Joaquim de Fiore, também conhecido por Gioacchino da Fiore, Joaquim de Fiori, Joaquim, abade de Fiore ou Joaquim de Flora (Celico, 1135 – Pietrafitta, 30 de março de 1202) foi um abade cisterciense e filósofo místico, defensor do milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo. O seu pensamento deu origem a diversos movimentos filosóficos, com destaque para os joaquimitas e florenses.
Em 27 de junho de 2024, o Papa Francisco, em sua mensagem para o Dia Mundial da Criação, citou Joaquim de Fiore, dizendo que ele "soube apontar para o ideal de um novo espírito". Esta declaração marca um ponto de virada na história, o primeiro evento desse tipo em mais de oito séculos desde a morte do monge florentino.
Joaquim de Fiore nasceu em Celico, província de Cosenza, Calábria, Itália, por volta de 1132 e faleceu a 30 de Março de 1202, Sábado de Aleluia daquele ano, na pequena abadia de San Martino di Canale, Calábria, sendo trasladado para a abadia florense de San Giovanni in Fiore.
Joaquim foi filho de Maurus de Celico (também apelidado de Tabellione, provavelmente pelas funções que exercia), um notário ao serviço dos reis normandos da Sicília, tendo crescido na corte.
Em peregrinação à Terra Santa, Joaquim aprofundou a sua fé, entregando-se a um intenso misticismo, aparentemente em resultado de ter presenciado uma grande calamidade, talvez uma epidemia de peste. Passou então a Quaresma desse ano em contemplação no Monte Tabor, onde se diz ter recebido em visão a inspiração divina que terá guiado o resto da sua vida.
Regressado à Itália, provavelmente em 1159, retirou-se para a abadia cisterciense de Sambucina, dedicando-se à pregação, escusando-se contudo de tomar o hábito religioso ou a ordenação. Provavelmente em 1168, face à oposição das autoridades eclesiásticas a este procedimento, tomou o hábito beneditino de Cister na abadia de Corazzo e foi ordenado presbítero. Após a ordenação, passou a dedicar-se inteiramente ao estudo da Bíblia, procurando o significado mais profundo das Sagradas Escrituras.
Alguns anos mais tarde, tendo ganho fama de virtuoso e sábio, foi eleito abade, embora contra a sua vontade. Sentindo que as funções e deveres de abade eram um empecilho aos seus estudos bíblicos, que ele considerava serem a missão da sua vida, pediu escusa ao Papa Lúcio III, o qual em 1182 o desonerou do governo temporal da abadia e entusiasticamente aprovou o seu trabalho, encorajando-o a prossegui-los na abadia da sua escolha.
Passou os anos seguintes na abadia de Casamari, trabalhando afanosamente nos seus livros, secretariado por Luca Campano, um jovem monge que viria a ser arcebispo de Cosenza, o qual deixou como testemunho a sua admiração pela humildade e desapego de Fiore pelas coisas terrenas e pela devoção com que pregava e celebrava a missa.
A aprovação papal para os seus estudos foi confirmada por Urbano III (1185) e por Clemente III (1187), tendo este exortado Fiore a completar o seu trabalho e a submetê-lo à aprovação eclesiástica.
Sempre embrenhado no seu labor, Fiore retirou-se para o eremitério de Pietralata, acabando depois por fundar a abadia de Fiore (ou de Flora) nas montanhas da Calábria. A nova abadia tornou-se, ainda em vida do seu fundador e com a aprovação (dada em 1198) do Papa Celestino III, o centro de uma nova ordem independente, embora baseada nos princípios beneditinos da Ordem de Cister, mas mais rigorosa e mais mística, designada por Florenses em homenagem ao seu fundador.
No ano de 1200, Joaquim de Fiore submeteu publicamente os seus escritos ao exame do Papa Inocêncio III, mas faleceu no Sábado Santo desse ano, antes de ser proferido o julgamento eclesiástico.
Teve de imediato fama de santo e diz-se que foram concedidos milagres por sua intercessão. Apesar de nunca ter sido formalmente beatificado, é venerado como beato.
Apesar de ter ganho ainda em vida fama de profeta, Joaquim de Fiore sempre rejeitou ter tal dom. Mas mesmo contemporâneos esclarecidos, concordavam com a opinião geral, considerando-o como iluminado com o espírito profético. Dante Alighieri na sua Divina Comédia, referindo o espírito profético, coloca Joaquim de Fiore no Paraíso, dizendo no canto XII.º: (...) e lucemi da lato/il calavrese abate Giovacchino/ Di spirito profetico dotato(...).
O pensamento de Joaquim de Fiore
O tema das obras mais importantes de Joaquim de Fiore (Liber Concordiae Novi ac Veteris Testamenti, Expositio in Apocalipsim e Psalterium Decem Chordarum assim como o Liber Figurarum - O Livro dos Números) é a interpretação da visão profética das Sagradas Escrituras no contexto da História e a previsão do futuro da Igreja enquanto comunidade mística. Nessas obras Fiore funda o seu pensamento, depois traduzido na doutrina da Eterna Revelação ou do Evangelho Eterno, conforme à sua leitura do texto do Apocalipse.
Nessa interpretação do texto sagrado existiriam três estádios, ou Idades da História, no desenvolvimento do Mundo e da Igreja de Deus, correspondentes às três Pessoas da Santíssima Trindade.
A Primeira Idade, correspondeu ao governo de Deus Pai, e é representada pelo poder absoluto, inspirador do temor sagrado que perpassa o Velho Testamento. Correspondeu ao tempo anterior à revelação de Jesus Cristo.
A Segunda Idade inicia-se pela revelação do Novo Testamento e pela fundação da Igreja de Cristo, em que, através de Deus Filho, a sabedoria divina que tinha permanecido escondida da humanidade se revela. Correspondeu à contemporaneidade de Joaquim de Fiore (e segundo os joaquimitas à nossa).