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Leopoldo II da Bélgica

Rei dos belgas de 1865 a 1909 e soberano do Estado Livre do Congo de 1885 a 1908

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Leopoldo II (Bruxelas, 9 de abril de 1835 — Laeken, 17 de dezembro de 1909) foi o segundo Rei dos Belgas de 1865 até sua morte em 1909. Foi também soberano do Estado Livre do Congo (1884-1908).

O regime da colônia africana de Leopoldo II, o Estado Livre do Congo (atual República Democrática do Congo), tornou-se um dos escândalos internacionais mais infames da virada do século XIX para o século XX. O relatório de 1904, escrito pelo cônsul britânico Roger Casement, levou à prisão e à punição de oficiais brancos que tinham sido responsáveis por matanças a sangue frio durante uma expedição de coleta de borracha em 1903 (incluindo um indivíduo belga que matou a tiros pelo menos 122 congoleses).

Leopoldo II lucrou com a exploração desenfreada do Congo, resultando no assassinato de 10 milhões de congoleses, sendo a principal figura política responsável por um dos maiores genocídios já realizados na história da Humanidade.

Nasceu em 9 de abril de 1835, no Palácio Real de Bruxelas, segundo filho do rei Leopoldo I da Bélgica e de Luísa Maria de Orleães, filha do rei Luís Filipe I da França. Após a morte prematura de seu irmão mais velho, Luís Filipe, ocorrida no ano anterior, tornou-se herdeiro aparente do trono. Em 1846, recebeu o título de Duque de Brabante, tradicionalmente atribuído ao herdeiro da coroa belga.

Órfão de mãe aos quinze anos, Leopoldo foi significativamente impactado pela morte da rainha Luísa, que acompanhava diretamente a criação dos filhos. Após seu falecimento, diversos governadores passaram a se suceder na supervisão das crianças reais. Leopoldo tinha dois irmãos mais novos, Filipe, o futuro Conde de Flandres, e Carlota, a futura Imperatriz do México como consorte de Maximiliano I.

Em agosto de 1853, casou-se com a arquiduquesa Maria Henriqueta da Áustria, filha de José, Palatino da Hungria. O casal teve três filhas, Luísa, Estefânia e Clementina, e um filho, Leopoldo, que faleceu aos nove anos de idade. À época, a Constituição da Bélgica não permitia a sucessão feminina ao trono. Com a morte do filho, perdeu seu herdeiro direto, circunstância que contribuiu para o distanciamento no casamento. Todavia, Leopoldo logrou realizar casamentos considerados prestigiosos para suas filhas Luísa e Estefânia, casadas com o rico príncipe Filipe de Saxe-Coburgo-Gota-Koháry e Rodolfo, Príncipe Herdeiro da Áustria, respectivamente. Leopoldo teve ainda dois filhos com sua amante Caroline Lacroix, posteriormente titulada baronesa. Descrito como um libertino, Leopoldo supostamente foi cliente da casa de sadomasoquismo Rose Cottage, de Mary Jeffries, em Hampstead, um subúrbio de Londres.

Leopoldo ingressou na vida política em 1855, ao atingir a maioridade, quando se tornou senador. Sua atuação parlamentar caracterizou-se pelo interesse em temas relacionados ao desenvolvimento econômico do país e à expansão do comércio. Nesse contexto, passou a defender a aquisição de colônias como estratégia para fortalecer a posição internacional belga. Entre 1854 e 1865, realizou diversas viagens ao exterior, visitando regiões como a Índia, a China, o Egito e países do Mediterrâneo e África. Ele serviu no exército até sua ascensão em 1865, época em que já havia alcançado o posto de tenente-general.

Durante o reinado de Leopoldo na Bélgica, ocorreram importantes mudanças políticas e sociais. Os liberais governaram de 1857 a 1880, criando escolas públicas gratuitas e obrigatórias, enquanto o Partido Católico recuperou o apoio às escolas religiosas. Surgiu o Partido Trabalhista Belga em 1885, e o sufrágio universal masculino foi adotado em 1893, após várias reformas sociais, como direitos aos trabalhadores e leis contra o trabalho infantil. Leopoldo teve dificuldades com o conflito linguístico, mas seu sobrinho Balduíno conquistou popularidade entre os flamengos. A Constituição foi revisada em 1893, introduzindo o voto universal masculino e o sistema de representação proporcional. Leopoldo também focou na defesa militar, fortalecendo as fortificações e preservando a neutralidade do país durante conflitos. Seu imperialismo tinha um forte componente econômico, buscando lucro através da exploração, mas também motivado por um desejo de prosperidade para a Bélgica.

Leopoldo deu ênfase à defesa militar como base da neutralidade da Bélgica, mas não foi capaz de obter a lei de conscrição. Apesar de ter sido impopular, Leopoldo é lembrado pelo povo belga como "rei construtor" (em neerlandês: Koning-Bouwer; em francês: le Roi-Bâtisseur), porque mandou construir um grande número de edifícios e projetos públicos, principalmente em Bruxelas, Oostende e Antuérpia. Seus gostos arquitetônicos geralmente se inclinavam para o classicismo francês, embora na época Bruxelas fosse a capital da Art Nouveau. O rei tinha o hábito de visitar pessoalmente os canteiros de obras para observar o progresso concreto de seus projetos.

Entre as construções estão as estufas reais nos terrenos do Castelo de Laeken, a Torre Japonesa, o Pavilhão Chinês, o Museu do Congo em Tervuren (hoje chamado Museu Real da África Central), o Parc du Cinquantenaire, em Bruxelas, e a estação de trem de Antuérpia. Ele também construiu a Villa Les Cèdres, em Saint-Jean-Cap-Ferrat, na Riviera Francesa. A villa é atualmente um jardim botânico. De acordo com os historiadores Wm. Roger Louis e Adam Hochschild, essas construções foram todas realizadas com o dinheiro proveniente do Estado Livre do Congo, embora isso seja contestado.

No dia 15 de novembro de 1902, ao final da cerimônia em memória da falecida consorte de Leopoldo II, o anarquista italiano Gennaro Rubino tentou assassinar o rei, que estava em uma carruagem. Três tiros foram disparados, mas todos erraram o alvo de Rubino, o qual foi preso imediatamente.

Exploração colonial e atrocidades

Leopoldo acumulou uma enorme fortuna pessoal com a exploração de recursos naturais do Estado Livre do Congo, a princípio, graças à exportação do marfim, mas esta não rendia tanto quanto se esperava. Quando a demanda global por borracha explodiu, sua atenção se voltou para a coleta trabalho-intensiva da seiva das plantas da borracha. Abandonando as promessas da Conferência de Berlim, realizada entre 1884 e 1885, o governo do Estado Livre do Congo restringiu o acesso de estrangeiros e passou a explorar o trabalho forçado dos nativos, com amplo recurso a espancamentos, matanças e mutilações, quando as cotas de produção não eram alcançadas. O missionário John Hobbis Harris, que trabalhava em Baringa (na atual província de Chuapa), ficou tão chocado com o que se deparou por lá que escreveu ao principal agente de Leopoldo no Congo, dizendo:

Acabo de voltar da vila de Insongo Mboyo, no interior. A abjeta miséria e o completo abandono são realmente indescritíveis. Fiquei tão comovido, Excelência, com as histórias das pessoas que tomei a liberdade de prometer a elas que, no futuro, Sua Excelência só as mataria por crimes que elas tivessem cometido.

As estimativas do número de mortos variam de 1 milhão a 15 milhões de pessoas. Tal discrepância se deve à falta de registros precisos. Segundo historiadores Louis e Stengers, a população estimada na época do início da administração de Leopoldo é uma "grosseira adivinhação", e as tentativas de E. D. Morel e outros, no sentido de quantificar a diminuição do contingente populacional, são invencionices.

O escritor Adam Hochschild dedica um capítulo do seu livro, King Leopold's Ghost, ao problema da estimativa do número de vítimas. O autor cita várias linhas de investigação recentes, adotadas pelo antropólogo Jan Vansina e outros, que examinam fontes locais (registros policiais e religiosos, tradição oral, genealogias, diários pessoais e outras), as quais são, em geral, coerentes com a avaliação feita em 1919 pela comissão do governo belga: aproximadamente metade da população pereceu durante o período do Estado Livre do Congo. Considerando-se que, no primeiro censo oficial, feito em 1924, pelas autoridades belgas, a população era de aproximadamente 10 milhões de pessoas, os mortos teriam sido 10 milhões, numa estimativa grosseira.

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