Johann Adolph Hasse (Bergedorf, 25 de março de 1699 — Veneza, 16 de dezembro de 1783) foi um cantor, professor de música e compositor alemão do movimento barroco. Viveu e trabalhou na Itália, onde era conhecido como Giovanni Adolfo Hasse.
Muito embora sua música tenha caído em esquecimento após sua morte, Hasse está entre os mais populares compositores de ópera séria do século XVIII. Suas composições foram encenadas e admiradas em Dresde, Varsóvia, Nápoles, Viena e Londres, cidade que ele jamais conheceu. Ele influenciou outros grandes nomes da música lírica como Händel e Mozart e travou uma sólida relação de amizade com Metastasio (1698-1782), cujos textos musicou diversas vezes. A melhor síntese da vida de Hasse talvez seja: poucos autores líricos foram tão populares, tão admirados e influentes em sua própria época quanto ele; mas, em paralelo, poucos também foram tão rápida e completamente esquecidos depois de sua morte. O renascimento do interesse pela obra de Hasse a partir de finais do século XX fez grande justiça a essa figura cuja estatura na história da ópera o situa lado a lado com Vivaldi e Händel e no meio do caminho da trajetória entre Monteverdi e Mozart. Muito embora a ópera seja, sem sombra de dúvida, o coração da obra de Hasse, ele também compôs música sacra e instrumental, incluindo cerca de oitenta concertos para flauta, muitos deles para um de seus maiores admiradores, Frederico, o Grande, da Prússia. Muitas composições do autor se perderam por conta de dois desastres bélicos que se abateram sobre Dresden: o bombardeio de 1760, durante a Guerra dos Sete Anos, e o ainda mais arrasador bombardeio de 1945, ao final da Segunda Guerra Mundial, o qual reduziu a cidade a escombros e cinzas. Ainda assim, estima-se que Hasse tenha composto ao todo sessenta e três óperas, cerca de doze oratórios, cerca de vinte missas e réquiens, noventa cantatas e centenas de outras peças.
Origem familiar e primeiros anos na Alemanha e Itália
Johann Adolf era o segundo dos cinco filhos do também músico Peter Hasse e de sua mulher, Christina Klessing. Seu pai era organista da pequena cidade de Bergedorf na Baixa Saxônia, próxima de Hamburgo, norte da Alemanha. Sabe-se muito pouco sobre a infância do compositor, mas é possível presumir que ele tenha tido sua iniciação com o próprio pai. Em 1714, aos quinze anos de idade, Hasse se mudou para Hamburgo para dar continuidade à sua formação musical, tendo se concentrado no canto e na composição. A cidade era o principal centro operístico do norte da Alemanha e, em 1718, graças às recomendações de Johann Ulrich König (1688-1744), secretário e poeta da corte de Dresden, Hasse foi convidado a se juntar à companhia de ópera local atuando como tenor.
Em 1719, Hasse se transferiu para a ópera da corte de Brunswick, também graças às recomendações de König, tendo ainda atuado como tenor em óperas de autores como Antonio Caldara (1670-1736) e Francesco Bartolomeo Conti (1681-1732). Apenas dois anos depois, em 1721, ele teve a oportunidade de compor sua primeira ópera, Antioco, apresentada naquela mesma cidade. Logo em seguida, Hasse empreendeu uma importante viagem através da Itália, conhecendo centros musicais destacados como Veneza, Bolonha, Florença e Roma, até se fixar em Nápoles. Nesta cidade, Hasse pôde estudar com dois expoentes da ópera italiana da época, Alessandro Scallatti (1660-1725) e Nicola Porpora (1686-1768). Também em Nápoles, Hasse conheceu o famoso castrato Farinelli (1705-1782). Em 1725, Farinelli atuou na serenata de Hasse, Marc'Antonio e Cleopatra ao lado da contralto Vittoria Tesi (1700-1775).
Segundo conta em suas memórias o compositor e flautista alemão Johann Joachim Quantz (1697-1773), que conheceu Hasse nessa época, foi graças ao sucesso de Marc'Antonio e Cleopatra que a corte de Nápoles se encantou com sua obra. Por conta disso, estreava em 13 de maio de 1726 Sesostrate, a primeira ópera de Hasse escrita especialmente para aquela cidade. O sucesso foi tão retumbante que se seguiram outras seis óperas para os teatros de Nápoles. Durante sua estada, Hasse compôs ainda intermezzi, serenatas e a única ópera cômica de sua carreira, La sorella amante, de 1729. Hasse foi recebido com tal entusiasmo na Itália que passou a ser conhecido como Il caro sassone (o querido saxão). Essa paixão foi plenamente retribuída, fato que deve ter influenciado sua conversão ao catolicismo em 1725.
O casal mais influente da ópera de seu tempo
Hasse casou-se em 1730 com outra estrela da época, a mezzo-soprano veneziana Faustina Bordoni (1697-1781). Para além de seu grande talento, Faustina havia ficado conhecida em Londres por conta da célebre rivalidade com outra diva, Francesca Cuzzoni (1696-1778). Elas haviam sido contratadas em 1726 para atuar em uma ópera de Händel na capital de Inglaterra. O desentendimento entre ambas se deu em cena e quase chegou à agressão física, obrigando que as cortinas fossem baixadas.
Faustina brilhou nos palcos europeus como poucas, tendo o privilégio de atuar diversas vezes nas obras do próprio marido. Em 1732, durante sua estada na Itália com Hasse, ela foi contratada para uma temporada completa, recebendo a impressionante quantia de 3.300 ducados. Pode-se ter uma ideia do que representava esse montante ao compará-lo com que o próprio Hasse recebia para compor cada uma de suas óperas no mesmo período: nada além de 50 ducados! Em 1751, Faustina Bordoni fez suas últimas performances atuando, uma vez mais, em óperas do marido: Leucippo e Ciro riconosciuto.
Hasse deixou Nápoles em 1730, por razões desconhecidas. Acredita-se que recebeu um convite para produzir uma ópera para os palcos de Veneza, fato que representava uma grande oportunidade de projeção para um compositor em ascensão. Ele permaneceu em Veneza por cerca de seis meses e sua ópera Artaserse foi representada no teatro San Giovanni Grisostomo . O libreto era de Metastasio, mas a versão usada por Hasse foi bastante alterada em relação ao texto original, prática comum durante a juventude de Hasse.
No outono do mesmo ano de 1730, Hasse foi nomeado Maestro di Capella do Príncipe Eleitor da Saxônia, Friedrich August I (1670-1733). Ele e sua esposa chegaram a Dresden em 7 julho de 1731 e, já no dia seguinte, foi realizada sua primeira apresentação diante de seu soberano com a execução de uma cantata interpretada por Faustina. Em 17 de agosto, uma nova ópera do compositor, Cleofide, estreava em Dresden em uma apresentação reservada ao cículo mais próximo do Príncipe. O libreto era de Michelangelo Boccardi a partir de Alessandro nell'Indie de Metastasio. A estreia oficial, porém, só ocorreu em 13 de setembro. Na plateia, acredita-se que estavam presentes nada medos do que Johann Sebastian Bach (1685-1750) e seu filho mais velho, Wilhelm Friedemann Bach (1710-1784). Em outubro, Hasse e Bordoni voltaram a viajar pela Itália, iniciando uma rotina que se seguiria pelos trinta anos seguintes. Sempre que não era necessário na Corte, o casal se ausentava, visitando as cidades italianas e Viena. Nessas ocasiões, como regra, Hasse supervisionava a representação de suas próprias óperas e, muitas vezes, a própria Faustina atuava.
Em 1º de fevereiro de 1733, o Príncipe da Saxônia morreu e, por conta disso, a corte de Dresden ficou de luto sem que nenhuma música pudesse ser executada por meses. Assim, Hasse adiou seu retorno para o ano seguinte, muito embora tenha sido confirmado no posto de Maestro di Capella pelo novo monarca, Friedrich August II (1696-1763). Muito desse tempo de ausência, Hasse dedicou a compor obras sacras para o Ospedale degli Incurabili de Veneza. Em 2 de maio de 1733, a ópera Siroe estreou em Bolonha, contando com um elenco de estrelas dentre as quais se destacavam os castrati Farinelli e Caffarelli (1710-1783), além de Vittoria Tesi. A ópera foi um imenso sucesso, tendo sido reapresentada em diversas cidades da Europa por cerca de trinta anos.
Hasse e Bordoni retornaram para Dresden e aí permaneceram entre fevereiro e outubro de 1734, mas nenhuma nova ópera foi composta. Apenas uma nova versão de Caio Fabrizio, originalmente composta em Roma em 1732, foi apresentada em julho de 1734. O músico se dedicou a pequenas peças orquestrais e à produção de obras sacras. Em novembro de 1734, a corte partiu para Varsóvia, onde permaneceria por dezoito meses, dado que o Príncípe Eleitor da Saxônia também era, por direito, rei da Polônia. O casal, que não acompanhou o soberano, voltou à Itália naquele mesmo mês. No carnaval de 1736, estreava no San Giovanni Grisostomo de Veneza a ópera Alessandro nell'Indie. Nessa ocasião, Hasse foi nomeado Maestro di Capella do Ospedale degli Incurabili. De volta à Alemanha em janeiro de 1737, Hasse e Bordoni permaneceram em Dresden por cerca de um ano e meio. Nesse período, ele compôs nada menos de cinco novas óperas. Para o casamento da princesa Maria Amalia (1724-1760) com Carlos VII (1716-1788), rei das Duas Sicílias, Hasse produziu uma nova versão de seu intermezzo Lucilla e Pandolfo, de 1730.