Leopoldo III (Bruxelas, 3 de novembro de 1901 – Bruxelas, 25 de setembro de 1983) foi o Rei dos Belgas, cujas ações como comandante-em-chefe do exército belga durante a conquista alemã da Bélgica (1940) na Segunda Guerra Mundial suscitaram oposição ao seu governo, levando eventualmente à sua abdicação em 1951.
Filho de Alberto I e de sua consorte Isabel da Baviera, Leopoldo serviu como soldado raso durante a campanha final da Primeira Guerra Mundial. Em 10 de novembro de 1926 casou-se com a princesa Astrid da Suécia e teve como filhos Josefina Carlota, Balduíno e Alberto. Leopoldo tornou-se rei dos belgas após a morte de seu pai em 17 de fevereiro de 1934. Favorecendo uma política externa independente, mas sem adotar uma neutralidade estrita, retirou a Bélgica de sua aliança defensiva com a França e da União Soviética, participando do Pacto de Locarno, um acordo de paz entre Alemanha, França, Bélgica, Itália e Grã-Bretanha após a ocupação alemã da Renânia em 1936. Determinado a resistir à agressão com o apoio da Grã-Bretanha e da França, patrocinou a construção de uma linha de defesa fortificada de Antuérpia a Namur, voltada para a Alemanha.
Com o início da Segunda Guerra Mundial, Leopoldo assumiu o comando supremo do exército belga. Em maio de 1940, enquanto os Aliados realizavam a evacuação de centenas de milhares de soldados do porto francês de Dunquerque, as forças belgas no rio Leie lutavam contra o avanço alemão. Leopoldo foi forçado a render suas tropas cercadas em 28 de maio. A rejeição do governo belga à sua decisão de permanecer com as tropas em vez de se unir ao governo de Londres no exílio gerou o conflito do pós-guerra sobre sua reivindicação ao trono. Leopoldo foi mantido prisioneiro pelos alemães em seu castelo real perto de Bruxelas até 1944 e depois na Áustria até o fim da guerra. Sua carta a Adolf Hitler em 1942 é considerada responsável por salvar cerca de 500 mil mulheres e crianças belgas da deportação para fábricas de munições na Alemanha. Em 11 de setembro de 1941 casou-se com Mary Lilian Baels, a quem nomeou princesa de Réthy, e teve como filhos Alexandre, Maria Cristina e Maria Esmeralda.
Após a nomeação de seu irmão Carlos como regente em 1944, Leopoldo permaneceu na Suíça entre 1945 e 1950 aguardando a resolução da controvérsia sobre seu iminente retorno ao trono. Um plebiscito realizado em 12 de março de 1950 mostrou que quase 58% dos eleitores eram favoráveis ao retorno do rei, refletindo principalmente o apoio dos flamengos católicos. No entanto, a agitação fomentada pela oposição liberal, socialista e valona levou Leopoldo a renunciar à sua soberania em 11 de agosto de 1950 em favor de seu filho Balduíno, que se tornou rei no ano seguinte. Leopoldo e a princesa de Réthy continuaram a viver em Laeken, residência tradicional dos reis belgas, até o casamento de seu filho em 1960. Críticos de Leopoldo acreditavam que sua permanência em Laeken lhe conferia demasiada influência sobre o rei Balduíno.
Juventude e primeiro casamento
Leopoldo Filipe Carlos Alberto Meinrad Umberto Maria Miguel nasceu no dia 3 de novembro de 1901 em Bruxelas. Com seu nascimento, ele recebeu o título de Duque de Brabante. Em 1915, foi enviado pelo seu pai para o Eton College no Reino Unido. Após a Primeira Guerra Mundial, o duque se alistou na escola de formação militar de Santa Bárbara, na Califórnia. Entre 23 de setembro e 13 de novembro de 1919, com apenas dezoito anos, Leopoldo participou de uma visita oficial aos Estados Unidos, acompanhado de seus pais.
Em 1926, casou-se com Astrid da Suécia, filha de Carlos, Duque da Gotalândia Ocidental, e tiveram uma filha e dois filhos. No dia 29 de agosto de 1935, Leopoldo III e Astrid, que na época estava grávida, estavam em um carro conduzido por Leopoldo, próximo à sua residência em Küsnacht, na Suíça. Enquanto dirigia ao longo das margens do Lago Lucerna, Leopoldo perdeu o controle do carro, o que resultou na trágica morte de Astrid.
Quando eclodiu, em setembro de 1939, a Segunda Guerra Mundial, os governos da França e do Reino Unido tentaram imediatamente convencer a Bélgica a se aliar a eles. No entanto, o governo belga e Leopoldo III, que era rei dos belgas desde 1934, recusaram-se a entrar na guerra, preferindo manter a neutralidade do país. Ao mesmo tempo, a Bélgica acreditava estar bem preparada caso ocorresse uma invasão pela Alemanha Nazista.
Em 10 de maio de 1940, Adolf Hitler, violando a neutralidade belga, lançou uma invasão para conquistar o país. A Bélgica não conseguiu resistir às forças alemãs, numericamente superiores, e em poucos dias todo o território belga caiu sob ocupação alemã.
Rendição e crise constitucional
Em 24 de maio de 1940, Leopoldo III, que comandava o exército belga, reuniu-se pela última vez com os ministros de seu governo. Os ministros aconselharam o rei a deixar o país, como faria o restante do gabinete. O primeiro-ministro Hubert Pierlot lembrou-lhe que a rendição era uma decisão que cabia ao governo belga, não ao monarca. Leopoldo, no entanto, declarou sua decisão de permanecer no país, independentemente do desfecho da guerra. Os ministros interpretaram essa atitude como a intenção do rei de formar um novo governo sob a autoridade de Hitler, o que foi visto como um ato de traição. Leopoldo já mantinha relações tensas com seus ministros, tentando reduzir os poderes deles e ampliar os seus próprios.
Em 25 de maio de 1940, enquanto as tropas francesas, britânicas e belgas estavam cercadas pelas forças alemãs na Batalha de Dunquerque, Leopoldo enviou um telegrama ao rei Jorge VI do Reino Unido, informando que o exército belga não tinha mais condições de continuar lutando. Dois dias depois, em 27 de maio de 1940, Leopoldo rendeu o exército belga aos alemães e permaneceu no país para compartilhar o cativeiro de seus soldados, como comandante-em-chefe.
O primeiro-ministro Pierlot, falando a uma rádio francesa, declarou que a decisão do rei de se render contrariava a Constituição belga. O governo Pierlot considerou Leopoldo "incapaz de governar" e defendeu a nomeação de um regente, o que só ocorreria após a libertação da Bélgica, em setembro de 1944.
Após a rendição, a imprensa britânica passou a chamar Leopoldo de "rei traidor". A mesma posição foi adotada pelo primeiro-ministro francês Paul Reynaud e pelo britânico Winston Churchill, que classificaram o ato de Leopoldo como traição.
Com a queda da Bélgica diante da Alemanha Nazista, a maioria dos ministros do governo belga partiu para o exílio, principalmente na França. Quando a França também foi derrotada, no fim de junho de 1940, vários ministros expressaram o desejo de retornar à Bélgica. Pediram então autorização a Leopoldo III, mas ele recusou o pedido. Nesse período, o rei gozava de grande popularidade entre o povo, ao contrário do governo exilado.
Em 2 de agosto de 1940, vários ministros exilados se reuniram na região de Le Perthus, na França, perto da fronteira com a Espanha. Lá decidiram transferir o governo para Londres, o que conseguiram realizar em 22 de outubro daquele mesmo ano.
Leopoldo III rejeitou colaborar com os nazistas e se recusou a administrar a Bélgica de acordo com as suas exigências, já que o país estava sob um governo militar imposto pela Alemanha. O rei tentou reafirmar sua autoridade como monarca e chefe de Estado belga, embora, na prática, fosse prisioneiro dos alemães. Apesar de seu desprezo pelos invasores, o governo belga no exílio, sediado em Londres, sustentava que Leopoldo não representava mais o Estado, considerando-o incapaz de governar.
Os alemães inicialmente o colocaram em prisão domiciliar no Palácio Real de Laeken, em Bruxelas. Desde junho de 1940, Leopoldo manifestava o desejo de se reunir com Adolf Hitler, e o encontro finalmente aconteceu em 19 de novembro de 1940. O rei esperava obter de Hitler uma declaração pública garantindo que a Bélgica recuperaria sua independência no futuro. No entanto, Hitler recusou-se a fazer qualquer promessa nesse sentido. Sem essa declaração, Leopoldo III passou a ser visto como um instrumento dos alemães na Bélgica — algo que mais tarde lhe custaria o trono.