D. João I de Portugal (Lisboa, 11 de abril de 1357 – Lisboa, 13 de agosto de 1433), conhecido como o Mestre de Avis, foi o Rei de Portugal de 1385 até sua morte, em 1433, sendo o primeiro monarca português da Dinastia de Avis. É reconhecido principalmente pelo seu importante papel na vitória do Reino de Portugal na guerra de sucessão com Castela, desencadeada pela morte do rei D. Fernando, retratado na Crónica de D. João I. O Mestre de Avis conseguiu preservar a independência do reino e estabelecer a Casa de Avis (ou Joanina) no trono português. O seu longo reinado de 48 anos, o mais extenso de todos os monarcas portugueses, teve início na Era dos Descobrimentos. D. João I é recordado como um rei justo e que trouxe, além da independência, prosperidade ao reino, rendendo-lhe o epíteto «O de Boa Memória»; ele também era referido como «o Bom», às vezes «o Grande», e mais raramente, especialmente na Espanha, como «o Bastardo».
Era o filho ilegítimo do rei D. Pedro I de Portugal com a sua amante Teresa Lourenço, tendo sido escolhido e aclamado como rei nas cortes de Coimbra, em 6 de abril no final da crise de 1383–1385.
D. João era filho ilegítimo do rei D. Pedro I e de Teresa Lourenço, uma dama galega ou de uma filha de Vasco Lourenço da Praça, um mercador de Lisboa. Em 1364, foi consagrado mestre da Ordem de Avis, sendo nomeado por seu pai.
Cresceu com o referido seu avô materno. Depois da investidura nessa ordem de cavalaria, o Mestre passou aos cuidados do comendador-mor da cidade, Fernão Rodrigues de Sequeira. Visitava de vez em quando a corte, desenvolvendo amizade com o seu meio-irmão, o infante D. João, filho de Inês de Castro.
Durante o reinado do rei Fernando I, seu meio-irmão, em 1382 devido a intrigas da então rainha Leonor Teles, João foi preso em Évora e com ordem de execução. Pediu ajuda ao conde de Cambridge, tio de Filipa de Lencastre e foi solto. Este episódio iria tornar João cauteloso.
João foi eleito rei nas cortes da cidade de Coimbra, em abril de 1385, depois de um período de interregno, entre 1383-85, sendo conhecido por crise de 1383-1385. Após a morte do rei Fernando, meio-irmão de João, o país mergulhou em confusão e guerra civil. João foi escolhido para liderar uma revolta contra a regente Leonor Teles, rainha viúva. Tratou-se, então de uma revolução, pois o poder da regência passou para João que foi aclamado em Lisboa, Regedor e Defensor do Reino. Tratou, então de defender o país contra as investidas castelhanas, rodeando-se de amigos que o apoiaram, como Nuno Álvares Pereira que revelou ser um génio militar.
Com o apoio do condestável do reino, Nuno Álvares Pereira e aliados ingleses travou a Batalha de Aljubarrota contra o reino de Castela, que invadira o país. A vitória foi decisiva: Castela retirou-se, acabando bastantes anos mais tarde por o reconhecer oficialmente como rei.
Casou, em 2 de fevereiro de 1387, com Filipa de Lencastre, filha de João de Gante, fortalecendo por laços familiares a aliança Luso-Britânica, esta aliança perdura até hoje. Filipa era uma rainha culta, neta do rei Eduardo III de Inglaterra. Deste casamento nasceram oito filhos, sendo que os dois primeiros morreram novos. Os restantes ficaram conhecidos como Ínclita Geração.
A primeira metade do reinado foi marcado pela guerra contra Castela. Depois de feita a paz, para prestígio internacional, iniciou-se a expansão territorial para África e Atlântico, começando em 1415, a conquista de Ceuta, praça estratégica para a navegação no norte de África, o que iniciaria a expansão portuguesa. Aí foram armados cavaleiros os seus filhos D. Duarte I, D. Pedro e D. Henrique, irmãos da chamada Ínclita Geração.
A grande vitória obtida em Aljubarrota foi assinalada com a construção do Mosteiro da Batalha, um monumento que levou mais de cem anos a concluir de estilo gótico e estilo manuelino, onde está sepultado com a rainha e seus descendentes diretos.
À data da morte do rei D. Fernando, Portugal parecia em risco de perder a independência. A rainha D. Leonor Teles de Menezes era impopular e olhada com desconfiança. Os rumores da ligação amorosa com o nobre galego João Fernandes Andeiro, personagem influente no paço, atraiu todas as críticas contra a sua pessoa e a do conde. Para além do mais, a sucessão do trono recaía sobre a infanta D. Beatriz, única filha de Fernando I e de Leonor Teles de Menezes, casada aos dez anos de idade com o rei João I de Castela.
No entanto, a burguesia e parte da nobreza juntaram-se à voz popular que clamava contra a perda da independência. Dois candidatos apareceram para competir com D. João I de Castela e D. Beatriz pela coroa portuguesa: D. João, filho de D. Pedro I e de Inês de Castro, e D. João, filho de D. Pedro I e de Teresa Lourenço, que veio a tornar-se rei.
Acicatado por um grupo de burgueses e nobres, entre os quais Álvaro Pais e o jovem D. Nuno Álvares Pereira e tomando em linha de conta o descontentamento geral, o mestre de Avis assassina o conde de Andeiro no paço a 6 de dezembro de 1383. Com a posterior fuga de Leonor Teles de Lisboa para Alenquer inicia-se a sucessão de acontecimentos que lhe entregará a regência, a qual de início planeia exercer em nome de seu meio-irmão, o infante D. João. Mas como este último já fora aprisionado por D. João I de Castela, abria-se então a possibilidade política de o mestre de Avis vir a ser rei.
O assassinato do conde Andeiro explica-se, bem mais do que pela vontade de vingar a honra do falecido rei D. Fernando, ainda que este tenha sido um dos motivos, pela razão de que D. João I de Castela havia começado a violar o pacto antenupcial do tratado de Salvaterra de Magos, logo no primeiro dia em que se fez aclamar, em Toledo, «Rei de Castela e Portugal». Aquele tratado antenupcial apenas conferia a si e à sua mulher D. Beatriz, sendo esta herdeira de Fernando I, o título nominal de reis e senhores de Portugal, mas sem deterem poderes de efectiva governação. Além disso, os reinos de Castela e Portugal deviam manter-se separados. Para além de logo ter mesclado as armas dos dois reinos, D. João I de Castela, continuando a desrespeitar o tratado, entra em Portugal pela Guarda nos finais de dezembro de 1383. Queria ser soberano pleno, e não de dois reinos separados mas dum único, considerando que não tinha que atender em nada ao tratado de Salvaterra de Magos porque a sua mulher Beatriz era a herdeira do trono português.
Seguiu-se a crise de 1383–1385, ou Interregno, um período de anarquia e instabilidade política onde as diferentes cidades e vilas de Portugal se declaravam umas por D. Leonor Teles (a maioria destas até ela abdicar da regência em benefício de D. João I de Castela e da filha), outras por D. Beatriz e o seu marido, outras ainda pelo mestre de Avis, além das que se mantiveram neutras, na expectativa do desenlace.
A guerra civil arrastou-se por mais de um ano. Nuno Álvares Pereira, posteriormente Condestável de Portugal, revelou-se um general de grande valor, ao contrário, ao início, do próprio pretendente ao trono. Fernão Lopes é um crítico feroz das acções militares do futuro rei, durante o primeiro ano de guerra, dado que tinha tendência a preferir os cercos e a assistência dos grandes fidalgos, sem outros resultados que não fossem traições, ao contrário da luta militarmente inovadora e terrivelmente eficaz de Nuno Álvares, que conseguiu vencer a batalha dos Atoleiros, no Alentejo e deu boa ajuda a Lisboa, onde o João ficou sitiado sem se ter podido abastecer das provisões necessárias para aguentar durante muito tempo o cerco.
Depois das Cortes de Coimbra, o rei D. João I mostrou-se um bom seguidor das tácticas militares de D. Nuno Álvares e do conselho de guerra deste constituído por escudeiros.
Finalmente, a 6 de abril de 1385, as Cortes portuguesas reunidas em Coimbra elegem o mestre de Avis, D. João, rei de Portugal. Esta tomada de posição significava na prática que a guerra com Castela prosseguiria sem quartel, visto que declarava nulo o estatuto de D. Beatriz de Portugal, rainha consorte de Castela, como herdeira de D. Fernando, e isto devido em especial à violação do tratado de Salvaterra tanto pelo seu marido como por ela (tivera de jurar o tratado em Badajoz, aquando do casamento). «Venhamos a outra maior contradição», disse João das Regras, ao começar a falar da «quebra dos trautos» no seu discurso perante as Cortes de Coimbra. E como os quebrara, não podia suceder ao pai, o «postumeiro (último) possuidor» destes reinos. É por isso que na História de Portugal Beatriz não figura como rainha, pois foram as próprias Cortes de 1385 a proclamar que ao rei D. Fernando I, postumeiro possuidor do reino de Portugal, quem sucedeu foi o rei D. João I, eleito por unanimidade. Isto foi mais pelas ameaças de Nuno Álvares do que pelos argumentos de João das Regras.