Abu Abedalá Maomé ibne Iúçufe ibne Nácer (em árabe: أَبُو عَبَدَ الله مَحْمَد بن يوسف بن نَصَرَ; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Muhammad ibn Iūsuf ibn Nasr; Arjona, 1194 — Granada, 22 de janeiro de 1273), também conhecido como ibne Alamar (em árabe: بن الأحمر; romaniz.: ibn al-Aḥmar; lit. "o Vermelho") e por seu epíteto Algalibe Bilá (em árabe: الغالب بالله; romaniz.: al-Gālib bi-ʾllāh; lit. "Vitorioso pela Graça de Deus"), foi o primeiro governante do Reino Nacérida de Granada, o último estado muçulmano independente da Península Ibérica e o fundador da dinastia nacérida. Viveu durante um tempo em que os reinos cristãos — especialmente Portugal, Castela e Aragão — estavam se expandindo às custas do território islâmico da Península Ibérica, chamado Alandalus. Maomé ibne Iúçufe assumiu o poder em sua cidade natal, Arjona, em 1232, quando rebelou-se contra o líder de facto de Alandalus, ibne Hude. Durante essa rebelião, conseguiu assumir o controle de Córdova e Sevilha brevemente, antes de perder as duas cidades para ibne Hude. Forçado a reconhecer a soberania de ibne Hude, Maomé conseguiu reter Arjona e Xaém. Em 1236, ele traiu o suserano, ajudando Fernando III de Castela a tomar Córdova. Nos anos seguintes, Maomé conseguiu controlar as cidades do sul, incluindo Granada (1237), Almeria (1238) e Málaga (1239). Em 1244, perdeu Arjona para Castela. Dois anos depois, em 1246, concordou em render Xaém e aceitar o domínio de Fernando em troca da paz.
Nos 18 anos que se seguiram, Maomé consolidou seu domínio, mantendo relações relativamente pacíficas com a Coroa de Castela; em 1248, ele até ajudou o reino cristão a tirar Sevilha dos muçulmanos. Mas em 1264, voltou-se contra Castela e ajudou a rebelião malsucedida dos súditos muçulmanos recém-conquistados. Em 1266, seus aliados em Málaga, os Banu Asquilula, rebelaram-se contra o emirado. Quando esses ex-aliados procuraram assistência de Afonso X de Castela, Maomé conseguiu convencer o líder das tropas castelhanas, Nuño González de Lara, a se voltar contra Afonso. Em 1272, Nuño González estava lutando ativamente com Castela. O conflito do emirado com Castela e os Banu Asquilula ainda não havia sido resolvido em 1273, quando morreu após cair de seu cavalo. Foi sucedido por seu filho, Maomé II.
O Emirado de Granada, que Maomé fundou, e a casa real nacérida, duraram mais dois séculos, até serem anexados por Castela em 1492. Seu outro legado foi a construção de Alhambra, sua residência em Granada. Seus sucessores continuariam a construir o complexo do palácio e da fortaleza e residiriam ali, e durou até os dias atuais como o legado arquitetônico do emirado.
Maomé ibne Iúçufe nasceu em 1195 na cidade de Arjona, então uma pequena cidade muçulmana de fronteira ao sul do Guadalquivir, hoje na província espanhola de Xaém. Era de origem humilde e, nas palavras da Primeira Crônica Geral de Castela, inicialmente "não tinha outra ocupação senão seguir os bois e o arado". Seu clã era conhecido como os Banu Nácer ou Banu Alamar. Segundo o historiador granadino e vizir ibne Alcátibe, o clã era descendente de um companheiro de destaque do profeta islâmico Maomé conhecido como Sade ibne Ubadá da tribo Banu Cazeraje; os descendentes de Sade migraram para a Espanha e se estabeleceram em Arjona como agricultores. Durante sua juventude, ficou conhecido por sua atividade de liderança nas fronteiras e por sua imagem ascética, que manteve mesmo depois de se tornar governante.
Maomé também era conhecido como ibne Alamar, ou por sua cúnia Abu Abedalá.
Maomé I foi casado com uma prima paterna em primeiro grau (um casamento entre primos, bint āl 'amm), Aixa binte Maomé, provavelmente em 1230 ou antes, quando ainda estava em Arjona. O primeiro filho deles foi Faraje (1230 ou 1231 - 1256), cuja morte prematura foi registrada por causa da considerável tristeza de Maomé. Seus outros filhos incluem Iúçufe (nascimento desconhecido), que também morreu durante a vida de Maomé I, Maomé (o futuro Maomé II, 1235 ou 1236 - 1236 - 1302) e duas filhas, Mumina e Xemece. Também teve um irmão, Ismail (m. 1257), a quem nomeou como governador de Málaga e que era o ancestral da linha masculina de uma linha de futuros sultões de Granada a partir de Ismail I.
O início do século XIII foi um período de grandes perdas para os muçulmanos da Península Ibérica. O Califado Almóada, que havia dominado Alandalus ou a Ibéria muçulmana, foi dividido por uma luta dinástica depois que o califa Abu Iacube Iúçufe II (r. 1213–1223/24) morreu em 1224 sem herdeiro. Alandalus dividiu-se em vários pequenos reinos ou taifas. Um dos líderes taifa foi Maomé ibne Iúçufe ibne Hude (m. 1238), que revoltou-se contra os almóadas e proclamou nominalmente a autoridade do Califado Abássida, mas na prática governou independentemente de Múrcia. Sua força crescente fez dele o líder de facto de Alandalus, e brevemente o senhor de Maomé. Apesar de sua popularidade e sucesso em Alandalus, ibne Hude havia sofrido derrotas contra os cristãos, inclusive em Alanje em 1230 e em Jerez em 1231, seguida pela perda de Badajoz e Estremadura.
No norte da península, havia vários reinos cristãos: Castela, Leão (em uma união com Castela desde 1231), Portugal, Navarra e uma união de reinos conhecida como Coroa de Aragão. Estavam se expandindo para o sul — tomando territórios anteriormente governados por muçulmanos — em um processo chamado de Reconquista. Todos os reinos tinham minorias muçulmanas consideráveis. Em meados do século XIII, Castela era o maior reino da península. Seu rei, Fernando III (r. 1217–1252), aproveitou a adição de Leão ao seu reino e a desunião dos muçulmanos para lançar uma expansão para o sul nos territórios muçulmanos, conquistando eventualmente Córdova (1236) e Sevilha (1248).
As derrotas sofridas por ibne Hude corroeram sua credibilidade; rebeliões eclodiram em partes de seu domínio, incluindo sua pequena cidade natal, Arjona. Em 16 de julho de 1232, uma mesquita em Arjona declarou a independência da cidade. Esta proclamação ocorreu no dia 26 de Ramadã de 629 no calendário islâmico, após a oração final de sexta-feira do mês sagrado. A assembléia elegeu Maomé, que era conhecido por sua piedade e reputação marcial em conflitos anteriores contra os cristãos, como líder da cidade. Também teve o apoio de seu clã, o Banu Nácer e um clã aliado de Arjona, conhecido como Banu Asquilula.
No mesmo ano, Maomé tomou Xaém — uma cidade importante perto de Arjona. Com a ajuda dos rivais de ibne Hude, os Banu Almaul, Maomé assumiu brevemente o controle da antiga sede do califado de Córdova. Também tomou Sevilha em 1234 com a ajuda da família Banu Albaji, mas só conseguiu segurá-la por um mês. Córdova e Sevilha, insatisfeitas com o estilo de governo do sultão, retornaram ao domínio de ibne Hude logo após a aquisição de Maomé. Após essas falhas, o sultão declarou mais uma vez sua lealdade a ibne Hude e manteve seu domínio sobre uma pequena região contendo Arjona, Xaém, Porcuna, Guadix e Baeza.
Maomé voltou-se contra ibne Hude novamente em 1236. Aliou-se a Fernando e ajudou os castelhanos a tomar Córdova e acabar com séculos de domínio muçulmano na cidade. Nos anos seguintes, Maomé assumiu o controle de importantes cidades do sul. Em maio de 1237 (Ramadã de AH 634), a convite dos notáveis da cidade, ele tomou Granada, que então tornou sua capital. Também tomou Almeria em 1238 e Málaga em 1239. Não tomou essas cidades do sul à força, mas através de manobras políticas e com o consentimento dos habitantes.
Maomé entrou em Granada em maio de 1238 (635 no Ramadã). Segundo ibne Alcátibe, entrou na cidade vestido como um sufi, com um gorro de lã, roupas grossas e sandálias. Estabeleceu-se na alcáçova (cidadela) construída pelos zíridas no século XI. Então inspecionou uma área conhecida como Alhamra, onde havia uma pequena fortaleza, e estabeleceu as bases para sua futura residência e fortaleza. Logo começaram os trabalhos sobre estruturas defensivas, uma barragem de irrigação e um dique. A construção duraria os reinados de seus sucessores, e o complexo seria conhecido como Alhambra e se tornaria a residência de todos os governantes nacéridas até a rendição de Granada em 1492. Ele pressionou seus coletores de impostos a cobrar os fundos necessários para a construção, até a execução do coletor de impostos de Almeria, Abu Maomé ibne Arus, para fazer cumprir suas demandas. Também usou o dinheiro enviado pelo governante haféssida de Túnis — destinado à defesa contra os cristãos — para estender a mesquita da cidade.