James "Jim" Clark Jr., OBE (Kilmany, 4 de março de 1936 — Hockenheim, 7 de abril de 1968) foi um automobilista britânico nascido na Escócia, amplamente reconhecido como um dos maiores pilotos da história do esporte a motor. Ele conquistou o título mundial de Fórmula 1 em duas ocasiões, em 1963 e 1965, e se destacou por sua extraordinária versatilidade, competindo com sucesso em diversas categorias automobilísticas, incluindo Stock Car (NASCAR), carros de turismo (BTCC), ralis, corridas de resistência (24 Horas de Le Mans) e as 500 Milhas de Indianápolis, onde triunfou na edição de 1965.
Clark fez história ao se tornar o único piloto até hoje (2025) a vencer tanto as 500 Milhas de Indianápolis quanto o campeonato mundial de Fórmula 1 no mesmo ano, 1965, um feito que exigiu abrir mão do prestigiado Grande Prêmio de Mônaco para competir na lendária "Brickyard". Na ocasião, ele pilotou o primeiro carro de motor traseiro a vencer em Indianápolis, revolucionando a categoria. Outros grandes nomes, como Graham Hill, Mario Andretti, Emerson Fittipaldi e Jacques Villeneuve, também conquistaram ambas as coroas, mas nunca na mesma temporada. Clark é indissociavelmente ligado à equipe Lotus, com a qual competiu durante toda sua trajetória na Fórmula 1, ajudando a consolidar a marca como uma das mais icônicas do esporte.
Sua carreira foi tragicamente interrompida em 7 de abril de 1968, quando sofreu um acidente fatal durante uma corrida de Fórmula 2 no circuito de Hockenheim, na Alemanha. Até aquele momento, Clark detinha o recorde de maior número de vitórias em Grandes Prêmios de Fórmula 1 (25) e de pole positions (33), marcas que o estabeleceram como uma lenda do automobilismo mundial.
James Clark Jr. nasceu em 4 de março de 1936, na pequena vila de Kilmany, no condado de Fife, Escócia, filho de James Clark Sr., um fazendeiro, e Helen Clark. Ele era o caçula de cinco filhos — quatro irmãs e ele — e cresceu em um ambiente rural, onde a agricultura era o sustento da família. Desde muito jovem, Clark demonstrou fascínio por máquinas e velocidade, aprendendo a dirigir sozinho na fazenda dos pais. Seu primeiro contato com o automobilismo foi aos 13 anos, quando foi para uma escola particular em Edimburgo e leu pela primeira vez em livros e revistas sobre o esporte.
A paixão de Clark pelas corridas começou a se intensificar, e Jim teve de convencer os pais para usar os carros da fazenda da família para treinar. Aos 15 anos, passou a acompanhar eventos locais. Tirou a carteira de motorista no aniversário de dezessete anos, e a partir daí, começou a participar de ralis amadores, enfrentando a desaprovação da família e da comunidade, que viam o automobilismo como um "passatempo para imbecis". Apesar das críticas e da pressão para que seguisse a tradição agrícola da família, Clark persistiu, declarando em 1964, já como campeão mundial, que sua decisão de se tornar piloto o transformou no "idiota local" aos olhos dos vizinhos. Essa determinação o levou a iniciar sua carreira profissional em 1956, aos 20 anos, idade mínima para competir oficialmente no Reino Unido na época.
Clark era conhecido por sua personalidade tímida, reservada e introspectiva, características que contrastavam com sua audácia nas pistas. Fora do cockpit, ele evitava os holofotes, preferindo uma vida discreta e longe da exposição pública. Amigos e colegas o descreviam como humilde, gentil e modesto, mesmo com a crescente fama que suas conquistas lhe trouxeram, mas indeciso. Ele nunca se casou nem teve filhos, embora tenha tido uma namorada de longa data, Sally Stokes. Clark se dedicou quase integralmente ao automobilismo e, nos momentos de lazer, à vida tranquila no campo ou a hobbies como fotografia e jardinagem.
Nos últimos anos de vida, devido a questões fiscais no Reino Unido, Clark mudou-se para a Suíça, onde viveu até sua morte. Ele também mantinha uma casa em Paris e uma fazenda na Escócia, refletindo seu apego às raízes rurais. Sua simplicidade e autenticidade o tornaram querido por fãs e rivais, e sua morte prematura deixou um vazio não apenas no esporte, mas entre aqueles que o conheciam pessoalmente.
O talento de Jim Clark para o automobilismo emergiu de forma natural. Ele começou a participar de competições amadoras aos 17 anos, inicialmente em ralis e subidas de montanha (hill climbs) locais, usando carros de sua propriedade ou emprestados. Esse interesse crescente alarmava seus pais, que temiam pela segurança do filho e viam as corridas como uma distração irresponsável. Mesmo assim, Clark seguiu em frente, e sua primeira competição oficial ocorreu em 3 de junho de 1956, no Stobs Camp Sprint, na Escócia, onde venceu pilotando um Sunbeam Mk3. Até 7 de outubro daquele ano, ele disputou 8 corridas, aproveitando os meses de primavera e outono — períodos de menor atividade na fazenda — e utilizando, além do Sunbeam, um DKW Sonderklasse cedido pela equipe de Ian Scott Watson, um amigo e entusiasta do automobilismo que desempenhou um papel crucial em seus primeiros passos.
Em 5 de outubro de 1957, Clark obteve sua primeira vitória dentro de um automóvel, ao vencer o Border Motor Racing Club Trophy em Charterhall. E ele conquistaria mais uma ao ganhar a Rest-and-be-Thankful Hillclimb, que ele competiu com seu próprio automóvel, um Triumph TR-3. Seus pais eram contra sua carreira, mas um convite em 1958 para correr pela equipe Border Reivers marcou um ponto de virada, pois ele começou a competir por toda a Inglaterra, angariando certo sucesso.
Um marco em 1958 foi sua primeira competição internacional, em maio, na pista de Spa-Francorchamps, na Bélgica. No final daquele ano, em 26 de dezembro, Clark conheceu Colin Chapman, fundador da Lotus, e disputou sua primeira corrida com um modelo da marca, o Lotus Elite, pela equipe de Scott Watson. Ele terminou em 2º, atrás de Chapman, após ser atingido por um adversário, mas impressionou o engenheiro visionário que mais tarde o levaria à Fórmula 1.
Em 1959, Clark estreou nas 24 Horas de Le Mans com o Lotus Elite, ao lado do experiente John Whitmore. Eles terminaram em 2º na classe GT 1500 e 10º na classificação geral, apesar de contratempos mecânicos. Ainda em 1959, no dia 26 de dezembro, Clark competiu em uma corrida de Fórmula Júnior (equivalente à atual Fórmula 3) com um Gemini, em Brands Hatch, marcando sua transição para as categorias de monopostos. Até então, ele acumulara cerca de 50 vitórias em ralis, subidas de montanha, speed trials e corridas de carros esporte e turismo, estabelecendo as bases para sua ascensão meteórica.
Após estrear na Fórmula Júnior, ele venceu dois campeonatos ingleses da categoria em 1960, empatando em pontos com seu companheiro Trevor Taylor em um deles, e fez sua primeira vitória em Fórmula 2, em Brands Hatch, em agosto. Nesse mesmo ano, estreou na Fórmula 1 com a Lotus, pilotando o Lotus 18 com motor Climax. Sua primeira corrida foi o Grande Prêmio da Holanda de 1960, onde chegou a ocupar a 4ª posição antes de abandonar por falha mecânica. No Grande Prêmio da Bélgica de 1960, em Spa, terminou em 5º, marcando seus primeiros pontos no mundial, apesar dos acidentes fatais de seu colega Alan Stacey e do grave incidente de Stirling Moss, ambos por falhas mecânicas em um traçado então extremamente perigoso. Mas seu maior destaque viria no Grande Prêmio de Portugal, que ele terminou em terceiro, marcando seu primeiro pódio na F1. Clark terminou a temporada de 1960 na décima colocação, com oito pontos.
Em 1961, Clark disputou a temporada de F1 com o Lotus 21, estreando-o no Grande Prêmio de Mônaco, onde largou em 3º e liderou brevemente antes de abandonar. No Grande Prêmio da Holanda, terminou em 3º após intensa disputa com Phil Hill e Stirling Moss, mostrando seu talento mesmo com um carro inferior. Em Monza, no Grande Prêmio da Itália, envolveu-se em um trágico acidente com Wolfgang von Trips, líder do campeonato, que resultou na morte do alemão e de 14 espectadores. Clark foi amplamente culpado pelo incidente até quase o fim de sua vida, o que o afetou emocionalmente. Ele chegou a cogitar uma antecipação de sua aposentadoria, mas Colin Chapman o convenceu a ficar.