João Francisco Lisboa (Pirapemas, 22 de março de 1812 — Lisboa, 26 de abril de 1863) foi um político, historiador, jornalista e escritor brasileiro, a quem a Academia Brasileira de Letras conferiu o patronato da cadeira 18.
João Francisco Lisboa nasceu em 22 de março de 1812, no município de Pirapemas, então província do Maranhão, Brasila. Era o primogênito de João Francisco de Melo Lisboa e Gerardes Rita Gonçalves Nina. Ainda criança, mudou-se para a capital São Luís, onde recebeu as primeiras letras e viveu até cerca de 1823, aos 11 anos de idade. Nessa idade retornou a Pirapemas e lá permaneceu na propriedade da família até os 14 anos. Em 1826, com o falecimento de seu pai, João Francisco – então adolescente – foi enviado de volta a São Luís para buscar sustento. Entre 1827 e 1829 trabalhou como caixeiro (balconista) na casa comercial do negociante Francisco Marques Rodrigues. Essa experiência no comércio durou cerca de dois anos, após os quais Lisboa decidiu abandonar a ocupação mercantil para dedicar-se inteiramente aos estudos e à vida intelectual.
Formação Educacional e Intelectual
Sem ensino formal avançado disponível localmente, João Francisco Lisboa foi essencialmente um autodidata orientado por alguns mestres particulares renomados em São Luís. Dentre seus tutores destacou-se o professor de latim Francisco Sotero dos Reis, importante erudito maranhense. Sob a orientação de Sotero dos Reis, Lisboa aprofundou conhecimentos em línguas clássicas e literatura, base fundamental da educação da elite intelectual da época. Mais tarde, diferenças de opinião política afastariam mestre e discípulo, tornando-os adversários ferrenhos na cena intelectual local. Anos depois, Sotero dos Reis chegou a vangloriar-se de haver contribuído para a educação de João Lisboa, ao que este retrucaria com críticas severas a algumas posições do antigo mentora. Essa educação essencialmente humanística, centrada nos clássicos e na retórica, inseriu Lisboa no clima cultural efervescente de São Luís dos anos 1830. A capital maranhense vivia então intensa atividade literária e jornalística, ganhando de cronistas o epíteto de “Atenas Brasileira” pelo cultivo do estilo clássico e do rigor gramatical na língua vernácula. Nesse ambiente de debates e jornais, formaram-se muitos dos talentos que seriam contemporâneos de João Lisboa – entre eles Odorico Mendes, Gonçalves Dias, Joaquim Serra, Cândido Mendes de Almeida, Sotero dos Reis e outros nomes de relevo regional. Essa convivência intelectual moldou a visão de mundo de João Francisco Lisboa, fortalecendo seu pendor liberal e sua vocação para as letras e a oratória.
A carreira de João Francisco Lisboa desenvolveu-se em dois eixos principais: o jornalismo/política e a pesquisa histórica. Sua estreia jornalística ocorreu muito cedo, em plena adolescência. Em 1830, São Luís foi abalada por agitações políticas (como a revolta da Setembrada em 1831) e intensa movimentação de ideias nos periódicos locais. Inserido nesse cenário, João Lisboa fundou em 1832, aos 20 anos, o seu primeiro jornal, intitulado O Brasileiro. O objetivo desse periódico era dar continuidade à linha editorial liberal e reformista do Farol Maranhense, jornal que havia sido recentemente suspenso pelas autoridades e que era dirigido por José Cândido de Morais. O Brasileiro funcionou, portanto, como uma tribuna de doutrinação liberal, mas sua publicação foi curta: acabou interrompida pela morte de José Cândido de Morais, importante mentor do projeto, no mesmo ano. Em seguida, João Lisboa reativou o próprio Farol Maranhense, assumindo sua direção e mantendo-o em circulação por aproximadamente dois anos (1833-1834). Posteriormente, de 1834 a 1836, dirigiu outro jornal de tendência progressista, o Eco do Norte, que igualmente acabou retirado de circulação pelas pressões políticas da época. Essa primeira fase jornalística de João Lisboa, conforme destaca seu biógrafo Antônio Henriques Leal, caracterizou-se pelo ímpeto combativo e liberal, mas foi truncada pela repressão e instabilidade política.
Em meados da década de 1830, Lisboa temporariamente se afastou da imprensa para ocupar cargos públicos. Foi nomeado secretário do governo provincial do Maranhão, função administrativa que exerceu durante três anos. Em seguida, ingressou formalmente na política representativa, elegendo-se deputado provincial por duas legislaturas consecutivas na Assembleia Legislativa do Maranhão. Casou-se nesse ínterim, em 20 de novembro de 1834, com D. Violante Luísa da Cunha, sobrinha do Visconde de Alcântara. O casal não teve filhos naturais, porém adotou duas meninas da família Cunha – filhas de Olegário José da Cunha, tio de Violante. Uma das filhas adotivas faleceu ainda criança; a segunda, Maria Lisboa da Cunha (mais tarde conhecida como Maria Lisboa Airlie), sobreviveu aos pais e esteve presente em homenagens póstumas a João Lisboa décadas depois.
Em 1838, João Lisboa retornou à atividade jornalística em um momento crítico da história maranhense. A província vivia os estertores da Revolta da Balaiada (1838-1841), conflito social e regional de grande envergadura. Nesse ano, Lisboa assumiu a direção de um novo periódico combativo, a Crônica Maranhense. O jornal, alinhado ao Partido Liberal, tinha caráter de trincheira política, narrando e defendendo em tempo real a causa liberal durante os agitados anos finais da Regência. Sob sua pena, a Crônica Maranhense relatou as lutas e disputas locais de forma contundente, o que a tornou alvo de pressões: o jornal deixou de circular em dezembro de 1840. Nesse período, Lisboa destacou-se como orador e polemista, atuando tanto na imprensa quanto na tribuna parlamentar para advogar por liberdades civis e pelos interesses do povo maranhense. Sua postura franca e oposicionista rendeu-lhe inimigos: foi acusado – injustamente, segundo os registros – de envolvimento como instigador na Balaiada, acusação esta politicamente motivada e sem provas concretas. O clima adverso levou-o a se afastar temporariamente da vida política ativa no início da década de 1840, dedicando-se então à advocacia (atuando como rábula, advogado provisionado sem diploma formal) e aos estudos literários.
Recuperado o equilíbrio político com a maioridade de D. Pedro II em 1840, João Lisboa voltou a participar da vida pública provincial. Em 1847, recusou um convite de correligionários liberais para candidatar-se a deputado geral (isto é, à Câmara dos Deputados no Rio de Janeiro). Preferiu manter sua atuação focada no Maranhão. Acabou aceitando retornar à Assembleia Provincial, elegendo-se novamente deputado provincial no pleito de 1848. Assim, Lisboa continuou presente na política local, porém mantendo também intensa produção intelectual, que passaria a ocupar papel central a partir da década de 1850.
João Lisboa retomou o jornalismo em 1838 durante a Revolta da Balaiada, dirigindo a Crônica Maranhense, jornal liberal que defendia causas progressistas no Maranhão. Sua atuação combativa como editor e orador lhe rendeu inimigos políticos, sendo injustamente acusado de participar da Balaiada. O jornal foi fechado em 1840 devido às pressões.
Com a estabilização política após a maioridade de D. Pedro II, João Lisboa voltou à vida pública. Em 1847, recusou candidatar-se a deputado federal, preferindo atuar localmente. Foi reeleito deputado provincial em 1848, mantendo-se ativo na política maranhense enquanto desenvolvia uma intensa produção intelectual que ganharia destaque na década de 1850.
Durante o período de afastamento no início dos anos 1840, dedicou-se à advocacia (como rábula) e aos estudos literários.
Produção Intelectual, Artística e Científica
A faceta mais notória de João Francisco Lisboa é a de escritor e historiador, campos em que sua produção deixou obras de grande importância para a literatura brasileira do século XIX. Seu trabalho mais celebrado é o Jornal de Timon, uma série de ensaios e folhetins críticos de cunho histórico e político. O Jornal de Timon foi lançado em São Luís a 25 de junho de 1852, quando saiu o primeiro número, um fascículo de aproximadamente cem páginas inteiramente escrito por João Lisboa. Tratava-se de uma publicação periódica, embora atípica: não um jornal diário, mas sim uma revista/libelo editada pelo próprio autor com análises aprofundadas. Os cinco primeiros números do Jornal de Timon circularam mensalmente em 1852. Após uma breve interrupção, em 1854 Lisboa publicou de uma vez, encadernados em volume, os números 6 a 10 (num total de 416 páginas). A série prosseguiu com mais duas edições: os fascículos 11 e 12 foram lançados em março de 1858, quando João Lisboa já residia temporariamente em Lisboa, Portugal. No conjunto, Jornal de Timon perfaz 12 números (reunidos posteriormente em dois volumes). A obra apresenta reflexões mordazes e eruditas sobre a política do Império, a história do Maranhão e do Brasil, além de críticas a personagens influentes. Notavelmente, João Lisboa utilizou o Jornal de Timon para questionar a obra de Francisco Adolfo de Varnhagen – historiador oficial do Império e autor da História Geral do Brasil. Lisboa criticou duramente o método historiográfico de Varnhagen, o que gerou uma polêmica pública: em Lisboa (Portugal) circulou um panfleto anônimo intitulado Diatribe contra a timonice, assinado sob o pseudônimo “Erasmo” pelo cunhado de Varnhagen, Frederico Augusto Pereira de Morais. O próprio Varnhagen replicou às críticas publicando o opúsculo Os índios bravos e o senhor Lisboa (Lima, 1867), onde defende suas posições e ataca as de João Lisboa. Essa controvérsia literária demonstra o alcance e ousadia intelectual do Jornal de Timon, que abordou temas sensíveis (como o papel dos indígenas na História do Brasil) e confrontou visões historiográficas consagradas. A recepção ao Jornal de Timon entre os pares ilustrados foi bastante positiva: críticos como José Veríssimo, Sílvio Romero e Ronald de Carvalho exaltaram a obra pela originalidade e vigor da prosal. José Veríssimo, em especial, elogiou-o como “merecedor dos maiores elogios dos mais abalizados críticos” e ressaltou a potência da escrita de João Lisboa.