Neste Dia

José Maurício Nunes Garcia

Padre brasileiro

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José Maurício Nunes Garcia (Rio de Janeiro, 22 de setembro de 1767 – 18 de abril de 1830) foi um padre católico, professor de música, maestro, multi-instrumentista e compositor brasileiro.

Mestiço, descendente de escravizados, nasceu pobre, mas recebeu uma educação sólida tanto em música como em letras e humanidades. Optou pela carreira na Igreja por devoção mas provavelmente também por praticidade, sendo um meio de garantir um futuro decente, especialmente para pessoas de sua condição social. Suas elevadas qualificações artísticas e intelectuais se revelaram cedo e, de certo modo, fizeram a sociedade escravocrata de sua época atenuar as fortes restrições de acesso a posições de prestígio que colocava contra os negros e pardos como ele, mas não o livraram completamente dos infortúnios gerados pelo preconceito.

José Maurício viveu numa fase de grandes mudanças políticas, sociais e culturais, testemunhando a transição entre o Brasil colonial e o Império independente, e entre o Barroco e o Neoclassicismo. Neste período passou-se de um universo cultural que tinha dois séculos de idade e raízes solidamente fincadas no Brasil, baseando-se nos contrastes acentuados, na suntuosidade decorativa e na expressão emocional exaltada, para outro em que houve a recuperação de ideais da Antiguidade, que pregavam o equilíbrio, a clareza e a economia expressiva sob o primado da razão. Sua obra musical refletiria essas mudanças estéticas em uma síntese híbrida e multifacetada, traindo a herança da música colonial brasileira mas absorvendo fortes influências da escola classicista germânica, que viria a dominar sua produção madura.

Seu apogeu durou apenas cerca de dez anos, iniciando com sua nomeação como mestre de capela da Catedral do Rio de Janeiro no final do século XVIII, e transcorrendo ao longo da primeira parte do período em que a corte portuguesa esteve no Rio. Nessa época, caiu nas graças do príncipe-regente dom João, que foi um grande admirador de seu talento, indicando-o diretor da Capela Real e fazendo-o cavaleiro da Ordem de Cristo. Entretanto, o afamado operista português Marcos Portugal, ao chegar em 1811, imediatamente ganhou o favor da elite e lhe fez guerra constante, ocupando praticamente todo o seu antigo espaço. Isto iniciou sua fase de decadência, ao que parece acelerada por uma saúde em declínio e pela generalizada crise econômica e institucional dos primeiros anos após a Independência do Brasil. Mesmo assim, neste período final compôs algumas de suas obras mais importantes, como o Requiem e o Ofício de Finados (1816) e as missas de Nossa Senhora do Carmo (1818) e de Santa Cecília (1826). Faleceu quase na miséria com pouco mais de sessenta anos, deixando, apesar de ser padre, cinco filhos, que teve com Severiana Rosa de Castro.

Foi talvez o compositor brasileiro mais prolífico de sua época, e hoje é considerado um dos nomes mais representativos da música brasileira de todos os tempos e sem dúvida o mais importante compositor de sua geração. Entretanto, sua posição histórica tem sido interpretada à luz de ideologias divergentes e muitos mitos ainda se prendem à sua figura, que é mais citada pelo folclore que gerou do que realmente conhecida e compreendida de maneira objetiva e crítica. Sobrevivem mais de 240 composições catalogadas, praticamente todas no gênero sacro e vocal, entre missas, matinas, vésperas, motetos, antífonas e outras voltadas para o culto católico, além de umas poucas modinhas e peças orquestrais e dramáticas, bem como uma obra didática, e outro tanto foi perdido. Fez renome também como professor de música e instrumentista, elogiado sobretudo pelas suas qualidades como improvisador e acompanhador ao teclado.

José Maurício Nunes Garcia nasceu no Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1767, e foi batizado na Catedral em 20 de outubro. Seu pai foi Apolinário Nunes Garcia, nascido na Ilha do Governador, batizado na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda, teria sido tenente ou mestre de campo e trabalhou como alfaiate. Sua mãe foi Vitória Maria da Cruz, nascida em Minas Gerais e batizada na Capela de São Gonçalo do Monte, nas proximidades de Cachoeira do Campo, que tivera como primeiro marido Raimundo Pereira de Abreu, de quem havia herdado algumas terras em Ubatiba, localidade próxima a Maricá. Seus pais eram mestiços. No processo de habilitação para o sacerdócio de José Maurício, o pai é descrito como "pardo forro, filho natural de Ana Correa do Desterro, crioula da Guiné, e de pai incógnito", e a mãe como "parda forra, filha natural de Joana Giz (Gonçalves), crioula, e de pai incógnito". Casaram-se na Igreja de Santa Rita do Rio de Janeiro, em 14 de agosto de 1762. Testemunhos da época os declaram "sempre bons católicos, vivendo com muita decência", e o pai vivera "com bom crédito de seu ofício de alfaiate".

Diz a tradição que desde cedo José Maurício revelou talento para a música, mas pouco se sabe sobre seus primeiros anos. Manuel de Araújo Porto-Alegre, seu contemporâneo e um dos seus primeiros biógrafos, disse que tinha "desde a mais tenra infância belíssima voz e cantava admiravelmente", e teria sido dotado de "prodigiosa memória", podendo "reproduzir fielmente tudo quanto ouvia executar". Sua trajetória, entretanto, não foi tranquila. Aos seis anos perdeu o pai e passou a ser criado pela mãe com a ajuda de uma tia. As duas mulheres, simples lavadeiras, perceberam o interesse do menino pela música e trabalharam duro para custear as aulas particulares com o professor Salvador José de Almeida Faria, músico mineiro que trazia na bagagem a tradição tardo-barroca e proto-classicista da Escola de Minas e era um antigo amigo da família. O ensino que o jovem recebeu era sólido, o que se revela na correção da sua primeira composição conhecida, uma antífona para a Catedral do Rio de Janeiro, Tota pulcra es Maria (1783), composta aos 16 anos. Provavelmente nesta época cantava no coro da Catedral. Em 1784 participou da fundação da Irmandade de Santa Cecília, sendo um dos seus membros mais jovens, o que também atesta seu bom preparo. A admissão lhe dava o direito de ensinar música, e a docência passou a ser seu principal ganha-pão nesta fase. Esta irmandade, mais que uma agremiação de amantes da música, por algum tempo monopolizou a prática no Rio, atuando quase como um sindicato profissional e vedando a outros músicos o desempenho do ofício se não ingressassem em suas fileiras.

Quando José Maurício nasceu, a cidade do Rio poucos anos antes havia se tornado capital da colônia, sucedendo Salvador, e passava por uma fase de modernização, sendo dotada de novas avenidas e embelezamentos, mas ainda era uma urbe bastante provinciana, cujas festas públicas eram basicamente as do calendário religioso e mesmo celebrações civis em geral contavam com a forte participação da Igreja. Porém, a transformação em capital começou a atrair para lá artistas e intelectuais de conceito, as irmandades religiosas tinham mais um motivo para acirrar sua tradicional competição organizando liturgias com música de qualidade e melhorando suas orquestras. O vice-rei, o marquês do Lavradio, procurou dar mais variedade ao ambiente e formar uma elite ilustrada, incentivando as Aulas Régias e a Academia Científica e ordenando a construção de um novo teatro, onde se iniciaram apresentações de espetáculos variados franqueadas ao povo, que incluíam comédias, dramas, mascaradas e até algumas óperas de compositores afamados na Europa, como Paisiello, Jommelli e Cimarosa, mas as encenações ainda eram muitas vezes amadorísticas. Provavelmente, em sua juventude, José Maurício entrou em contato com este centro de cultura, que era o maior da cidade, e pode ter participado de algumas apresentações. Pelo que dizem seus primeiros biógrafos, nunca teve condições de adquirir um cravo ou pianoforte para exercitar-se, fazendo seus estudos práticos com uma viola de arame e tendo acesso a instrumentos de tecla somente em casas de alunos. Também diz a tradição que nunca teve professores de teclado, descobrindo seus segredos por conta própria, mas parece difícil que não tenha contado pelo menos com uma orientação informal de seus muitos amigos músicos profissionais, especialmente no que diz respeito ao aprendizado do órgão, instrumento de grande complexidade.

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José Maurício Nunes Garcia | World in Stories