Jorge Eduardo Guinle (Petrópolis, 5 de fevereiro de 1916 – Rio de Janeiro, 5 de março de 2004), mais conhecido como Jorginho Guinle, foi um socialite, playboy, e herdeiro milionário brasileiro, notável por suas conquistas amorosas e falência financeira.
Após ter gastado quase todos seus bens, avaliados em cerca de 100 milhões de dólares, em festas, viagens e mulheres, Guinle faleceu aos 88 anos de idade, morando, por favor de seus novos donos, no hotel Copacabana Palace. O hotel fora fundado por seu tio, Octávio, em 1923. Declarando com orgulho nunca ter trabalhado em sua vida, Jorginho publicou uma autobiografia cujo título resumia seu estilo de viver: "Um Século de Boa Vida". Casou-se quatro vezes, tendo três filhos de três desses casamentos.
Por seu trânsito na alta sociedade ao redor do mundo, foi convidado a ser embaixador informal do Brasil nos Estados Unidos, a pedido do Departamento de Imprensa e Propaganda durante a ditadura Vargas, e representante de "assuntos sul-americanos" em Hollywood, a pedido de Nelson Rockefeller. O acesso aos estúdios fez com que se gabasse de conquistas como Marilyn Monroe (com quem teria feito sexo "duas vezes"), Rita Hayworth (namorada durante três meses) ou Jayne Mansfield (a quem definiu: “corpo escultural e ninfomaníaca”). Foi um grande aficionado pelo jazz e, por isso, foi autor da primeira obra no Brasil sobre o estilo musical.
Sua filosofia ao fim da vida procurava manter o título de "maior playboy do Brasil", dizendo que “Nenhum playboy de hoje pode ser meu sucessor. Todos têm um grave defeito: eles trabalham” e concluía que: “O segredo do bem viver é morrer sem um centavo no bolso. Mas errei o cálculo e o dinheiro acabou antes da hora”.
Origens familiares: riqueza e gastança
A família teve sua fortuna originada com Eduardo Palassin Guinle (1846-1912), que no centro do Rio de Janeiro estabelecera por volta de 1870 um armazém de produtos importados em sociedade com Candido Gaffrée, ambos gaúchos, chamado "Aux Tuileries", e logo expandiria suas atividades para a construção de estradas e ferrovias, e aquisições imobiliárias - até finalmente conseguirem uma concessão de 90 anos que os tornaria milionários: o porto de Santos.
Em 1882 a sociedade recebeu autorização para a reforma e consequente administração do porto, que logo se tornaria o principal escoadouro da maior riqueza do país, na época: o café; isto viria a gerar durante nove décadas uma renda estimada em valores corrigidos a fortuna de 92 bilhões de dólares. Outros investimentos foram acrescidos, ao longo da história, como em petróleo, geração elétrica e, por fim, o Banco Boavista. Dentre as muitas propriedades da família estava a luxuosa residência de campo conhecida por Granja Comary, hoje centro de treinamento da Seleção Brasileira de Futebol, deixando marcas arquitetônicas na capital fluminense como o Hospital Gaffrée e Guinle na Tijuca, a sede do Parque da Cidade ou o Palácio de Brocoió.
A riqueza, contudo, não evitava que a fortuna acabasse: foi o que aconteceu ao primogênito de Palassin Guinle, Eduardo Guinle (1878-1941), que em 1913 mandara erguer por residência, com projeto do arquiteto Joseph Gire, o Palácio Laranjeiras (hoje pertencente ao governo estadual) imitando o Casino de Monte Carlo e com luxos únicos no país: mármore carrara, granito húngaro, tacos vindos da Bélgica e móveis com folhas de ouro francês - mesmo país do escultor dos dois leões de pedra que guardam a entrada, em tamanho natural: Georges Gardet, responsável por um leão no Jardim de Luxemburgo, em Paris. A obra, ao final, acabou levando-o à falência - algo que viria a se repetir na família, dona de fortunas gastas de forma "colossal" até a ruína.
A esposa do patriarca, Guilhermina (1854-1925), além de dividir o leito com o sócio do marido (e que seria pai de três dos seus sete filhos), tinha excentricidades como levar por dutos subterrâneos a água do mar até sua piscina, na mansão na Avenida Atlântica, em Copacabana. Quando morreu o marido este deixou uma fortuna avaliada, em valores atuais, em 2 bilhões de dólares.
Dentre outros fatores que marcaram a derrocada do clã a mudança da capital para Brasília foi um duro golpe para a família Guinle que, assim, perdia o acesso que tinha aos gabinetes governamentais no Rio.
O arquiteto e comerciante Eduardo Campello Guinle, bisneto do patriarca, declarou em 2015: “Embora o empreendedorismo fosse a marca da família, a gastança também era. Eu, por exemplo, não herdei nada”. Nenhum outro da família, contudo, granjeou mais fama de perdulário do que Jorginho Guinle.
Compunha o clima favorável para que surgisse a figura de Guinle como bon vivant a predisposição do Rio de Janeiro em se tornar uma cidade cosmopolita: "Hollywood, cinema, Paris, a boate Vogue, belas mulheres, o Copacabana Palace, a ociosidade movida a champanhe e caviar estavam no ar e esse caldo de cultura fútil formou o pano de fundo... [que viria a] destacar-se nas colunas sociais assinadas por Gilberto Trompowsky, Jacintho de Thormes, Ibrahim Sued e Maria Cláudia Bonfim, entre outros.”
Jorginho era filho de Carlos Guinle (1883-1969), um dos que seriam na verdade fruto do adultério da matriarca Guilhermina, e Gilda de Oliveira Rocha Guinle. Sua mãe era filha do português Manuel Jorge de Oliveira Rocha (o "Rochinha"), que fundou em 1894 o jornal carioca A Notícia, vespertino que deixou de circular em 1998.. Seu pai erguera uma mansão também em Botafogo, onde hoje é o Centro Empresarial Argentina, e nos jantares em família ele sempre usava black-tie. Ali hospedaram, em 1930, o então governador de Nova York Franklin Delano Roosevelt.
Jorginho foi educado na infância por uma preceptora alemã que, segundo ele, tivera um irmão que havia sido companheiro de Lênin e, por isso, ela o influenciou a tornar-se um "marxista"
Em 13 de agosto de 1923, na festa de inauguração do Copacabana Palace (o "Copa") Jorginho então com 7 anos conheceu aquele que seria seu amigo por toda a vida e também futuro playboy, Joaquim Monteiro de Carvalho, o "Baby", então com 10 anos. Mais tarde combinaram que se um dos dois ficasse pobre o outro ajudaria - e Baby cumpriu a promessa, quando o amigo perdeu a fortuna. Filatelista, chegou a ganhar selos de Santos Dumont.
Jorginho tinha 12 anos quando começou a gostar de jazz, mas lembra que desde bem novo estava afeito ao cenário musical, pois seu tio Arnaldo fora o mecenas de Pixinguinha, o pai bancara os estudos de Villa-Lobos na Europa e o Copa era um dos palcos privilegiados da música, no Rio. Segundo ele, gostar de jazz foi um ato de rebeldia, pois o pai detestava o ritmo: "...dizia que era bagunça, não música.” Desde então passou a comprar todos os discos de jazz, até sua primeira ida aos Estados Unidos. Isto ocorreu em 1939, quando tinha 23 anos.
Teria ainda estudado filosofia (como autodidata e no Collège de France em 1938, com o professor Le Roy na cadeira de Henri Bergson), declarando-se epicurista. Sobre ser comunista, ele declarou: “Eu também era. Eu não fazia parte de nada, mas tinha admiração pela doutrina. Não era engajado, nem mesmo... como é que se chamava o pessoal que era capitalista mas ajudava o marxismo?... Inocente útil! Inocente nunca fui... Útil eu já fui.”
Em sua autobiografia Jorginho registrou, sobre Paris e sua vida noturna da juventude: "Montmartre era o grande centro. Pigalle. Todos os shows com mulheres de seios de fora. Um lugar apresentava mulheres completamente nuas! [...] Havia um cabaré luxuosíssimo que só se tomava champanhe, uísque era raríssimo. Na Scherazade, boate onde se apresentou Pixinguinha, não se podia tomar uísque, só champanhe. Ou vodca, porque era uma casa russa [...] 0fereciam coktails de uma variedade imensa, coloridos, e o rei dos coktails era o martini"; a capital francesa, nas décadas de 1930 e 1940 influenciou a noite do Rio, onde ao lado dos cassinos do Copa e da Urca e outros locais do centro da cidade como o Café Nice, o público jogava bacará ou roleta, via números artísticos onde muitos deles eram protagonizados por "belas e por vezes exóticas mulheres estrangeiras" (sic) e tinham na sua frequência "os políticos, os homens de negócio, os