Jorge Mario Pedro Vargas Llosa, 1º Marquês de Vargas Llosa (Arequipa, 28 de março de 1936 – Lima, 13 de abril de 2025) foi um escritor, político, jornalista, ensaísta e professor universitário peruano. Vargas Llosa foi um dos romancistas e ensaístas mais importantes da América Latina e um dos principais escritores de sua geração. Alguns críticos consideram que ele teve um impacto internacional e uma audiência mundial maior do que qualquer outro escritor do boom latino-americano.
Alcançou fama internacional na década de 1960 com romances como La ciudad y los perros, A Casa Verde, e a monumental Conversa na Catedral (Conversación en la catedral). Ele escrevia prolificamente em uma grande variedade de gêneros literários, incluindo crítica literária e jornalismo. Seus romances incluem comédias, mistérios de assassinato, romances históricos e thrillers políticos. Vários de seus livros, como La tía Julia y el escribidor, foram adaptados como longas-metragens.
Em 2010, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, com a Academia explicando que a honra lhe era concedida "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual".
Morou na Europa por muitos anos e, em 2011, ganhou o título nobiliárquico de Marquês na Espanha, onde residiu desde meados dos anos 2000.
Nasceu numa família de classe média, filho único de Ernesto Vargas Maldonado e Dora Llosa Ureta, os quais se separaram após cinco meses de casamento. Por essa razão, o menino só conheceu o pai aos dez anos de idade. Sua primeira infância foi em Cochabamba, na Bolívia. No governo de José Luis Bustamante y Rivero, seu avô obteve um importante cargo político em Piura, no norte do Peru, e sua mãe decide retornar ao país para viver naquela cidade.
Em 1946 mudou-se para Lima, onde finalmente conheceu o pai. Os pais reconciliam-se e, durante sua adolescência, a família viveu ali.
Ao completar 14 anos, ingressou como aluno interno, por vontade paterna, no Colégio Militar Leôncio Prado, em La Perla, e ali permaneceu dois anos. Essa experiência foi o tema do seu primeiro livro — La ciudad y los perros ("A Cidade e os Cachorros", em tradução livre), publicado no Brasil como "Batismo de Fogo" e, posteriormente, como A Cidade e os Cachorros.
Em 1953 foi admitido na tradicional Universidad Nacional Mayor de San Marcos em Lima, uma das mais antigas da América. Ali estudou Letras e Direito contra a vontade de seu pai.
Aos 19 anos, casou-se com Julia Urquidi, irmã da mulher de seu tio materno, e passou a ter vários empregos para sobreviver: atuou como redator, mas também fichando livros e até mesmo revisando nomes em túmulos nos cemitérios. Em 1958 recebeu uma bolsa de estudos "Javier Prado" a foi para a Espanha, onde obteve um doutorado em Filosofia e Letras na Universidade Complutense de Madri. Após isso foi para a França, onde viveu durante alguns anos. Em 1964 divorciou-se de Júlia e em 1965 casou-se com uma prima, Patricia Llosa, com quem teve três filhos: Álvaro, Gonzalo e Morgana.
O casal eventualmente se separou em algum momento dos anos 2010, com a revista Hola da Espanha revelando em 2016 que o escritor mantinha um relacionamento com Isabel Preysler, primeira esposa do cantor Julio Iglesias, e de quem se separou no final de 2022.
Em abril de 2022, o escritor passou diversos dias hospitalizado para tratar de COVID-19. Depois de receber alta, ele eventualmente falou sobre o assunto, dizendo que se sentiu muito mal e que não conseguia respirar.
Em 2021 Llosa teve seu nome envolvido num esquema fraudulento chamado Pandora Papers. Segundo as investigações, feitas por um grupo de jornalistas, o escritor havia criado uma empresa, a Melek Investments Inc. nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal, para colocar os royalties de suas obras. À época também, nem seu endereço oficial ficava claro e em cartas apresentadas em 2015 ele havia declarado como seu endereço o bairro de Barranco, em Lima, no Peru, apesar do portal RPP do Peru destacar que "sobre as declarações fiscais do romancista no Peru e na Espanha, a Agência Literária Carmen Balcells destacou que, embora o Prêmio Nobel tenha sido concedido à empresa, ele não era residente em nenhum dos dois países".
"Não é proibido criar uma empresa 'offshore', mas você deve declarar isso às autoridades fiscais do país onde reside e, se aplicável, pagar os impostos correspondentes a esses ativos", explicou a RPP.
Llosa morreu em 13 de abril de 2025, aos 89 anos, em Lima.
Sua obra critica a hierarquia de castas sociais e raciais, vigente ainda hoje, segundo o escritor, no Peru e na América Latina. Seu principal tema é a luta pela liberdade individual na realidade opressiva do Peru. A princípio, assim como vários outros intelectuais de sua geração, Vargas Llosa sofreu a influência do existencialismo de Jean Paul Sartre.
Muitos dos seus escritos são autobiográficos, como "A cidade e os cachorros" (1963), "A Casa Verde" (1966) e "Tia Júlia e o Escrevinhador" (1977). Por A cidade e os cachorros recebeu o Prêmio Biblioteca Breve da Editora Seix Barral e o Prêmio da Crítica de 1963. Sua obra seguinte, A Casa Verde, mostra a influência de William Faulkner. O romance narra a vida das personagens em um bordel, cujo nome dá título ao livro. Seu terceiro romance, Conversa na Catedral, publicado em quatro volumes e que o próprio Vargas Llosa caracterizou como obra completa, narra fases da sociedade peruana sob a ditadura de Odria em 1950.
Há um encontro, num botequim chamado "La Catedral", entre dois personagens: o filho de um ministro e um motorista particular. O romance caracteriza-se por uma sofisticada técnica narrativa, alternando a conversa dos dois e cenas do passado. Em 1981 publica A Guerra do Fim do Mundo, sobre a Guerra de Canudos, que dedica ao escritor brasileiro Euclides da Cunha, autor de Os Sertões.
No ano de 2006, Vargas Llosa publicou o livro Cartas a um jovem romancista, uma espécie de guia para jovens escritores. O livro trata das técnicas do romance. Em uma série de capítulos escritos como se fossem cartas a um jovem ávido por conhecimento da profissão, o autor discorre sobre o que é imprescindível para a criação de um livro. Começa afirmando que todas as histórias se alimentam da vida de seu criador, como um catóblepa - criatura fantástica, descrita Jorge Luis Borges e que, inadvertidamente, pode comer partes do próprio corpo. O autor aborda também o estilo, que deve ser coerente com a história contada e fazer o leitor viver a obra sem perceber que está lendo. Sobre a relação entre narrador e espaço, afirma que o narrador é o personagem mais importante de todos os romances, pois dele dependem os demais, e, no entanto, ele não deve ser confundido com o autor. O narrador pode ser um personagem externo à trama ou ambíguo - de modo que não sabemos se está dentro ou fora do mundo narrado. Além disso, várias obras possuem mais de um narrador. Chama a atenção para a relação entre o espaço ocupado pelo narrador e o espaço narrado: na narração de um personagem, esses dois espaços coincidem, mas, quando o narrador é externo à trama, isso não acontece. Já o narrador ambíguo pode assumir qualquer um desses papéis. Quanto ao tempo, Vargas Llosa afirma que o tempo do romance não é igual ao da realidade, mas uma outra forma, que o autor pode usar para se desvencilhar dela. Há uma distinção simples: o tempo cronológico e o tempo psicológico. O primeiro existe independentemente da subjetividade humana; o segundo se transforma em função de nossas emoções. Outro capítulo trata dos níveis de realidade, da relação entre o plano de realidade em que se situa o narrador e aquele em que se desenrola a história narrada. Nesse caso, também, os planos podem coincidir ou não. Os planos mais claramente autônomos são o do "mundo real" e o do "mundo fantástico". Além disso há guinadas, alterações em qualquer ponto de vista (espacial, temporal ou de nível de realidade). E, por fim, Llosa fala sobre "a caixa chinesa" ou a "boneca russa" (matriosca), como um recurso narrativo em que, tal como esses objetos, uma história principal gera outra ou outras histórias derivadas. Ele conclui encorajando o leitor, afirmando que esforço, disciplina e leituras sistemáticas podem levá-lo a desenvolver seu próprio estilo.