João Teixeira de Faria (Cachoeira de Goiás, 24 de junho de 1942), conhecido popularmente no Brasil como João de Deus, João Curador ou João de Abadiânia e em outros países como John of God, é um autoproclamado médium curandeiro, empresário, fazendeiro e criminoso sexual condenado pelo estupro em série de centenas de mulheres. Atuava sobretudo na cidade de Abadiânia, no estado de Goiás, tendo ainda realizado excursões internacionais por países como Peru, Alemanha, Estados Unidos, Grécia, Suíça, Áustria, Austrália e Nova Zelândia, dentre outros. Como John of God, foi apresentado em programas televisivos nesses países desde a década de 2000. Ganhou destaque internacional após Oprah Winfrey participar de cerimônias promovidas por ele em 2012 e apresentá-lo em seus programas.
Dentre os consulentes famosos do suposto médium estão os políticos Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Bill Clinton e Hugo Chávez, o psicoterapeuta Wayne Dyer, o humorista Chico Anysio, a apresentadora Xuxa e os atores Marcos Frota e Shirley MacLaine. O ilusionista e desenganador canadense James Randi e o investigador estadunidense de supostos fenômenos paranormais Joe Nickell expuseram suas supostas cirurgias espirituais como envolvendo nada mais do que truques de ilusionismo, e afirmaram não haver evidências de que os benefícios relatados pelos pacientes sejam algo mais do que efeito placebo.
No fim de 2018, João foi denunciado por abuso sexual de mais de trezentas mulheres que buscaram sua ajuda. Em 14 de dezembro de 2018, teve o pedido de prisão preventiva decretado pela justiça de Goiás por abuso sexual de centenas de mulheres. Em 16 de dezembro, após ter sido considerado foragido desde 15 de dezembro, entregou-se à polícia e foi preso. De acordo com o Ministério Público, o número total de vítimas pode ultrapassar 330. Além dos crimes sexuais, João de Deus foi indiciado por falsidade ideológica, corrupção de testemunha e coação e posse ilegal de armas de fogo e munição. Em 19 de dezembro de 2019, foi condenado a 19 anos de prisão. Em 30 de março de 2020, a justiça concedeu prisão domiciliar, em razão da pandemia de COVID-19.
Faria nasceu em Cachoeira da Fumaça, Goiás (atualmente Cachoeira de Goiás). Ele afirma que completou apenas dois anos de educação formal, não possui qualquer treinamento médico e se descreve como um "simples fazendeiro". Ele passou alguns anos viajando de cidade e cidade nos estados de Goiás e Minas Gerais como garrafeiro.
Faria se casou diversas vezes e tem muitos filhos de diferentes esposas e namoradas.
Em 2015, foi diagnosticado com câncer, extraindo o tumor maligno no Hospital Sírio-Libanês, em operação que lhe retirou metade do estômago.
Casa de Dom Inácio e outras instituições em Abadiânia
Por orientação de Chico Xavier e do suposto espírito de Bezerra de Menezes, João de Deus fundou em 1976 a "Casa de Dom Inácio de Loyola", onde atendia seus consulentes. Em um primeiro momento atendendo moradores de Abadiânia e das imediações, na medida em que sua notoriedade foi crescendo João passou a atender pessoas do Brasil inteiro, e após algumas décadas visitantes internacionais começaram a aparecer, eventualmente superando os brasileiros em quantidade. Embora não houvesse cobrança pelos atendimentos, a casa vendia um suposto medicamento denominado "passiflora". Durante seus tempos áureos, o centro atendia mais de mil pessoas por dia. Também era distribuída sopa gratuitamente aos que esperavam atendimento e doava o "passiflora" aos que eram orientados a usá-lo mas não podiam pagar.
Apesar de ser conhecido como "João de Abadiânia", Faria nunca efetivamente morou no município. Durante os mais de quarenta anos em que atendeu na Casa, o suposto médium curador viveu em Anápolis. Vinha e voltava de carro ou avião particular nos dias em que trabalhava em Abadiânia. A Casa possuía uma inflexível semana útil de três dias, funcionando às quartas, quintas e sextas.
A Casa leva o nome de Dom Inácio de Loyola, entidade que João teria incorporado em Abadiânia em seu primeiro atendimento no município, a realização de um parto. Tendo inicialmente se estabelecido em uma sorveteria abandonada próxima ao centro da cidade para ser seu centro de cura, Faria foi coagido a deixar a região por pressão de líderes católicos locais. João foi para a região do "Pau Torto", no fim de Abadiânia, do outro lado da BR-060, e lá ergueu as paredes da Casa de Dom Inácio de Loyola. Durante 40 anos, Faria utilizou do espaço para performar suas supostas cirurgias espirituais e abusar sexualmente de centenas de vítimas. A economia da área cresceu consideravelmente com a presença da Casa entre o começo dos anos 1980 e o final dos anos 2010, e ao redor do local de trabalho de João Faria cresceu o bairro Lindo Horizonte.
João de Deus também fundou outras instituições de caridade em Abadiânia: a "Casa da Sopa", onde eram servidas refeições gratuitas a pessoas carentes, e a "Casa do Banho", onde elas podem tomar banho e têm as suas roupas lavadas. A "Casa da Sopa" foi fechada em 2019, após a queda de movimento drástica decorrente das denúncias de abuso sexual.
A Casa de Dom Inácio continuou funcionando após a prisão de João Faria. As milhares de pessoas que vinham ao local durante os dias de atendimento passaram a ser substituídas por, quando muito, pouco mais de uma centena de visitantes. Desde que o suposto médium deixou de performar suas cirurgias, a poltrona onde ele se sentava na Casa passou a ser ocupada por uma imagem de Santa Rita de Cássia. Fechada em março de 2020 em decorrência da pandemia de COVID-19, a Casa foi reaberta para visitação em junho do mesmo ano.
João de Deus afirma que começou a ter mediunidade ativa aos nove anos de idade, quando era um menino católico avesso ao Espiritismo. Diz que aos dezesseis serviu de médium pela primeira vez na "cura" de outra pessoa. Teria então morado em vários estados, até fixar-se em Abadiânia, onde dizia "receber" bons espíritos que realizam curas através dele, incluindo o fundador da Companhia de Jesus, Santo Inácio de Loyola, o sanitarista Oswaldo Cruz e o médico alemão Dr. Fritz. Incorporando a entidade do Caboclo Gentil, João Faria teria desenvolvido uma solução de ervas com poderes curativos, batizada de "garrafada". As "garrafadas" eram produzidas em tonéis próximos a uma cachoeira, nas imediações da Casa de Dom Inácio, e foram vendidas no local durante algumas décadas antes de serem substituídas pelo "passiflora", medicamento aprovado pela ANVISA.
João Faria possui onze filhos – cada um com uma mulher diferente. É analfabeto funcional, dono de instituições de caridade, de uma fazenda onde planta soja e cria gado, além de sócio de um garimpo. As supostas curas proporcionadas pelo médium atraíam multidões à pequena cidade, a tal ponto que se constituíam na principal fonte de renda do município. A esse respeito o ex-prefeito Itamar Gomes afirmou: "Não sei o que será de Abadiânia quando João de Deus morrer. A economia da cidade vai para o buraco". A "Casa" empregava mais pessoas do que a administração municipal. Na "Casa" em que atendia os pacientes há paredes ornadas por imagens de santos católicos e do próprio médium, onde pessoas faziam orações e adoração.
De acordo com a biografia oficial John of God: The Brazilian Healer Who's Touched the Lives of Millions ("João de Deus – o curandeiro brasileiro que tocou a vida de milhões"), de Heather Cumming, até 2007 João de Deus já havia atendido mais de 8 milhões de pessoas em busca de tratamento. Prefaciando o livro, o físico Amit Goswami alega que "João de Deus é mais do que uma pessoa, é um fenômeno científico de suma importância (…) O Médium João canaliza a memória quântica de outra pessoa que viveu antes dele e já morreu. Na verdade, enquanto João de Deus canaliza, ele transforma abruptamente o seu caráter e passa a irradiar amor incondicional que promove a cura daqueles que precisam dela".
João de Deus também realizou eventos de tratamento espiritual em outros países além do Brasil. A sua história já foi retratada em programas de televisão produzidos por emissoras internacionais como Discovery Channel, ABC, BBC, Nine Network, além da brasileira TV Globo.