relações cada vez mais fraternas entre cristãos e judeus". O presidente Nicolas Sarkozy disse que desaparecera uma das maiores figuras da vida espiritual e religiosa do País. Outros importantes políticos do país, como o primeiro-ministro François Fillon, o líder centrista François Bayrou, o presidente da Assembleia Nacional Bernard Accoyer, além do presidente da comunidade judaica francesa Richard Prasquier e mesmo a Mesquita de Paris, saudaram a memória do Cardeal e prestaram suas homenagens. O presidente do Congresso Judaico Mundial, lamentou seu falecimento, dizendo "Ele sempre soube o que o antissemitismo, a perseguição e o ódio significavam para o povo judeu, e ele lutou arduamente para superá-los. É por isso que ele será lembrado por muitos no mundo judaico".

Posições públicas e relação com o judaísmo

Quando empossado como bispo de Orleães, Lustiger evitou qualquer referência ao seu antecessor liberal Guy-Marie Riobé, um pacifista intimamente ligado à Ação Católica. O clero francês liberal considerou a nomeação de Lustiger como arcebispo uma derrota para eles e não conseguiu ser eleito presidente da Conferência Episcopal da França em quatro ocasiões. Ganhou a amizade do Papa João Paulo II, mas não tinha a simpatia de membros da Cúria Romana. Embora ele apoiasse totalmente as opiniões de João Paulo II sobre bioética, ele considerava o uso do preservativo aceitável se um dos parceiros tivesse HIV. Ele fundou a ONG Tibériade para atender pacientes com AIDS. Ele foi considerado, principalmente por seus críticos, como autoritário.

Era conservador, opondo-se ao aborto e à ordenação de mulheres. Criou uma estação de rádio cristã, a Rádio Notre Dame, em 1981 e expôs questões desde a onda de calor na Europa em 2003 que matou milhares de pessoas na França até a construção de uma Europa unida. Também foi o responsável pela fundação do KTO, canal de televisão católico em língua francesa, em 1999.

Em 1984, um ano após ser feito cardeal, dirigiu os protestos multitudinários contra um projeto de lei que pretendia restringir as ajudas públicas às escolas confessionais. Foi uma vitória para ele, pois o ministro Alain Savary se demitiu, a lei não foi promulgada e o presidente Mitterrand descobriu a teimosia e a força de convicção do cardeal. Ele desenvolveu relações de trabalho bastante boas com o governo de Mitterrand, apesar de suas divergências. Em 1996, foi ele quem celebrou a missa em Notre-Dame, em honra ao presidente socialista morto, com quem teve uma boa amizade.

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
Jean-Marie Lustiger | World in Stories