Leon Trótski (nascido Liev Davidovich Bronstein; Ianovka, 7 de novembro de 1879 – Coyoacán, 21 de agosto de 1940) foi um escritor, intelectual marxista e revolucionário bolchevique, organizador do Exército Vermelho e, após a morte de Lenin, rival de Stalin na disputa pela hegemonia do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Tornou-se figura central da vitória bolchevique na Guerra Civil Russa (1918–1922).
Nos primeiros tempos da União Soviética, Trótski desempenhou um importante papel político, primeiro como Comissário do Povo (Ministro) para os Negócios Estrangeiros; posteriormente, como organizador e comandante do Exército Vermelho e fundador e membro do Politburo do PCUS, fundado em 1917 para gerenciar a Revolução Bolchevique.
Afastado do controle do partido por Stalin, Trótski foi expulso deste e exilado da União Soviética, refugiando-se no México, onde veio a ser assassinado por Ramón Mercader, agente da polícia de Stalin, que teve ajuda da espiã soviética infiltrada, África de las Heras. As suas ideias políticas, expostas numa obra escrita de grande extensão, deram origem ao trotskismo, corrente ainda hoje importante no marxismo.
Trótski nasceu numa "khata (ucr. хата.)", pequena casa de teto de palha (...) numa família de colonos judeus", na pequena localidade de Ianovka, no distrito (Óblast) de Kherson, na atual Ucrânia. É o quinto filho de Anna Lvovna (1850–1910) e David Leontyevish Bronstein (1847–1922), um humilde lavrador de origem judaica. O pai, David Bronstein, havia aproveitado os esquemas de colonização tsaristas na Crimeia para abandonar a área tradicional de residência autorizada aos judeus (o pale ou "paliçada de assentamento") e converter-se num próspero, ainda que iletrado, fazendeiro.
Embora a família fosse de origem judaica, não era religiosa; em casa, falava-se russo ou ucraniano, não iídiche. Aos 9 anos, Liev Davidovich foi para Odessa, a fim de prosseguir seus estudos numa escola tradicional alemã que, ao longo dos anos em que ele ali permaneceu, passaria por um processo de russificação, seguindo a política czarista da época. Um bom aluno, já no 2º ano revelaria seu temperamento combativo ao organizar um protesto contra um professor impopular. Entretanto não mostraria grande interesse pela política ou pelo socialismo até 1896, quando se mudou para Nikolaev, onde cumpriu seu último ano de estudos secundários. Posteriormente cursou Matemática por um breve período, na Universidade Nacional de Odessa.
Embora tivesse um bom conhecimento de idiomas estrangeiros (francês, inglês e alemão), ele admite, em sua autobiografia My Life, que nunca foi perfeitamente fluente em qualquer outro idioma além do russo. Raymond Molinier escreveu que Trótski falava francês fluentemente.
Sua irmã, Olga, viria a casar-se com Lev Kamenev, um dos principais líderes bolcheviques e membro do triunvirato liderado por Stálin, que afastaria Trótski do poder, sendo que o próprio Kamenev também seria afastado posteriormente.
No discurso da revolução, Trótski manifesta sua descrença na unificação de todas as facções social-democratas, abandona sua trajetória anterior de menchevique e junta-se ao partido bolchevique de Lenin Destacando-se pelo seu talento como organizador e agitador, é eleito presidente do soviete de Petrogrado, participa ativamente da luta para derrubar o Governo Provisório (1917), de Alexander Kerenski, e lidera o Comité Militar Revolucionário que planeja e concretiza o assalto ao Palácio de Inverno, consumando a Revolução de Outubro.
Após a conquista do poder pelos bolcheviques, Trótski torna-se Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros, com a missão de negociar o armistício militar com a Alemanha e seus aliados. A posição de Trótski nas negociações do armistício foi oposta à de Lenin — que achava que um tratado deveria ser assinado com a Alemanha, em quaisquer condições — mas também oposta à dos comunistas de esquerda, que propunham a guerra revolucionária. Para ele, a posição a tomar seria de "nem paz, nem guerra", ou seja, o governo soviético deveria retirar-se das conversações e esperar pela agitação revolucionária do exército alemão. Trótski acaba por retirar-se de fato das conversações a 10 de fevereiro de 1918. A Alemanha responde com um novo ataque, o que obrigou o governo soviético a assinar, por fim, a 3 de março, o desvantajoso Tratado de Brest-Litovski.
Trótski abandona subsequentemente o cargo, mas ainda no mesmo mês é nomeado Comissário do Povo para os Assuntos Militares (cargo em que permanecerá até 1925) e, em setembro, líder do Comité Militar Revolucionário do regime soviético. É nesse contexto que ele lidera a criação e organização do Exército Vermelho, o qual acaba por vencer a longa e violenta Guerra Civil Russa (1918–1920) contra o Exército Branco, garantindo a sobrevivência do regime.
Formulação da política militar e primeiros sucessos: 1918
Contrariamente ao que desejava a Velha Guarda Bolchevique, Trótski reorganizou o Exército Vermelho em torno do recrutamento compulsório de camponeses, enquadrados por oficiais do antigo Exército Imperial Russo, os quais eram vigiados quanto às suas simpatias políticas, por propagandistas e militantes bolcheviques ("comissários políticos") encarregados de validar as ordens militares dadas por estes oficiais e de garantir sua confiabilidade ("comando dual"). O Exército Vermelho foi assim constituído como uma organização hierarquizada e burocrática, que, como era norma em todos os exército desse tempo, apoiava-se no uso de uma disciplina estrita que previa a pena de morte para atos de covardia e deserção, sendo aplicável tanto aos ex-oficiais do exército imperial quanto aos comunistas. Como o próprio Trótski declarou:
Tal atitude levou a constantes protestos por parte de militantes bolcheviques, que prefeririam um Exército Vermelho organizado como uma milícia popular dirigida exclusivamente por comunistas e dotada de oficiais eleitos. Para Trótski - que nada tinha de militar profissional -, no entanto, as necessidades de uma guerra moderna requeriam conhecimentos técnicos especializados que apenas poderiam ser encontrados num corpo de militares de carreira; daí a necessidade absoluta do recurso a "especialistas burgueses". Leve-se em conta que, mediante o emprego de uma disciplina tida por muitos como "brutal", Trótski procurou impor o princípio meritocrático no Exército Vermelho, não hesitando em promover oficiais tzaristas competentes a postos de responsabilidade, nem tampouco em validar punições, incluindo fuzilamentos, de militantes comunistas culpados de atos de covardia.
Não obstante deixasse as decisões militares a cargo dos oficiais profissionais, a qualidade da liderança de Trotsky beneficiou-se grandemente de sua experiência percorrendo o front, durante boa parte da Guerra Civil, a bordo do seu lendário trem blindado - dotado de uma tipografia portátil, uma banda e outras instalações -, a partir do qual podia monitorar as atividades militares, fazer propaganda, resolver diferendos burocráticos ou logísticos e eventualmente lançar mão dos seus talentos oratórios para elevar o moral da tropa.
Na situação militar desesperada do verão de 1918, com os bolcheviques reduzidos apenas à posse da parte da Rússia Europeia em torno de Moscou e Petrogrado (São Petersburgo), com os alemães e austríacos ocupando a fronteira ocidental, os ingleses e franceses no Ártico russo e as várias formações antibolcheviques na Sibéria, Trótski recebeu carta branca do partido para aplicar seus métodos. O primeiro grande sucesso militar do Comissário da Guerra seria a defesa da linha de frente dos Urais, contra as tropas da Legião Checoslovaca - uma tropa de soldados checos emigrados mobilizados para a luta contra os austríacos, ao lado do exército tzarista, instigados pela Entente Cordiale (franco-britânica) e pela oposição russa a lutarem contra os bolcheviques. A defesa organizada por Trótski culminou na tomada de Kazan pelo Exército Vermelho, em 10 de setembro de 1918.
Após essa vitória, como prova da confiança do partido na política militar de Trótski, o Conselho Militar Supremo foi (temporariamente) extinto, em favor do estabelecimento de um Comandante em Chefe do Exército Vermelho, o qual viria a ser Ioakim Vatsetis (ou Jukums Vacietis), o comandante do Regimento Vermelho de Fuzileiros Letões (a Letônia tendo sido uma das regiões de fronteira do Império Russo onde o bolchevismo tinha encontrado mais seguidores) e homem de confiança do Comissário da Guerra. À medida que a situação militar da Rússia Soviética se tornava menos crítica, no entanto, a oposição ao Comissário da Guerra, paradoxalmente, recrudescia. Logo após a vitória na frente dos Urais, Vatsetis propôs seguir uma estratégia puramente defensiva, no front siberiano - onde a Legião Checoslovaca havia sido substituída pelas tropas do almirante branco Aleksandr Kolchak - de forma a poupar tropas para operações no front ucraniano, onde as tropas brancas do general Anton Ivanovich Denikin estavam na ofensiva. Esta proposta foi rejeitada pelo Comitê Central bolchevique, e, como o avanço no front oriental acabou por provar-se bem-sucedido - contra as expectativas de Trótski e Vatsetis - este acabou por ser demitido da posição de Comandante em Chefe, que foi dada ao general Sergey Kamenev (nenhum parentesco com o cunhado de Trótski).