Maria Lacerda de Moura (Manhuaçu, 16 de maio de 1887 — Rio de Janeiro, 20 de março de 1945) foi uma professora, escritora, anarquista e feminista brasileira. Filha de pais espíritas e anticlericais, cresceu na cidade de Barbacena, no interior de Minas Gerais, onde formou-se professora pela Escola Normal Municipal de Barbacena e participou dos esforços oficiais para enfrentar a questão social através de campanhas nacionais de alfabetização e reformas educacionais.
Começou a publicar crônicas em um jornal local em 1912 e em 1918 publicou seu primeiro livro, Em torno da educação, constituído de crônicas e conferências que realizou em Barbacena sobre o tema. A partir daí, estabeleceu contatos com jornalistas e escritores de Belo Horizonte, São Paulo, Santos e Rio de Janeiro. Nesse período, conheceu José Oiticica e teve contato com as ideias pedagógicas renovadoras da médica feminista Maria Montessori e dos pedagogos anarquistas Paul Robin, Sebastien Faure e Francisco Ferrer y Guardia. Mudou-se para São Paulo em 1921, aos 34 anos, e lá teve seus contatos com o movimento associativo feminino e o movimento operário da época. Chegou a colaborar com a feminista Bertha Lutz e presidiu a Federação Internacional Feminina. Em 1922, rompeu com os movimentos associativos feministas, fundamentalmente preocupados com o sufrágio feminino, pois entendia que a luta pelo direito de voto respondia a uma parcela muito limitada das necessidades femininas. Colaborou assiduamente com a imprensa operária e progressista de São Paulo e em 1923 lançou a revista Renascença.
Entre 1928 e 1937, viveu em uma comunidade agrícola em Guararema, no interior de São Paulo, formada por anarquistas individualistas e desertores espanhóis, franceses e italianos da Primeira Guerra Mundial. Foi o período de sua vida em que mais produziu e atuou, colaborando semanalmente no jornal O Combate de São Paulo, onde estabeleceu a polêmica de maior repercussão com a imprensa fascista local; pronunciou as conferências no Uruguai e na Argentina, a convite de instituições educacionais antifascistas; teve o encontro com Luiz Carlos Prestes, exilado em Buenos Aires; fez conferências pacifistas e desencadeou a campanha antifascista em São Paulo, Santos, Campinas e Sorocaba. A comunidade de Guararema foi desarticulada com repressão política durante o Estado Novo. Em 1938, Maria Lacerda mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Rádio Mayrink Veiga lendo horóscopos. Faleceu em 20 de março de 1945.
Considerada uma das pioneiras do feminismo no Brasil, tratou em sua obra de temas como a condição feminina, amor livre, direito ao prazer sexual, divórcio, maternidade consciente, prostituição, combate ao clericalismo, ao fascismo e ao militarismo, e estabeleceu uma articulação entre o problema da emancipação feminina e a luta pela emancipação do indivíduo no capitalismo industrial. Suas posições, bastante avançadas para a época, compartilham muitos aspectos similares àquelas das feministas da década de 1960.
Maria Lacerda de Moura nasceu em 1887, na fazenda Monte Alverne, em Manhuaçu, na então província de Minas Gerais. Em 1891, aos 4 anos de idade, mudou-se com seus pais e irmãos para a cidade de Barbacena, onde o seu pai conquistou um cargo como oficial no Cartório de Órfãos, enquanto a mãe dedicava-se à produção de doces. Começou seus estudos no externato administrado por freiras no Asilo de Órfãos da cidade e, aos 12 anos, matriculou-se na Escola Normal Municipal de Barbacena.
Sua família professava o espiritismo e adotava posições anticlericais, motivo pelo qual "recebeu o tratamento de minoria perigosa que os bispos mineiros reservavam para os protestantes e os espiritualistas de várias tendências". Segundo Miriam Lichfitz Moreira Leite, apesar do discurso cientificista e positivista adotado pelo Estado brasileiro durante a Primeira República, a Igreja católica em Minas Gerais manteve "o seu domínio sobre o comportamento da família" e suas "articulações com a educação e a política", conservando "um lugar predominante" na educação pública até 1906.
Educadora em Barbacena e primeiros escritos
Formou-se professora pela Escola Normal Municipal de Barbacena em 1904 e em 1908, foi diretora do Pedagogium. Como educadora, Maria Lacerda engajou-se nos esforços oficiais para enfrentar o analfabetismo através das campanhas nacionais de alfabetização e reformas educacionais, participando da Campanha Barbacense de Alfabetização e de trabalhos beneficentes na cidade.
Em 1912, enviou as suas primeiras crônicas para um jornal local. Logo após as suas primeiras publicações — de acordo com uma autobiografia publicada no periódico O Combate em agosto de 1929 —, Maria Lacerda iniciou uma "luta de ideias" com um familiar, que a censurava pedindo "mais moderação" e lhe afirmava que "certas verdades não se dizem". Em 1918, publicou o seu primeiro livro, Em torno da educação, constituído de crônicas e conferências que realizou em Barbacena sobre o tema, e a partir do qual estabeleceu contatos com intelectuais de Belo Horizonte, São Paulo, Santos e Rio de Janeiro. No mesmo período, iniciou correspondências com José Oiticica e Galeão Coutinho e conheceu as ideias pedagógicas da médica Maria Montessori e dos educadores anarquistas Paul Robin, Sebastien Faure e Francisco Ferrer y Guardia.
Ainda em Barbacena, Maria Lacerda esteve ligada a associações femininas e feministas. De acordo com a sua biógrafa Miriam Lichfitz Moreira Leite, Maria Lacerda "manifestara sua preocupação com a condição feminina e com as maneiras de transformá-la" desde 1919 e, nesse sentido, procurou "resolver o problema dos menores abandonados em Barbacena, despertando o interesse das alunas para a população desprovida de recursos" e divulgou "as iniciativas associativas de alguns movimentos feministas de que tinha notícia pelos periódicos das cidades maiores", incluindo os movimentos sufragistas do Rio de Janeiro e do exterior. Ao "entusiasmo pela defesa dos direitos da mulher à cidadania", Maria Lacerda uniu "o interesse pelo estudo da condição feminina". Seus escritos em Barbacena mantiveram a atenção voltada aos acontecimentos das grandes cidades, de onde vinham os periódicos, e enquanto "escrevia ou falava a suas alunas, estava frequentemente revelando as informações que as capitais lhe forneciam".
Em 1919, publicou Renovação e realizou as suas primeiras conferências fora de sua cidade. Em 1920, discursou na sede da Federação Operária Mineira (FOM) em Juiz de Fora e, em 1921, realizou uma conferência na cidade de Santos. Nas palavras de sua biógrafa, essas conferências "estabelecerão as pontes para a saída de Maria Lacerda de Barbacena".
Contatos com o feminismo e o movimento operário em São Paulo
Maria Lacerda mudou-se para a cidade de São Paulo em 1921, aos 34 anos. A mudança, de acordo com sua biógrafa, "a inseriu nos movimentos associativos femininos, que se multiplicaram e se diversificaram na década de 20". Ainda em Barbacena, ela se sentira atraída pelos movimentos feministas que buscavam uma saída para a situação "parasitária" e "dependente" da mulher brasileira. Segundo a historiadora Margareth Rago, "logo que chega a São Paulo", Maria Lacerda foi "convidada a unir-se à bióloga feminista Bertha Lutz" para a fundação da Federação Internacional Feminina, cujo programa consistia em "canalizar todas as energias femininas dispersas no sentido da cultura filosófica, sociológica, psicológica, ética, estética — para o advento da sociedade melhor". Como uma das responsáveis pelos estatutos da associação, fez constar uma cláusula tida como pioneira: "Trabalhar pela criação de uma cadeira de História da Mulher, sua evolução e sua missão social, em todas as escolas femininas". Ao mesmo tempo, também entrou em contato com o movimento trabalhista daquele período, colaborando com a imprensa operária e escrevendo para jornais como A Plebe, A Lanterna e O Trabalhador Gráfico. De acordo com Leite, Maria Lacerda encontrou na capital paulista um ambiente propício "para o desenvolvimento de suas ideias e ação educativa, fora dos quadros oficiais do Estado". Se manteve exercendo a docência particular e o jornalismo, contribuindo para a imprensa operária e para jornais independentes e progressistas, como O Combate, de São Paulo, A Tribuna, de Santos, e O Corymbo, de Rio Grande. Também publicou, em 1923, a revista cultural Renascença, que contou com a colaboração do artista Ângelo Guido, responsável pela seção "Livros Novos" e por sua programação visual. Ele também foi o responsável pela capa da primeira edição de Religião do amor e da beleza, livro publicado por Maria Lacerda em 1926. De acordo Leite, o contato com Guido também reforçou as "convicções teosóficas" de Maria Lacerda.