José Guilherme Alves Merquior (Rio de Janeiro, 22 de abril de 1941 – 7 de janeiro de 1991) foi um crítico literário, ensaísta, diplomata, sociólogo e cientista político brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras. Crítico ao marxismo, Merquior foi o primeiro autor a analisar sistematicamente a Escola de Frankfurt e foi um defensor do liberalismo, não só como um sistema de valorização ao mercado, mas como um estilo de vida.
O ex-ministro da Educação Eduardo Portella definiu-o como "a mais fascinante máquina de pensar do Brasil pós-modernista – irreverente, agudo, sábio", ao passo que o antropólogo Lévi-Strauss o definiu como "um dos espíritos mais vivos e mais bem informados de nosso tempo". Merquior foi reconhecido por intelectuais de ideologias diversas, sendo considerado “a maior inteligência brasileira da segunda metade do século XX”, pelo poeta Bruno Tolentino e um “talentoso porta-voz da direita” pela profa. Marilena Chauí.
Merquior dedicou ainda parte de sua obra à estética, que abrangeu desde a crítica literária com seu livro de estreia Razão do Poema, até sua última obra publicada em vida, Crítica, uma coletânea sobre arte.
Merquior nasceu em abril de 1941, no bairro da Tijuca, e desde cedo se destacou pela sua inteligência e empenho para leituras. Ele se casou com sua primeira namorada, Hilda, com quem ficou dos 16 até a data de sua morte, aos 49 anos.
Aos 18 anos, Merquior passou a publicar artigos em sua coluna no Jornal do Brasil. Merquior formou-se em Filosofia e Direito, e construiu uma carreira na diplomacia, passando em primeiro lugar para o concurso do Instituto Rio Branco. Como diplomata, serviu em Bonn, Londres, Paris e Montevidéu. Foi embaixador no México e representante permanente do Brasil junto à UNESCO.
Em 1965, iniciou sua profícua carreira de escritor. Neste ano, lança seu primeiro livro, Razão do Poema, e conclui doutorado logo depois, em 1966, pela Sorbonne.
Durante sua carreira, travou contato e amizade com diversos intelectuais de renome. Ernest Gellner foi orientador da tese de doutorado em sociologia pela London School of Economics (o terceiro doutoramento). Polímata humanista, escrevia com erudição sobre muitos temas das Ciências Humanas, tendo iniciado o ofício público de escritor como crítico literário. O alicerce da obra escrita é o que se chamaria de Culturologia ou, mais especificamente, História das Ideias, menos como tributária do monismo de Arthur O. Lovejoy, e mais da Geistesgeschichte alemã.
Ao lado de Roberto Campos, que foi um dos seus mentores intelectuais, trabalhou no governo Collor. Colaborou na redação do discurso de posse do presidente eleito e escreveu as linhas gerais do que seria a doutrina do "social liberalismo", o nome que Collor deu à sua política liberal com fins sociais. Convidado por Collor para ocupar, em 1990, o cargo de Ministro da Cultura, não aceitou.
Merquior escreveu uma vasta obra que vai da crítica literária à filosofia, à sociologia e à ciência política. Escrevia em Inglês e Francês com fluência igual à exibida em Português. Escreveu sua magnum opus a respeito do liberalismo quando ainda era embaixador do México, num curto período de quatro meses.
Merquior morreu em 1991, vitimado por um câncer de intestino.
A proposta política de Merquior visava tirar o Brasil de velhas amarras, a saber o patrimonialismo e o personalismo que imperavam no cenário político brasileiro. Semelhante à terceira via proposta por Anthony Giddens e Tony Blair, Merquior defendia uma atuação do Estado na moderação social e econômica, mas com favorecimento aos ambientes de negócios da livre-iniciativa privada. Defendia a privatização das estatais e o investimento massivo do Estado em educação, saúde e seguranças públicas.
A concepção de liberalismo social de Merquior foi sumarizada por ele em uma aula de formação política no Partido Liberal (PL) nos anos 1980:
É frequente a confusão do pensamento liberal social de Merquior com um neoliberalismo mascarado por parte de seus críticos. Para Ricardo Antunes o social-liberalismo não passaria de um “eufemismo designado aos socialistas e social-democratas que praticam o neoliberalismo”. Opinião corroborada por Rodrigo Castelo, segundo o qual o social-liberalismo consistiria numa “variante ideológica” do neoliberalismo. Outra crítica seria que o liberalismo social de Merquior era “de conteúdo indefinível e inspiração keynesiana, que parece se querer apossar do governo brasileiro para salvar o Estado patrimonialista falido de uma merecida perda de legitimidade”. Entretanto, conforme salienta Kaio Felipe: "No plano prático, o social-liberalismo de Merquior consiste em uma adesão limitada ao livre mercado, pois julga que certas intervenções do Estado são importantes não só para promover a igualdade de oportunidades, mas também para estimular a liberdade positiva enquanto virtude cívica". Em seus próprios termos, Merquior esclareceu sua postura frente ao neoliberalismo:
Em seu livro "O Liberalismo Antigo e Moderno", Merquior distingue entre o “conservadorismo liberal” dos britânicos baseado em Edmund Burke e conservadorismo tradicionalista, baseado no conservadorismo continental europeu expresso por Lord Acton, Juan Bautista Alberdi, Herbert Spencer e Ortega y Gasset.
Defensor articulado da democracia, na década de 1980, constatou que surgia, ainda em caráter minoritário, uma “nova direita brasileira, semelhante ao Thatcherismo ou à Reaganomics”.
De acordo com Merquior, o socialismo, em suas origens intelectuais, não era uma teoria política e sim uma teoria econômica que procurava reestruturar a indústria. O socialismo só se politizou com Karl Marx, o qual fundiu a crítica do liberalismo econômico com a tradição revolucionária do comunismo.
Para o intelectual, Marx nunca valorizou os direitos civis e chegou a condená-los, vendo neles mero instrumento de exploração de classe. O marxismo, em especial regimes comunistas, sempre refletiu esse menosprezo pelos direitos de expressão, profissão, associação, etc.
Apesar da crítica ao marxismo, Merquior fazia questão de distingui-lo da social-democracia. Tinha em mente que “o capitalismo não é um anátema, mas o mercado não é visto como um meio adequado de suprir as necessidades sociais”.