Judith Butler (Cleveland, 24 de fevereiro de 1956) é uma filósofa pós-estruturalista de origem estadunidense, tendo composto umas das principais teorias contemporâneas do feminismo e teoria queer. Butler também escreve sobre filosofia política e ética. Atualmente, ocupa o cargo de professora do departamento de retórica e literatura comparada da Universidade da Califórnia em Berkeley. Desde 2006, Butler também ocupa o posto honorificamente intitulado "Hannah Arendt" na European Graduate School.
Butler é uma pessoa não-binária, que em inglês usa os pronomes "they/them".
Butler obteve seu Ph.D. em filosofia na Yale University em 1984, e sua dissertação foi publicada como Subjects of Desire: Hegelian Reflections in Twentieth-Century France. Em fins da década de 1980, entre diversas designações de ensino e pesquisa (tais como no Centro de Humanidades na Johns Hopkins University), envolveu-se nos esforços de crítica ao estruturalismo presente na teoria feminista ocidental (Claude Lévi-Strauss), questionando os "termos pressuposicionais" do feminismo vigentes.
Judith Butler assume também genealogicamente os preceitos de autores/as que trabalham com o giro linguístico, tanto da escola inglesa (Austin, Searle) quanto da francesa (Derrida, Deleuze), e adota algumas posturas da fenomenologia existencialista de Sartre e Merleau-Ponty. Butler aponta a falsa estabilidade da categoria mulher e propõe buscar um modo de interrogação da constituição do sujeito que não requeira uma identificação normativa com o 'sexo' binário.
Seus trabalhos mais recentes focam a filosofia judaica, centrando-se em particular nas "críticas pré-sionistas da violência estatal".
O corpo como construção cultural
Judith Butler propôs uma reformulação radical na forma como se compreende o corpo, desafiando concepções essencialistas ao argumentar que o corpo é uma construção discursiva moldada por normas culturais. Em vez de considerar o corpo como uma entidade biológica pré-discursiva, Butler entende que sua materialidade é produzida por práticas linguísticas e sociais que delimitam os significados possíveis do sexo e do gênero.
Central à sua teoria está a noção de performatividade de gênero, segundo a qual o gênero não é uma essência, mas um conjunto de atos repetitivos que envolvem o corpo e produzem a aparência de uma identidade estável. Assim, a identidade de gênero emerge da repetição de performances corporais normativas, e não de uma natureza interior.
Butler também argumenta que os corpos só se tornam inteligíveis dentro de certas normas culturais que definem o que é considerado um corpo legível e válido. Essa inteligibilidade é regulada por estruturas discursivas que produzem tanto os limites do corpo quanto os parâmetros da subjetividade.
Inspirando-se em Michel Foucault, a autora sustenta que a materialização do corpo não é anterior ao poder, mas um efeito de práticas reguladoras que o produzem como categoria socialmente reconhecível.
Em seus escritos mais recentes, Butler enfatiza a vulnerabilidade dos corpos humanos como ponto de partida para uma ética e política da interdependência. A condição corporal compartilhada revela a necessidade de repensar categorias como cuidado, luto e reconhecimento político.
A filósofa também questiona por que certos corpos são considerados mais valiosos que outros, refletindo sobre como as normas culturais e midiáticas definem quais vidas são dignas de luto ou de proteção social.
Outro ponto central em sua obra é o conceito de abjeção, entendido como o processo pelo qual corpos desviantes ou não conformes às normas são excluídos da esfera da inteligibilidade social.
Ao criticar a heteronormatividade, Butler mostra como normas compulsórias de sexualidade regulam a expressão dos corpos e reforçam a ideia de que existem formas “naturais” de ser homem ou mulher.
Além disso, ela aborda o papel dos corpos nas manifestações públicas, argumentando que a presença física nos espaços coletivos é uma forma de ação política que desafia estruturas normativas e amplia os modos de reconhecimento social.
Finalmente, ao recusar a separação cartesiana entre mente e corpo, Butler propõe que ambas as dimensões são moldadas pelas normas culturais e não constituem entidades naturais independentes.
Diversos autores manifestaram críticas às concepções de Butler. Nancy Fraser e Martha Nussbaum argumentam que sua ênfase no discurso pode negligenciar a materialidade física do corpo e suas implicações concretas.
Seyla Benhabib e Fraser também observam que a teoria da performatividade pode reduzir a agência dos sujeitos, tratando-os como simples efeitos das normas culturais.