As marchas de Selma a Montgomery de 1965 foram três manifestações, sendo a primeira conhecida como “Domingo Sangrento” (“Bloody Sunday”, em inglês), do movimento pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos que conduziram à aprovação da Lei dos Direitos ao Voto de 1965, uma conquista histórica do movimento negro da década de 1960.
Todas as três marchas foram tentativas de marchar por 85 quilômetros pela rodovia de Selma à capital estadual do Alabama, Montgomery. A primeira marcha, iniciada e dirigida pelo Diretor de Ação Direta da Liderança Cristã Sulista (com a sigla em inglês SCLC, de Southern Christian Leadership Conference), James Bevel, foi planejada como uma forma de aplacar o trauma e a raiva crescente pelo assassinato do ativista pela Lei dos Direitos ao Voto Jimmie Lee Jackson durante uma marcha noturna em Marion, Alabama.
O Movimento pelo Direito ao Voto de Selma foi empreendido por afro-americanos locais que formaram a Liga de Eleitores do Condado de Dallas (DCVL, Dallas County Voters League, em inglês). Em 1963, a DCVL e organizadores de marchas do Comitê Não-Violento de Coordenação Estudantil (SNCC, de Student Nonviolent Coordinating Committee) começaram uma ação de incentivo aos negros ao recenseamento eleitoral. Quando uma resistência branca ao registro eleitoral de negros demonstrou ser intratável, o DCVL pediu ajuda a Martin Luther King, Jr. e à SCLC, os quais afinal trouxeram diversos líderes de manifestações pelos direitos civis para apoiar o Movimento pelo Direito ao Voto de Selma em janeiro de 1965, incluindo o próprio Luther King.
A primeira marcha ocorreu em 7 de março de 1965, organizada localmente por James Bevel, Amelia Boynton e outros. Num evento imortalizado na história como Domingo Sangrento, 600 manifestantes, protestavam contra a morte de Jackson e a permanência da exclusão do processo eleitoral, quando foram atacados pela polícia local e estatal com cassetetes e gás lacrimogênio. A segunda marcha ocorreu em 9 de março; polícias e manifestantes ficaram frente a frente, mas quando as tropas moveram-se para o lado para deixá-los passar, o Dr. Martin Luther King guiou os manifestantes de volta à igreja.
A terceira marcha começou em 16 de março. Cercados por 2 000 soldados do Exército Americano, 1,900 membros da Guarda Nacional do Alabama sob comando federal e muitos agentes do FBI e marechais federais, os manifestantes avançaram 16 quilômetros ao longo de todo o dia pela U.S. Route 80, conhecida no Alabama como a “Rodovia Jefferson Davis”. Os manifestantes alcançaram Montgomery em 24 de março e o Capitólio do Estado do Alabama em 25 de março.
A rota foi imortalizada como a Trilha de Selma a Montgomery do Direito ao Voto e é uma Trilha Histórica Nacional dos Estados Unidos.
Selma é a sede e a maior cidade do condado de Dallas, Alabama. Em 1961, a população do condado de Dallas contava com 57% de negros, mas dos 15 000 negros com idade suficiente para votar, apenas 130 (menos de 1%) tinham o registro necessário para o voto. Nessa época, mais de 80% dos negros de Dallas viviam abaixo da linha da pobreza, a maioria deles trabalhando como meeiros, trabalhadores rurais, empregadas domésticas, porteiros e diaristas.
Liderados pela família Boynton (Amelia, Sam e seu filho Bruce), o revendo L.L. Anderson, J.L. Chestnut e Marie Foster, a Liga de Eleitores do Condado de Dallas (DCVL) tentou registrar cidadãos negros no recenseamento eleitoral durante o fim da década de 1950 e o início da de 1960. Seus esforços foram impedidos por oficiais estatais e locais, pelo Conselho de Cidadãos Brancos (WCC) e pela Ku Klux Klan (KKK). Os métodos de impedimento incluíam um teste de alfabetização, pressão econômica e violência.
No começo de 1963, Bernard e Colia Lafayette, organizadores do Comitê Não-Violento de Coordenação Estudantil (SNCC), chegaram em Selma para começar uma ação de recenseamento eleitoral ao lado da DCVL. No meio de junho, Bernard foi espancado e quase morto por um membro da KKK determinado a impedir os negros de votar. Quando os Lafayettes retornaram à escola no outono, Patricia Hall e Worth Long, outros organizadores da SNCC, prosseguiram com a ação, apesar das prisões, espancamentos e ameaças de morte. Quando 32 professores negros tentaram recensear-se para votar, foram imediatamente demitidos pelo corpo docente das escolas, cujos membros eram todos brancos. Após o bombardeio da igreja de Birmingham em 15 de setembro, estudantes negros de Selma começaram a fazer protestos sentados em lanchonetes locais, nas quais eram atacados e presos. Mais de 300 foram presos em duas semanas de protestos, incluindo o presidente da SNCC, John Lewis.
O dia 7 de outubro de 1963 foi um dos dois dias do mês de outubro desse ano em que os cidadãos puderam ir aos tribunais para registrarem-se para votar. A SNCC e a DCVL mobilizaram mais de 300 negros de Dallas para fazer uma fila para tentar registrar-se para voto, em um dia que foi chamado um “Dia da Liberdade”. Entre seus simpatizantes estavam o escritor James Baldwin e seu irmão David, e o comediante Dick Gregory e sua esposa Lillian (que foi presa em um piquete com ativistas da SNCC e outros simpatizantes locais). Os membros da CNCC que tentaram levar água para os negros que estavam na fila foram presos, assim como os que estavam segurando cartazes dizendo “Registro para Voto“. Após aguardarem por todo um dia sob o sol quente, apenas uma porção das centenas de negros que estavam na fila pôde preencher o requerimento de eleitor, sendo que a sua maioria foi afinal negada.
Em 2 de julho de 1964, o presidente dos Estados Unidos Lyndon B. Johnson assinou a Lei dos Direitos Civis de 1964, declarando a segregação ilegal, apesar das leis de Jim Crow continuarem em vigor, já que o projeto ainda precisava passar pelo Congresso dos Estados Unidos. Quando os negros de Selma tentaram integrar-se à comunidade branca em locais como restaurantes e cinemas foram espancados e presos.
Em 6 de julho, John Lewis levou 50 negros para o tribunal de recenseamento em um dia de registro, o xerife Jim Clark os prendeu ao invés de deixá-los registrarem-se. Em 9 de julho, o juiz James Hare emitiu uma liminar proibindo qualquer agrupamento de três ou mais pessoas sob a liderança de organizações pelos direitos civis. Essa liminar proibiu por algum tempo até mesmo falar com mais de duas pessoas sobre direitos civis ou recenseamento eleitora em Selma, sufocando as atividades públicas pelos direitos civis em Selma pelos próximos seis fatídicos meses.
Movimento pelo Direito ao Voto de Selma
Com a realização de atividades pelos direitos civis proibida pela liminar do juiz Hare, a DCVL recorreu a Luther King e à Conferência da Liderança Cristã Sulista (SCLC). Três dos principais organizares da SCLC – James Bevel, o Diretor de Ação Direta da Liderança Cristã Sulista e Diretor de Educação Não-Violenta, Diane Nash e James Orange – estavam trabalhando do fim de 1963 no Projeto dos Direitos ao Voto do Alabama, de Bevel, um projeto ao qual Luther King e o conselho executivo da SCLC não participaram.
Quando a SCLC afinal aceitou o pedido do grupo ativista local, o Courageous 8 (Ulysses S. Blackmon, Sr., Amelia Boynton, Ernest Doyle, Marie Foster, James Gildersleeve, J.D. Hunter, Sr., Dr. F.D. Reese, Sr., e Henry Shannon, Sr.), para trazer a organização para Selma, Bevel, Nash, Orange e outros na SCLC começaram a organizar-se em Selma em dezembro de 1964. Também organizaram-se nos municípios vizinhos com o pessoal da SNCC que estava por lá desde o começo de 1963.
O Movimento pelo Direito ao Voto de Selma começou oficialmente em 2 de janeiro de 1965, quando Luther King dirigiu uma reunião em massa na Brown Chapel, desafiando a liminar contra reuniões.
Pelas próximas semanas que se seguiram, ativistas da SCLC e da SNCC expandiram as unidades de registro eleitoral em Selma e nos restantes condados do Black Belt. Ao lado do movimento em Selma, marchas e outros protestos em apoio ao direito ao voto ocorreram nos condados de Perry, Wilcox, Marengo, Greene e Hale.