José Serra Chirico, GOMM; (São Paulo, 19 de março de 1942) é um economista, professor e político brasileiro filiado ao Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Foi ministro das Relações Exteriores, da Saúde e do Planejamento durante os governos Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer. Por São Paulo, foi governador e deputado federal durante dois mandatos, senador, além de prefeito da capital homônima.
Serra nasceu no bairro da Mooca, em uma família de classe média baixa. Seu pai era um imigrante italiano casado com uma brasileira. Em 1960, ingressou no curso de engenharia civil na Universidade de São Paulo, passando, nessa mesma época, a atuar no movimento estudantil. Foi um dos fundadores da Ação Popular e presidente da União Nacional dos Estudantes. Serra não concluiu o curso pois teve que sair do país depois do golpe militar de 1964, devido à perseguição por sua militância política de esquerda. Refugiou-se em embaixadas de outros países e radicou-se no Chile, onde conheceu sua esposa, Mónica Serra, com quem teve dois filhos nascidos naquele país. Neste mesmo período estudou na Universidade do Chile. Ficou no país até o golpe militar de 1973, quando foi para os Estados Unidos, onde estudou na Universidade de Cornell.
Após catorze anos exilado, Serra voltou ao Brasil e trabalhou na Universidade Estadual de Campinas até 1983, quando foi nomeado pelo governador Franco Montoro como secretário de Planejamento de São Paulo. Foi eleito deputado federal para a Assembleia Constituinte de 1988, sendo reeleito em 1990 com a maior votação do país. Em 1988, foi um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira. Em 1994, elegeu-se senador por São Paulo. No entanto, não assumiu a vaga no Senado após ser nomeado, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, para o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão. No governo FHC também foi Ministro da Saúde.
Na eleição municipal paulista de 2004, sua terceira tentativa, foi eleito prefeito quando derrotou a prefeita Marta Suplicy. Renunciou ao cargo em março de 2006 para concorrer ao governo de São Paulo, tendo sido eleito no primeiro turno. Renunciou, em abril de 2010, ao cargo de governador para ser candidato, pela segunda vez, à presidência da República. Na primeira vez que concorreu, em 2002, foi derrotado no segundo turno por Luiz Inácio Lula da Silva e, na segunda vez, em 2010, foi derrotado por Dilma Rousseff, também no segundo turno. Em 2012, concorreu novamente à prefeitura de São Paulo, sendo derrotado por Fernando Haddad no segundo turno. Nas eleições de 2014, foi eleito senador ao vencer Eduardo Suplicy. Logo após o início do governo Temer foi indicado o Itamaraty, mas renunciou por problemas de saúde. Nas eleições de 2022, candidatou-se ao cargo de deputado federal mas não conseguiu obter uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Primeiros anos, educação e política estudantil
José Serra Chirico nasceu no bairro da Mooca, São Paulo, em 19 de março de 1942. Sendo filho único de Francesco Serra (falecido em 1981), imigrante italiano de Corigliano Calabro, Calábria, e de Serafina Chirico Serra (falecida em 2007), brasileira filha de imigrantes italianos. Serra nasceu em uma pequena casa de quarto e sala, geminada a outras 24, em uma rua sem saída, onde ele tinha que dormir na sala. Seu pai, semianalfabeto, que era vendedor de frutas no Mercado Municipal, evitava que o filho o ajudasse, deixando-o se concentrar nos estudos. No entanto, ele eventualmente ia trabalhar na banca de frutas.
Sua família mudou-se depois para uma casa maior, de dois quartos, em uma rua sem asfalto no mesmo bairro, ao lado de uma fábrica. Quando o filho já estava no científico (atual ensino médio), mudaram-se para um apartamento alugado no bairro do Ipiranga. Apesar dos ganhos modestos de uma família de classe média baixa, foi o suficiente para que Serra chegasse à faculdade sem precisar trabalhar.
Tendo feito curso pré-vestibular junto com o último ano do científico, ingressou, em 1960, no curso de engenharia civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
Na universidade, logo se interessou pelo movimento estudantil, que era ativo nos anos 1960, principalmente no ensino superior. Tímido, o teatro o ajudou a se superar. Fez o papel principal da peça Vento forte para papagaio subir, de José Celso Martinez, no grupo teatral da faculdade.
Ainda calouro, Serra decidiu candidatar-se a uma diretoria do grêmio da Escola Politécnica, compondo uma das chapas eleitorais. Para ser admitido como membro da chapa, era necessário provar não ser de direita, bem como ser favorável à Revolução Cubana e contra empresas estrangeiras. Serra conseguiu ser aprovado como candidato, mas sua chapa foi derrotada. Mais tarde, porém, ele acabaria por se integrar à chapa eleita, quando, em meados de 1962, houve uma greve dos estudantes, que reivindicavam maior representatividade nas instâncias acadêmicas. Nessa época, Serra se aproximou de José Carlos Seixas, presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, que era um dos líderes nacionais da Juventude Universitária Católica (JUC) e viria a ser seu padrinho no movimento estudantil.
Meses depois, Seixas indicou Serra para concorrer à presidência da União Estadual dos Estudantes de São Paulo (UEE-SP), com o apoio da JUC, que, à época, controlava a maioria dos centros acadêmicos. Serra foi eleito e, no comando da entidade, implementou várias mudanças, disciplinando o uso de instalações e recursos da entidade, além de promover eventos culturais e debates políticos, o que deu mais visibilidade à UEE-SP.
Em fins de 1962, Serra foi um dos fundadores da Ação Popular (AP). Como presidente da UEE-SP, participou de congressos em vários estados brasileiros, tornando-se conhecido, o que veio a facilitar sua eleição para presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), em julho de 1963, como candidato da AP, tendo ainda o apoio do Partido Comunista Brasileiro. Sua eleição fez com que se mudasse para o Rio de Janeiro, onde ficava a sede da UNE. A UNE, na época, tinha status de partido político, dando a Serra a condição de participar da política nacional e a oportunidade de contato com autoridades, governadores e com o presidente João Goulart.
Recém-eleito presidente da UNE, Serra foi convidado a ser um dos oradores de um comício em homenagem a Getúlio Vargas, em 23 de agosto de 1963, em que o último a discursar seria João Goulart. Esperava-se que os antecessores apoiassem no palanque as propostas do governo. O discurso de Serra, no entanto, em vez de apoiar o presidente, simpático à esquerda e pressionado pela direita, criticou-o, pois havia rumores de que Jango pretendia uma intervir nos estados de São Paulo e Guanabara, cujos governadores trabalhavam para derrubá-lo. Serra foi mais aplaudido do que Jango, segundo registra a sua ficha no DOPS. Ainda assim, Jango sabia de sua importância e teria dito: "Há generais loucos atrás de ti. Eu é que não deixo eles te fazerem mal".
Em 13 de março de 1964, no famoso comício da Central do Brasil, onde Jango defendeu as reformas de base, Serra, então com 21 anos, foi o mais jovem a discursar. O comício foi considerado pelos conservadores uma provocação e visto como um momento-chave de radicalização do governo, ajudando na junção de forças políticas, sociais e militares para derrubar o presidente. Na madrugada de 1º de abril, em transmissão ao vivo na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Serra fez uma convocação para a resistência à tentativa de golpe em curso, que segundo ele era liderada pela direita, e defendeu as reformas de base.
Consumado o golpe militar, Serra dirigiu-se primeiro para o Departamento de Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro, QG improvisado das forças leais a Jango. De lá partiu, junto de Marcelo Cerqueira (seu vice na UNE), para a casa do deputado Tenório Cavalcanti, também conhecido como "o homem da capa preta". Com o incêndio da sede da UNE pelos militares, Serra tratou de esconder-se por mais alguns dias na casa de amigos, sem contato nem mesmo com a família. Aconselhado por um deputado amigo do ex-presidente Juscelino Kubitschek, refugiou-se na embaixada da Bolívia, onde permaneceu por três meses. Os militares não queriam deixá-lo sair do país, como dissera o então ministro da Guerra, Costa e Silva, aos bolivianos: "Este não deixaremos ir embora. É muito perigoso". Resolvido o impasse, foi então para a Bolívia e depois para a França, onde permaneceu até 1965.