Lev Ivanovich Yashin (em russo: Лев Иванович Яшин, Moscou, 22 de outubro de 1929 – Moscou, 20 de março de 1990) foi um jogador de futebol soviético que atuou como goleiro, considerado frequentemente como o melhor goleiro da história. Ídolo máximo do Dínamo Moscou, único clube em que atuou durante a sua carreira, bem como o maior campeão nacional enquanto Yashin jogava, também é o único goleiro a ter conquistado a Bola de Ouro da revista France Football — em 1963. Junto do lutador Aleksandr Karelin e a Vsevolod Bobrov, atleta de futebol e hóquei sobre gelo, Yashin também foi eleito o maior nome do esporte russo como um todo.
Apelidado de Aranha Negra devido ao uniforme todo preto que usava, Yashin era conhecido pelo seu atletismo, posicionamento, estatura, bravura, presença imponente no gol e reflexos acrobáticos, embora sóbrios e sem exibicionismos. Também ganhou status por revolucionar a posição de goleiro, impondo sua autoridade a toda a defesa, sendo hábil também para lançamentos longos e certeiros com as mãos. Com uma presença vocal no gol, ele ditava ordens para seus zagueiros, saía da linha da pequena área para interceptar cruzamentos e também para fechar o ângulo de chute dos adversários, em época na qual os goleiros passavam os 90 minutos de pé na linha do gol esperando para serem chamados à ação. Também em tempos menos defensivistas do futebol, na qual a posição de goleiro era bastante mais nervosa, notabilizou-se pela postura incomumente calma para os padrões de então.
Suas performances pela Seleção Soviética causaram uma impressão indelével, em tempos em que seus feitos pelo Dínamo acabaram menos difundidos internacionalmente, diante do tempo mais fechado de seu país na Guerra Fria; clubes soviéticos só se permitiram participar dos torneios da UEFA a partir de 1965, quando o goleiro já estava mais veterano e já havia conquistado a maior parte de seus troféus: o último de seus cinco títulos no campeonato soviético se deu em 1963 — e, desde então, o clube só venceu o torneio uma única outra vez, em 1976, mesmo considerando-se as temporadas do campeonato russo, após a dissolução da União Soviética. Em amistosos naquele período, o Dínamo, com Yashin, venceu por 5–0 o Arsenal em 1954; por 4–1 o Milan, dentro do San Siro, em 1955; saiu-se invicto em três jogos contra o Vasco da Gama, com 3–1 em Moscou, 1–1 no Rio de Janeiro (ambos em 1957) e 2–0 na neutra Caracas (em 1969); e venceu por 3–1 o Nacional de Montevidéu no estádio Centenário, em 1957, além do 5–0 sobre o Barcelona dentro do Camp Nou pelo Troféu Joan Gamper de 1970.
Entre os seus principais títulos, destacam-se a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1956 e a conquista da Copa das Nações Europeias de 1960, ano em que foi sondado pessoalmente por Santiago Bernabéu para defender o Real Madrid. O goleiro esteve com a URSS em quatro Copas do Mundo FIFA, destacando-se sobretudo nas de 1958, onde foi reconhecido como "o sucessor de Ricardo Zamora" pelo jornal espanhol Mundo Deportivo; e de 1966, na qual disputou com 37 anos e terminou avaliado como melhor goleiro do torneio pelo Jornal do Brasil.
Quando se aposentou, num jogo-despedida realizado em 1971, a FIFA resolveu homenageá-lo com uma medalha de ouro especial, por sua extraordinária contribuição para o esporte. Foi um entre tantos reconhecimentos que recebeu durante e após a vida, sendo popularmente considerado o melhor goleiro do século XX. Segundo a FIFA, Yashin defendeu mais de 150 pênaltis no futebol profissional, e não sofreu gols em 270 jogos. Contudo, em 2024 foi publicada pesquisa russa que, considerando amistosos, apurou números mais modestos: Yashin teria defendido dezessete pênaltis entre os sessenta assinalados contra si; em contrapartida, crescia em duelos de seleções, onde sofreu somente cinco gols em doze penalidades que encarou - chegando a haver cinco ocasiões seguidas, entre 1962 e 1964, em que adversários da URSS ou da Seleção da Europa desperdiçaram contra ele.
A importância do futebol para o Aranha Negra ficou evidenciada em uma referência que fez a uma das maiores conquistas da história da humanidade: o fato do astronauta soviético Yuri Gagarin ter sido o primeiro humano a viajar pelo espaço, em 12 de abril de 1961. Poucos meses após a ocasião, Yashin declarou: "A alegria de ver Gagarin no espaço só é superada pela alegria de uma boa defesa de um pênalti". Ambos terminaram recordados juntos em crônica russa de 1999, segundo a qual "não importa o que digam hoje, tivemos uma grande época. Porque ninguém, nem mesmo o mais fanático que odeia o nosso país, ousará dizer que símbolos da Rússia do século XX, como Yuri Gagarin ou Lev Yashin, eram 'escravos' ou 'uma invenção da propaganda soviética'. Foram Gagarin e Yashin que personificaram os dois lados mais atraentes do personagem russo".
Seu característico uniforme todo preto teria sido adotado a partir de 1955, conforme depoimento dado dez anos depois pelo próprio Yashin ao Jornal dos Sports, quando passava férias no Rio de Janeiro. Na ocasião, explicou suas razões:
Na mesma entrevista, ressalvou que desde que implantara tal visual, teria aberto uma única exceção, por ter sido a ocasião especial de Inglaterra contra Resto do Mundo, em 1963, na qual o preto no calção e nas meias foi acompanhado por uma camisa amarela.
A postura fria de Yashin no gol, incomum para os padrões da época, teria se mantido intacta durante toda sua carreira graças a um ritual pouco comum em que ele se submetia antes de jogos importantes. Nessas ocasiões, o goleiro fumava um cigarro "para acalmar os nervos" e tomava uma vodca "para tonificar os músculos". Algo que ele desmentira em 1971:
Seu preparo físico era considerado absolutamente superior aos jogadores da época. Yozhef Sabo, colega dele na Copa do Mundo FIFA de 1966, ao explicar como a URSS logrou terminar entre os quatro primeiros do Mundial, relatou: "todos os caras contribuíram para o nosso sucesso geral. A coragem de Shesternyov, a assertividade de Chislenko e a coragem de Ponomarov evocam respeito. Em suma, gostaria de dizer uma palavra gentil sobre todos. Parece-me que Yashin e Voronin merecem elogios especiais. Você precisa ver Yashin não só nas partidas, mas também nos treinos. Que atleta! Como ele nos entusiasmou, como trabalhou no gol até o último momento de exaustão, acertando dezenas dos chutes mais difíceis seguidos! Os jovens goleiros precisam aprender com Yashin, antes de tudo, trabalho heroico e árduo. Esta é a única maneira de expressar o verdadeiro amor pelo futebol". O próprio Voronin, similarmente, corroborou: "nunca me canso de admirar Yashin. Sua capacidade de dar tudo de si exatamente quando necessário é simplesmente fenomenal".
Yashin chegou também a minimizar sua atribuída habilidade em pegar pênaltis, declarando em 1967 para o Mundo Deportivo que "sem querer, com isto, ofender meus colegas goleiros, direi que um pênalti defendido é mais uma falha do atacante do que uma proeza do goleiro. Com efeito, se quem executa o tiro é um atacante como Eusébio, e não somente ele, não há goleiro que possa parar uma bola lançada de tão curta distância; é que não lhe dá tempo".
Yashin tivera um início de carreira sob seguidos questionamentos até 1953, quando passou a dedicar-se a treinamentos físicos especiais que lhe permitiram rápida ascensão em 1954. Seguiu defendendo disciplina atlética, conforme afirmação dada em 1983 à revista El Gráfico: "um goleiro é sinônimo de bons reflexos e isso implica intensas sessões de treinamento. Já o assumido aspecto mental foi abordado em notas dele ao Mundo Deportivo, admitindo à nota de 1967 do Mundo Deportivo que a postura fria era apenas aparente:
Em 1969, reiterou ao mesmo Mundo Deportivo: "só os maus esportistas não estão nervosos antes das partidas importantes. O que faz falta é que o inimigo não se dê conta". Relata-se como certas defesas suas, em pênaltis ou não, se facilitavam precisamente pela pressão psicológica que impunha no adversário, intencionalmente ou não.
Em 1981, a revista brasileira Placar promoveu, com jornalistas dos principais veículos da imprensa esportiva do mundo, uma eleição do time ideal da história. Yashin recebeu 33 dos 70 votos possíveis e foi escolhido para goleiro, recebendo então perfil em que se destacava que "não bastava atirar-se contra a bola. Antes era preciso dominar o adversário. Inibi-lo a ponto de fazê-lo perder gols aparentemente fáceis", com o russo declarando que intervenções famosas como a executada em 1959 contra Lajos Tichy "não aconteciam por acaso. Eram resultado de muito treino, físico e psíquico". Na mesma matéria, ensinava que "um goleiro nunca deve se desculpar pelos gols que toma. Nem tentar pôr a culpa em seus companheiros. Deve apenas jogar com lucidez, de maneira que seus companheiros de defesa tenham fé nele. Conseguindo isso, será levado a sério e cada erro seu será objetivo de escrupulosa análise. E aí nem a mais severa crítica alterará sua segurança".