Joseph Lister, 1.º Barão de Lister, OM, PRS (West Ham, 5 de abril de 1827 — Walmer, 10 de fevereiro de 1912), foi um médico, cirurgião e pesquisador britânico, pioneiro nas técnicas de antissepsia nas cirurgias, considerado o "pai" da cirurgia moderna.
Iniciou uma nova era no campo da cirurgia quando demonstrou, em 1865, que o ácido carbólico era um efetivo agente antisséptico, o que reduziu o número de mortes por infecções pós-operatórias. Lister promoveu a prática, enquanto trabalhava na Glasgow Royal Infirmary, de que técnicas estéreis na cirurgia impediam a infecção pós-operatória, que levavam à sepsis, necrose de tecidos e morte por infecção generalizada.
Apoiado nos avanços em microbiologia promovidos por Louis Pasteur, Lister iniciou o sucesso de sua técnica com o uso do ácido carbólico como antisséptico depois de observar que o uso da substância como desinfetante por engenheiros de uma companhia de água fez diminuir sensivelmente o odor de esgoto que assolava as cidades britânicas na época.
Lister então empregou o uso do ácido carbólico na redução de infecções pós-operatórias, o que tornou as cirurgias seguras para os pacientes e para os médicos, tornando-o assim o "pai" da moderna cirurgia.
Lister nasceu em West Ham, Condado de Essex, em 5 de abril de 1827, em uma próspera família quacre. Era filho do enólogo e cientista amador Joseph Jackson Lister, pioneiro na produção de lentes acromáticas para microscópios e sua esposa, Isabella. Era o quarto filho do casal e o segundo filho homem entre sete irmãos.
Joseph Jackson cuidava do negócio de vinhos da família, ainda que muitos quacres se abstivessem do consumo de álcool. Interessado por ciência e óptica desde criança, Joseph se debruçava sobre o microscópio, vendo-o como uma ferramenta científica e não um mero brinquedo caro como muitos contemporâneos da época. A paixão de Lister pela ciência começou no pequeno laboratório do pai, onde usava o microscópio para investigar a natureza. Entre os anos de 1824 e 1843, Joseph trabalhou para corrigir diversos defeitos do microscópio, incluindo uma distorção nas lentes que produzia uma auréola roxa em torno dos objetos, o que levava a muitos a desconfiar da precisão e revelações que um microscópio pudesse fornecer. Seu trabalho lhe rendeu uma membresia na Royal Society em 1832.
Joseph insistia que seus filhos lessem todos os dias pela manhã, tendo uma biblioteca com diversos volumes tanto religiosos quanto científicos. Joseph também era um quacre devoto, que não submetera a família a tratamentos médicos perigosos, pois acreditava na intervenção divina sobre a doença, acreditando que muitas substâncias usadas em terapias eram mais prejudiciais do que benéficas. Lister foi o primeiro da turma em francês e alemão na escola, tendo também sido bem-sucedido em história natural, ciências e matemática.
Lister cresceu em uma propriedade onde tinha contato com a natureza e podia investigar o mundo natural. Fazia esboços com grande precisão de estruturas que via pelo microscópio do pai e fazia dissecações em casa e sempre anotava os feitos e os comentava com o pai. Mas Lister surpreendeu a família ao anunciar a decisão de que gostaria de se tornar cirurgião. O trabalho dos cirurgiões na época carregava um estigma social, visto como um trabalhador braçal, que usava as mãos para ganhar a vida. Não era considerada uma profissão de respeito e prestígio. Cirurgiões dificilmente eram empregados em hospitais e muitos ganhavam a vida com clínicas particulares.
Aos 17 anos, Lister ingressou na University College London, uma das poucas instituições na época que aceitava estudantes quacres. Saindo de um pequeno vilarejo de pouco mais de 12 mil habitantes foi um choque chegar à cosmopolita Londres. Inicialmente estudou botânica, obtendo um bacharelado em artes em 1847, atendendo aos desejos do pai.
Registrou-se como estudante de medicina e se formou com honras, ingressando em seguida na Faculdade Real de Cirurgiões da Inglaterra, aos 26 anos. Contraiu varíola por volta dessa época, junto do irmão, mas se recuperou. Seu irmão John sobreviveu à doença, mas depois desenvolveu um tumor cerebral, que lhe tirou a visão, os movimentos das pernas, enfim vindo a falecer em 1846, com apenas 23 anos de idade, morte que marcou profundamente seu pai, Joseph Jackson. Uma crise de consciência abateu Lister depois da morte do irmão, questionando-se se sua vocação deveria ser na congregação quacre ao invés da cirurgia. Seu pai o convenceu a permanecer na medicina, mas ainda assim Lister abandou a faculdade no começo de 1848, em depressão.
Lister passou um ano viajando pela Grã-Bretanha e depois pela Europa, até retornar a Londres. Em 1849, matriculou-se novamente na University College London, dedicando-se novamente à cirurgia. Praticava suas habilidades no anfiteatro cirúrgico da instituição e nas horas vagas comprava peças anatômicas para estudar em casa. Um ano depois de iniciados os estudos, Lister iniciou sua residência cirúrgica no University College Hospital, em outubro de 1850. Alguns meses depois, foi oferecido a ele um cargo de auxiliar cirúrgico de John Eric Erichsen, cirurgião sênior da instituição. Lister dava plantões noturnos no hospital, onde aproveitava as horas vagas para estudar. Chegou a depor em um caso de tentativa de feminicídio na corte depois de atender uma mulher esfaqueada pelo marido.
Em 1852, Lister fez grandes contribuições à ciência ao usar seu microscópio para examinar a estrutura do olho humano, corroborando a hipótese de que a íris se compunha de fibras de musculatura lisa e que suas ações eram involuntárias, indo contra o que se achava na época. Porém ainda demoraria muito tempo para que os experimentos com uso de microscópio fossem vistos como úteis para a medicina.
Por volta dessa época, a enfermaria sob administração de John Eric Erichsen apresentou vários casos de gangrena. Na época se atribuía ao ar ruim as epidemias em hospitais de piemia, gangrena e infecção hospitalar generalizada. Mas Lister observou corretamente que quando se lavava e retirava tecido morto de uma úlcera gangrenosa, a tendência do tecido era a da recuperação. Lister não estava convencido de que os miasmas eram totalmente responsáveis pelas infecções.
Lister terminou sua residência com Erichsen em fevereiro de 1852 e aceitou a nomeação de assistente clínico no University College, período em que foi bastante condecorado e homenageado pelos membros do hospital por seu trabalho. Seus experimentos científicos eram vistos com ironia por grande parte dos colegas, que não viam utilidade no microscópio. Foi assim que um professor sugeriu que Lister passasse um tempo viajando pelos hospitais da Europa, para ver de perto avanços da medicina. Seu professor indicou que começasse pela Escócia, onde o renomado cirurgião James Syme era professor de cirurgia na Universidade de Edimburgo. Lister embarcou em setembro de 1853.
James Syme era conhecido por uma inovadora técnica de amputação na articulação do tornozelo, ainda usada nos dias de hoje, que permitia ao paciente a suportar o peso sobre o coto do tornozelo, dando-lhe uma maior mobilidade e independência do que técnicas anteriores. Em uma carta redigida ao pai, Lister explicou suas razões para a viagem a Edimburgo:
Pouco depois de chegar a Edimburgo, ele se apresentou a Syme com uma carta de recomendação, sendo bem recebido pelo colega, que era responsável por três enfermarias na Royal Infirmary. Logo Lister se tornou braço direito de Syme no hospital, tornando-se seu cirurgião residente em 1854. Syme era uma inspiração e um modelo para Lister, que discorria sobre sua admiração ao velho cirurgião em cartas para a família. Rapidamente, Lister ganhou a admiração e o respeito dos colegas, em especial pela forma respeitosa com que tratava os pacientes.
Muito amigo de Syme, Lister frequentava sua casa e era convidado para jantares e foi em um desses que conheceu uma das filhas de Syme, Agnes, por quem se apaixonou e tinha intenção de casar o quanto antes. Porém, a família Syme não era quacre, eram da Igreja Episcopal da Escócia e assim Lister precisou se desligar de sua congregação para que o casamento acontecesse. Lister se preocupava em perder o apoio financeiro do pai, já que seu trabalho como cirurgia não lhe rendia um salário fixo, mas seu pai não desamparou o filho nem a futura nora. Eles se casaram em 23 de abril de 1856, no salão de festas da casa de Syme, em consideração aos parentes quacres de Lister que não quisessem entrar em uma igreja. O casal passou os três meses da lua de mel visitando hospitais na França e na Alemanha e Agnes se tornou uma importante assistente para os estudos de Lister.