Lúcia de Jesus Rosa dos Santos, O C.D. (Aljustrel, Fátima, 28 de Março de 1907 – Sé Nova, Coimbra, 13 de Fevereiro de 2005) foi uma freira da Ordem das Carmelitas Descalças, conhecida no Carmelo como Irmã Maria Lúcia de Jesus e do Coração Imaculado e pela maioria dos portugueses simplesmente como Irmã Lúcia que, juntamente com os seus primos Jacinta e Francisco Marto (os chamados "três pastorinhos"), afirmou ter recebido várias aparições da Virgem Maria no lugar da Cova da Iria, em Fátima, Portugal. Foi declarada Venerável pelo Papa Francisco em 22 de junho de 2023.
Lúcia nasceu no lugar de Aljustrel, freguesia de Fátima, a 28 de março de 1907. Era filha de António dos Santos e de sua mulher (casados em Fátima, Ourém, a 19 de Novembro de 1890) Maria Rosa Ferreira (6 de Julho de 1869), ambos naturais da freguesia de Fátima, e irmã mais nova de sete: Maria dos Anjos, Teresa de Jesus Rosa dos Santos, Manuel Rosa dos Santos, Glória de Jesus Rosa dos Santos, Carolina de Jesus Rosa dos Santos e Maria Rosa. Foi baptizada na Igreja Paroquial de Fátima no sábado de Aleluia, 30 de março de 1907.
Tinha dez anos quando viu, pela primeira vez, Nossa Senhora na Cova da Iria, juntamente com os primos Francisco e Jacinta Marto. Lúcia foi a única dos três primos que falava com a Virgem Maria: a sua prima Jacinta ouvia mas não falava, e Francisco, inicialmente, apenas observava os gestos de Nossa Senhora. Como tal, Lúcia foi a portadora do Segredo de Fátima. Nos primeiros tempos, a hierarquia católica se revelou cética sobre as afirmações dos Três Pastorinhos e foi só a 13 de outubro de 1930 que o bispo de Leiria tornou público, oficialmente, que as aparições eram dignas de crédito. A partir daí, o Santuário de Fátima ganhou uma expressão internacional, enquanto a Irmã Lúcia viveu cada vez mais isolada. Durante alguns anos ficou na Quinta da Formigueira em Frossos, Braga, propriedade do bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva.
Em 17 de Junho de 1921, com 14 anos, o Bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, proporcionou a sua entrada no Colégio das Irmãs Doroteias em Vilar, no Porto, alegadamente para a proteger dos peregrinos e curiosos que acorriam cada vez mais à Cova da Iria e pretendiam falar com ela. Professou como religiosa doroteia em 1928, em Tui (Galiza, Espanha), onde viveu alguns anos. Pouco tempo depois morou em Pontevedra, também na região espanhola da Galiza, onde também se lhe apareceu a Virgem Maria, em 1925, nas chamadas Aparições de Pontevedra.
Em 1946 regressou a Portugal e, dois anos depois, entrou para a clausura do Carmelo de Santa Teresa em Coimbra, onde professou como freira carmelita descalça a 31 de maio de 1949. Foi neste convento que escreveu dois volumes com as suas Memórias e os Apelos da Mensagem de Fátima. Em 1991, quando o Papa João Paulo II visitou Fátima, convidou a irmã Lúcia a deslocar-se ali e esteve reunido com ela doze minutos. Antes, já se tinha encontrado também em Fátima com o Papa Paulo VI.
Lúcia morreu no dia 13 de Fevereiro de 2005, aos 97 anos, no Carmelo de Santa Teresa, freguesia da Sé Nova, em Coimbra. O Papa João Paulo II, nesta ocasião, rezou pela Irmã Lúcia e enviou o Cardeal Tarcisio Bertone para o representar no funeral. Em 19 de Fevereiro de 2006 o seu corpo foi trasladado de Coimbra para o Santuário de Fátima onde foi sepultada junto dos seus primos, Francisco e Jacinta Marto.
Em 14 de Fevereiro de 2008, na Catedral de Coimbra em Portugal, o Cardeal José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, por ocasião do aniversário da morte da "vidente de Fátima", tornou público que o papa Bento XVI, atendendo ao pedido do bispo Albino Mamede Cleto, de Coimbra, compartilhado com numerosos bispos e fiéis autorizou, excepcionando as normas do Direito Canônico (art. 9 das "Normae servandae"), o início da fase diocesana da causa da sua beatificação, transcorridos apenas três anos da sua morte.
A fase diocesana do processo foi aberta em 30 de abril de 2008 por D. Albino Cleto, então Bispo de Coimbra. O solene encerramento dessa etapa ocorreu a 13 de fevereiro de 2017.
Em outubro de 2022, o processo de beatificação e canonização da religiosa tem um desenvolvimento importante, com a entrega, no Vaticano, do documento sobre as virtudes heróicas.
No ato de entrega da Positio Super Vita, Virtutibus et Fama Sanctitatis (sobre a vida, virtudes e fama de santidade), em Roma, estiveram presentes o Cardeal Marcello Semeraro; o postulador geral da causa de canonização, Padre Marco Chiesa; a vice-postuladora, Irmã Ângela de Fátima Coelho; o relator, monsenhor Maurizio Tagliaferri; e a Irmã Filipa Pereira. Este documento foi analisado por um conjunto de nove teólogos que emitiram o seu parecer favorável sobre a prática das virtudes em grau heróico.
A 22 de junho de 2023, o Papa Francisco aprovou a publicação do decreto que reconhece as “virtudes heróicas” da religiosa, após uma audiência concedida ao prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, Cardeal Marcello Semeraro, passo necessário para a beatificação.
Atualmente, Lúcia é considerada Venerável.
A 12 de Setembro de 1935, os restos mortais de Jacinta Marto são trasladados para o cemitério de Fátima. Ao abrir-se a urna, verifica-se que o rosto da vidente se encontrava incorrupto. Tiram-se então algumas fotografias e o então Bispo de Leiria, Dom José Alves Correia da Silva, remete algumas para Lúcia que se encontrava na altura em Pontevedra. Na carta de agradecimento, Lúcia evoca a prima com saudade referindo alguns factos sobre o carácter de Jacinta. Estas palavras levam D. José a ordenar-lhe que escrevesse tudo o que se recordava da prima. Assim nasce a "Primeira Memória da Irmã Lúcia" que fica concluída em Dezembro de 1935.
Volvidos dois anos sobre a revelação dos factos relatados na "Primeira Memória", o Bispo de Leiria, convencido da necessidade de se estudar mais a fundo os acontecimentos de Fátima, dá ordens a Lúcia para escrever a história da sua vida e das aparições. A vidente obedece e redige, entre os dias 7 e 21 de Novembro de 1937, o que fica conhecido como "Segunda Memória da Irmã Lúcia". Neste texto, a vidente revela pela primeira vez os factos ocorridos com as três visões do Anjo da Paz.
Em 26 de Julho de 1941, o Bispo de Leiria escreve a Lúcia anunciando-lhe o livro "Jacinta" que estava a ser preparado pelo Dr. José Galamba de Oliveira. Pede-lhe então para recordar tudo o mais o que pudesse lembrar sobre a prima, de modo a ser incluído nesta edição. Esta ordem cai no fundo da alma da vidente como um raio de luz, dizendo-lhe que era chegado o momento de revelar as duas primeiras partes do Segredo. Manifesta então a vontade de acrescentar à edição dois capítulos: um sobre o Inferno e outro sobre o Imaculado Coração de Maria. Estas revelações são escritas e concluídas em 31 de Agosto de 1941. São posteriormente publicadas e conhecidas como a "Terceira Memória da Irmã Lúcia".
Surpreendidos com os relatos da "Terceira Memória", Dom José Alves Correia da Silva e Galamba de Oliveira concluíram que Lúcia não tinha dito tudo nas narrações anteriores e que ocultaria ainda algumas coisas. A 7 de Outubro de 1941, a vidente recebe ordem para escrever tudo o que soubesse sobre Francisco e completar o que faltasse sobre Jacinta e descrever, com mais pormenor, as Aparições do Anjo e de Nossa Senhora. Lúcia entrega o manuscrito a 8 de Dezembro de 1941 deixando claro que nada mais tem a ocultar excepto a Terceira parte do Segredo. O texto é depois publicado como "Quarta Memória da Irmã Lúcia" e nele a vidente escreve o texto definitivo das Orações do Anjo, acrescentando também ao segredo a frase «Em Portugal se conservará sempre o dogma da fé etc.».
Em 31 de Maio de 2007 foi inaugurado em Coimbra um museu sobre a principal vidente e mensageira de Nossa Senhora de Fátima.
Foi projectado pelo arquitecto Florindo Belo Marques para uma área onde as freiras do Carmelo de Coimbra tinham galinheiros, o museu apresenta um espólio que remete até ao tempo das "aparições de Fátima".