Manoel Carlos Gonçalves de Almeida (São Paulo, 14 de março de 1933 – Rio de Janeiro, 10 de janeiro de 2026), também conhecido como Maneco, foi um autor de telenovelas, escritor, diretor e produtor brasileiro, tendo também atuado como ator no início da carreira. É pai da atriz Júlia Almeida e da roteirista Maria Carolina, sua colaboradora em diversas obras. A partir da década de 1990, tornou-se amplamente conhecido por suas produções que retratam a burguesia carioca, com destaque para o bairro do Leblon, no Rio de Janeiro.
1950–77: Excelsior, Record e jornalismo
Um dos pioneiros da televisão brasileira, iniciou sua carreira na década de 1950, fez parte no Grande Teatro Tupi, na extinta TV Tupi, dirigido por Sérgio Britto, Fernando Torres, e Flávio Rangel, no ar por mais de dez anos. Com elenco no qual se destacam Fernanda Montenegro, Ítalo Rossi, Natália Thimberg, Fernando Torres, Zilka Salaberry, Aldo de Maio e Cláudio Cavalcanti, o teleteatro apresentou um repertório de mais de 450 peças dos maiores autores nacionais e estrangeiros. Em 1952, escreveu sua primeira telenovela, Helena, para a TV Paulista, uma adaptação do romance homônimo de Machado de Assis. No mesmo ano de 1952, escreveu a telenovela Nick Chuck para a TV Paulista. Em 1953, escreveu Iaiá Garcia também para a TV Paulista, uma outra adaptação de um romance homônimo também de Machado de Assis. Dirigiu e produziu programas como a Família Trapo, exibida na TV Record no final dos anos 1960, Esta Noite se Improvisa, O Fino da Bossa (com Elis Regina) e a primeira fase do Fantástico, entre 1973 e 1976.
1978–94: Globo, Band e Manchete
Em 1978, escreveu sua primeira telenovela na TV Globo: Maria, Maria, seguida por A Sucessora, ambas adaptações literárias. Em 1980, atuou como colaborador de Gilberto Braga em Água Viva, um clássico das telenovelas que abordava justamente os conflitos da burguesia e da classe média cariocas, temática que permearia toda a sua obra desde então, como pode se verificar logo em Baila Comigo (1981), sua primeira novela das 20h e com a sua primeira Helena. Em 1982, largou Sol de Verão pela metade, abalado com o falecimento de Jardel Filho, protagonista da novela e seu amigo pessoal. A novela foi concluída por Gianfrancesco Guarnieri e Lauro César Muniz e saiu do ar antes do previsto. Maneco deixou a Globo em seguida, escrevendo duas tramas na Rede Manchete: a minissérie Viver a Vida, em 1984, o seriado Joana, no mesmo ano até 1985 (a segunda temporada foi exibida pelo SBT, após rescisão de contrato da produtora com a Manchete) e a novela Novo Amor, em 1986. Em 1989, escreveu a minissérie O Cometa, na Rede Bandeirantes. Manoel Carlos voltou para a Globo em 1991, quando escreveu o sucesso Felicidade, que foi uma livre adaptação da obra de Aníbal Machado e teve a primeira mulher — Denise Saraceni — à frente de uma direção geral. A trama foi uma das mais picotadas no Vale a Pena Ver de Novo: 55 capítulos, contra 203 da exibição original. Nele também o esquema da exibição do último capítulo fugiu ao habitual: exibição do penúltimo capítulo na quinta-feira, reprise do penúltimo na sexta, último no sábado e reprise do último na segunda um pouco antes da novela substituta: Despedida de Solteiro (1992), de Walther Negrão.
1995–2014: Repercussão e temas sociais
A novela História de Amor (1995), que foi considerada uma comemoração dos trinta anos de carreira da atriz Regina Duarte, que pela primeira vez interpretava um papel no horário das 18 horas e foi também sua primeira de três Helenas, além do início da parceria com o diretor Ricardo Waddington, com o ator José Mayer e a atriz Lília Cabral chegou a ter a sua sinopse alterada devido à determinação do Ministério da Justiça, que considerava o tema da paixão de mãe e filha pelo mesmo homem inadequado para o horário. O tema seria discutido às 20 horas, com a marcante Laços de Família em 2000 que também abordava a leucemia como merchandising social.
Por Amor, um dos seus maiores sucessos, exibida entre 1997 e 1998, retomava o tema do sacrifício que uma mãe é capaz de fazer pelos filhos, como na novela anterior do autor, História de Amor. A novela também abordava temas como bissexualidade, traição, ciúme doentio, troca de bebês, alcoolismo, aborto, jogo do bicho e outros. Manoel Carlos ainda escreveria Mulheres Apaixonadas, que foi o grande sucesso de 2003 e teve temas fortes como preconceito social contra os idosos e lésbicas, celibato, alcoolismo, violência doméstica, traição, câncer, romance entre mulheres mais velhas e jovens rapazes, o tormento provocado pelo ciúme e outros. Além de ter sido um grande sucesso de audiência, atingindo médias diárias em torno dos 50 pontos, a trama influenciou na posterior aprovação de algumas leis, como o Estatuto do Idoso e o Estatuto do Desarmamento.
Apesar de ser mais reconhecido por suas novelas, Manoel Carlos obteve grande sucesso nas duas minisséries que escreveu para a TV Globo. Presença de Anita, exibida em 2001, foi baseada no romance homônimo de Mário Donato. Presença de Anita também foi a responsável pela maior audiência registrada por uma minissérie na década de 2000, com média de 30 pontos no IBOPE. A minissérie bateu outros grandes sucessos como A Muralha e A Casa das Sete Mulheres, que registraram 29 e 28 pontos, respectivamente. Em 2006, Maneco escreveu o sucesso Páginas da Vida, em que retratava novamente Regina Duarte como sua Helena, uma médica forte e determinada que resolve cuidar de uma criança portadora de síndrome de Down que fora rejeitada pela avó, a perversa Marta, interpretada brilhantemente por Lília Cabral. Em 2009, o autor escreveria Maysa: Quando Fala o Coração, uma espécie de biografia da cantora Maysa, já falecida. A produção também teve grande sucesso popular e reconhecimento merecido da crítica. Em 2009 escreveu Viver a Vida, novamente com o bairro do Leblon como cenário principal e Taís Araújo como a Helena da vez. A novela teve audiência razoável, com 36 pontos de média geral, porém o público se identificou e ficou emocionado com o drama de Luciana, vivida por Alinne Moraes, uma modelo que sofre um acidente e tornar-se tetraplégica, para agonia da mãe, a neurótica Teresa vivida por Lília Cabral, que por esse trabalho foi indicada ao Emmy Internacional de Melhor Atriz em 2010.
Manoel Carlos desenvolveu Vale Abraão, projeto que desejava levar ao ar na TV Globo em formato de telenovela e, posteriormente de minissérie. Inicialmente cogitou-se apresentar na faixa das 23h, após O Astro, sendo que Maneco pretendia levar a produção ao ar, antes de sua última telenovela das 21h, porém a emissora engavetou a produção. Numa entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", o autor disse que pretendia levar à minissérie ao ar, após o término de Em Família, o que não veio a acontecer. Em 2014, escreveu a novela Em Família que traz a última Helena do autor interpretada por Júlia Lemmertz e Bruna Marquezine em duas fases diferentes da trama. O folhetim foi um grande fracasso de audiência e recebeu forte rejeição do público e crítica, mesmo tentando repetir as mesmas fórmulas das novelas dos anos 1990 e 2000.
Manoel Carlos é pai da escritora e roteirista Maria Carolina e da atriz Júlia Almeida, que atuou em todos os seus trabalhos, de Felicidade a Mulheres Apaixonadas. O diretor sofreu com a morte de três filhos: o dramaturgo e ator Ricardo de Almeida (falecido em 1988, em decorrência de complicações de HIV), com quem coescreveu O Cometa; o também diretor Manoel Carlos Júnior, que em 2012 não resistiu a um ataque cardíaco, e o estudante de teatro Pedro Almeida, de 22 anos, falecido de mal súbito em 2014, em Nova Iorque.
Manoel Carlos morreu no dia 10 de janeiro de 2026, aos 92 anos, no Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada pela produtora Boa Palavra, de sua filha, Júlia Almeida, responsável pelo comunicado à imprensa, e seu velório foi restrito a familiares e amigos próximos. Ele estava internado no Hospital Copa Star, onde fazia tratamento contra a Doença de Parkinson, que havia afetado o desenvolvimento motor e cognitivo do autor durante o ano de 2025.