Leonor de Woodstock (em inglês: Eleanor; em neerlandês: Eleonora; Palácio de Woodstock, 18 de junho de 1318 – Abadia de Deventer, 22 de abril de 1355) foi uma princesa inglesa por nascimento. Ela foi condessa, e mais tarde, duquesa de Gueldres e Zutphen como esposa de Reginaldo II de Gueldres. Quando foi acusada de ter lepra pelo conselheiro do marido, enfrentou o conde na corte que desejava anular o casamento; no entanto, ele foi obrigado a aceitá-la de volta após Leonor provar a todos que não sofria da doença.
Após a morte de Reginaldo, tornou-se regente em nome do filho mais velho, Reginaldo III, por um breve período, de 1343 a 1344, até ser forçada a renunciar. Anos depois, encorajou a rebelião do filho mais novo, Eduardo, o que a levou a ter os seus bens confiscados, e a se retirar da vida pública. Passou a morar em Veluwe, hoje uma província da Guéldria. Foi mecenas de mosteiros, além de fundadora da Abadia de Deventer, onde faleceu e foi sepultada.
Leonor foi a primeira filha, terceira e penúltima criança nascida do rei Eduardo II de Inglaterra e da princesa Isabel de França.
Os seus avós paternos eram Eduardo I de Inglaterra e Leonor de Castela. Os seus avós maternos eram o Filipe IV de França e Joana I de Navarra.
Ela teve dois irmãos mais velhos: o rei Eduardo III, casado com Filipa de Hainault e João de Eltham, Conde da Cornualha, que morreu aos 20 anos de idade. Também teve uma irmã mais nova, Joana, rainha da Escócia como esposa de Davi II.
Ao nascer, Leonor recebeu o seu nome em homenagem à avó paterna, Leonor de Castela. Feliz com o nascimento da filha, o rei Eduardo II gastou a quantia equivalente a £333 para o banquete do churching da rainha Isabel, um tipo de cerimônia onde uma benção é dada à mãe após ela se recuperar do parto. Eduardo também deu a esposa uma quantia de 500 marcos. No início, Leonor e seus irmãos ficaram sob os cuidados da mãe, e receberam uma educação digna de sua posição. A rainha era uma mãe carinhosa e ambiciosa, e os seus filhos permaneceriam devotados a ela pelo resto de sua vida. As crianças moravam com a mãe no Castelo de Wallingford. Eduardo II também conferiu à família a mansão em Macclesfield, além do castelo e honra de High Peak, em Derbyshire, para garantir a renda deles.
Em 1324, hostilidades surgiram entre a França e a Inglaterra. Os favoritos do rei, Hugo Despenser, o Jovem e o pai dele Hugo Despenser, o Velho, aproveitaram para acusar Isabel de ser uma inimiga do estado, pois ela era francesa. Eles reduziram drasticamente a renda da rainha, confiscaram suas terras, enviaram os servos da rainha embora, e tiraram a guarda de seus três filhos mais novos. Por isso, João, Leonor e Joana foram colocados sob os cuidados da prima Leonor de Clare e da irmã de Despensar, Isabel. Leonor de Clara era sobrinha de Eduardo II como filha da irmã dele, Joana de Acre, além de ser esposa de Hugo Despenser, o Jovem. Mais tarde, Leonor foi enviada para a residência de Isabel Despenser, casada com o padrasto de Leonor de Clare, Ralf de Monthermer. As crianças, então, passaram a viver nas residências de Monthermer, nos castelos de Pleshy e de Marlborough.
Isabel partiu, em 1325, junto ao herdeiro, o príncipe Eduardo, para a França, onde prestariam homenagem ao rei francês, que era o irmão de Isabel, Carlos IV, pois os reis da Inglaterra detinham o Ducado da Aquitânia no território francês. Leonor permaneceu na Inglaterra, provavelmente sob os cuidados do pai. Nesse mesmo ano, houve negociações para um possível casamento entre a princesa Leonor e Afonso XI de Castela, e também entre o príncipe Eduardo e uma princesa castelhana. Contudo, o noivado fracassou devido a desacordos sobre a questão do dote.
Durante a época de crise com a família Despenser, a rainha Isabel triunfou, em 1326, e reencontrou os filhos em Bristol, onde eles estavam sob a guarda de Hugo Despenser, o Velho. No seu retorno, trouxe consigo um exército e depôs o seu marido, Eduardo II, que foi capturado, junto com os seus favoritos. Ambos os Hugos foram executados por traição, e o pai de Leonor provavelmente foi assassinado no Castelo de Berkeley, em 1327, embora existam relatos de sua possível sobrevivência e fuga para a Itália.
A partir de 1328, Leonor passou a viver em Londres, na corte do irmão, agora o rei Eduardo III, e de sua nova esposa, Filipa de Hainault, que tornou-se a guardiã da menina. Em 1328, como parte do Tratado de Edimburgo-Northampton, Joana, de apenas 7 anos, irmã de Leonor, se casaria com futuro rei, David II da Escócia, que tinha 4 anos; Leonor e Isabel acompanharam a princesa até Berwick-upon-Tweed, a cidade mais ao norte da Inglaterra que fazia fronteira com a Escócia, para o casamento, em julho de 1328.
Em janeiro de 1330, o Parlamento foi reunido para discutir as futuras relações da Inglaterra com a França. Em 1329, em Amiens, foi sugerido e discutido um casamento entre Leonor e o futuro João II de França. Já no ano seguinte, foi considerado outro noivo, o futuro Pedro IV de Aragão. No entanto, ambos os noivados não chegaram a acontecer.
Apesar dessas negociações para casar a princesa com um futuro rei, ela acabou se casando com alguém de posição inferior, o conde Reginaldo II de Gueldres e Zutphen territórios que faziam parte do Sacro Império Romano-Germânico na época. O conde era 23 anos mais velho do que a jovem. A união foi arranjada por Eduardo III e a prima da rainha Isabel, Joana de Valois, Condessa de Hainaut, sogra de Eduardo.
Reginaldo, que era viúvo de Sofia Berthout desde 1329, com quem teve quatro filhas, era filho de Reginaldo I de Gueldres e de Margarida de Flandres. Gueldres, o mais antigo principado no Baixo Reno, dominava a área desde o século XIV. Era relativamente grande, e possuía uma localização estratégica no atual Países Baixos. Reginaldo já havia visitado a Inglaterra em 1331, durante os primeiros anos do reinado de Eduardo III. Embora ele não tivesse tanto poder quanto outros governantes de outros estados nos Países Baixos, ele era bem conhecido por sua habilidade e proeza militar.
Reginaldo tinha teve uma desentendimento com o pai dele, em 1316, e ao argumentar que ele não podia mais cuidar de suas posses, ele tomou as rédeas da administração dos territórios. Reginaldo I foi aprisionado pelo filho no Castelo de Montfort durante seis anos, e após a morte dele, Reginaldo II se tornou o novo conde de Gueldres e Zutphen. Por isso, além de possuir uma pele bem escura segundo os cronistas, sua reputação e cárater também eram considerados assim.
Na época, os Países Baixos dependiam muito do comércio de lã com a Inglaterra para a tecelagem. Reginaldo tomou a decisão de fazer uma aliança com Eduardo III contra a França, e durante a primeira fase da Guerra dos Cem Anos, permaneceu como um de seus aliados mais próximos. A ideia do casamento era, na verdade, secundária à aliança. É possível que o sogro de Eduardo, Guilherme I, Conde de Hainault, junto com o imperador alemão, tivesse um interesse numa aliança da Inglaterra com Gueldres, promovendo ou iniciando, então, o projeto de sua própria iniciativa.
No outono de 1331, o rei organizou um torneio para cavaleiros. Segundo um cronista londrino, a bela Leonor, de 13 anos, era uma convidada de honra. Agora ela possuía o seu próprio agregado doméstico. Foram feitos os contratos nupciais para o seu casamento com o conde, e os preparativos para a cerimônia. O vestido de noiva era feito de tecido de ouro espanhol, bordado com seda, acompanhado de um manto de veludo carmesim, e um véu branco. O seu enxoval incluía toucas, luvas e sapatos feitos de couro de Cordóva, cortinas de cama de veludo verde e cortinas de seda, especiarias, pães de açúcar e uma biga pintada com acolchoado de veludo roxo adornado com estrelas douradas. O casamento por procuração aconteceu em 20 de outubro de 1331.
Antes de deixar o seu país natal, em 5 de maio, Leonor deu esmolas para 24 pessoas carentes, além de um presente especial para um eremita. Ela partiu da cidade de Sandwich, um dos Cinco Portos da Inglaterra medieval. Os presentes que Leonor trouxe consigo para a sua nova corte, destacam a importância da coroa inglesa. A carruagem que carregou Leonor durante sua viagem possuía um dossel de veludo roxo, bordado com estrelas e a lua crescente em linha dourada. No centro de cada estrela, havia uma pedra incrustada. O lado externo da carruagem era coberto por tecido verde e vermelho. As cores não apenas representavam a imensa riqueza e o poder da coroa, elas também tinham significado simbólico. O vermelho representava a personificação da realeza, e o verde servia para encorajar e sintentizar a fertilidade. Essas escolhas de cores, portanto, demonstravam o poder da princesa como uma mãe em potencial. A carruagem também possuía vários brasões de armas entalhados na estrutura, o que, novamente, enfatizava a sua legitimidade como uma filha real, e o seu papel a desempenhar na sucessão da dinastia. Até mesmo as selas dos cavalos, que eram feitas de couro vermelho, tinham os brasões de Gueldres e da Inglaterra pintados nelas.