Matias Aires Ramos da Silva de Eça (Capitania de São Paulo, 27 de março de 1705 — Lisboa, 10 de dezembro de 1763) foi um filósofo e escritor luso-brasileiro, reconhecido por alguns como o maior filósofo de língua portuguesa do século XVIII. Sua principal obra, Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, discute a vaidade enquanto motor tanto das virtudes quanto dos vícios humanos. O conjunto de sua obra literária é situada no período barroco, sob expressiva influência dos jansenitas franceses.
Matias Aires foi condecorado Cavaleiro da Ordem de Cristo, além de ter sido irmão de Teresa Margarida da Silva e Orta, considerada a primeira mulher romancista em língua portuguesa. Também escreveu ensaios em francês, latim e foi também tradutor de clássicos latinos.
Filho de José Ramos da Silva e de sua mulher Catarina de Orta, nasceu em São Paulo, na então capitania de São Paulo.
Foi cavaleiro da Ordem de Cristo e provedor da Casa da Moeda de Lisboa, obtendo e sucedendo neste emprego a seu pai, José Ramos da Silva, por sua morte. Nesta realidade é que surgiu o pai de Matias Aires, José Ramos da Silva, provedor das expedições que encontraram ouro nas Gerais. O escritor Alceu Amoroso Lima, na introdução ao livro de Matias Aires, faz o seguinte comentário: “A figura de José Ramos da Silva, e a sua ascensão de criado de servir a magnata máximo da fortuna paulista do século XVIII, tornou-se um dos tipos mais representativos do Brasil Colonial.” Bafejado pela sorte, este novo rico passou a ser um grande mecenas para os Jesuítas de São Paulo, construindo igrejas, mandando vir de Portugal mestres de obras, santeiros, talhadores e douradores, enfim, dando todo o apoio aos conventos e colégios da Ordem. Foi neste ambiente que nasceu.
Matias Aires foi educado no colégio jesuíta de São Paulo, onde aprendeu a ler e escrever em português e latim, também estudando os clássicos e os rudimentos de religião e filosofia. Quando tinha onze anos, seu pai resolveu transferir-se para Lisboa. Como homem prático que era e através dos bons contatos com os jesuítas que desfrutavam de grande prestígio junto a D. João V, foi José Ramos designado para exercer o cargo de Provedor das Casas de Fundição, uma das mais altas e lucrativas funções do Reino.
Preocupado com a educação dos filhos, ao chegar a Portugal, matriculou as duas meninas no Convento de Odivelas e Matias no tradicional e conceituado Colégio de Santo Antão. Terminado os estudos secundários, ingressa na Faculdade de Direito de Coimbra, em 1722, recebendo no ano seguinte o grau de Licenciado em Artes, graduando-se mais tarde na cidade de Baiona, na Galiza. Foi Bacharel em Filosofia pela Faculdade de Ciências e Mestre em Artes pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em Paris obtém o duplo diploma em Direito Civil e em Direito Canónico.
Em 1728, decide ir para Paris, matriculando-se na Sorbonne onde, além de continuar o curso de Direito, estuda ciências naturais, matemática e hebraico, seguindo as grandes linhas de preocupação da época - o empirismo de Locke, o racionalismo de Rousseau e as ciências matemáticas e físicas com nascente prestígio sob a influência de Newton. Foram seus contemporâneos neste período francês pensadores como Voltaire e Montesquieu.
Volta a Portugal em 1733 e continua suas leituras no isolamento de suas Quintas. Tornou-se notável literato e naturalista e grande amigo do malogrado António José da Silva, o Judeu, que procurou ardentemente salvar da fogueira, o que não conseguiu.
Em 1743, com a morte do pai, o substitui nas funções e passa a residir em Lisboa, frequentando, na ocasião, os altos salões da Corte. Adquire para morar o Palácio do Conde de Alvor, uma monumental residência, conhecida hoje, em Lisboa, como o Solar das Janelas Verdes, onde funciona o grandioso Museu de Arte Antiga. Com a morte de D. João V, sobe ao trono português D. José I. É para este monarca que Matias Aires dedica o seu célebre livro, ''Reflexões sobre a Vaidade dos Homens'', que tem como subtítulo ''Discursos Morais sobre os efeitos da Vaidade, oferecidos ao – Rei Nosso Senhor D. José I". A 1ª edição data de 1752'.
Regressado a Portugal, leva uma vida suntuosa, em que os bens do pai vão sendo progressivamente dilapidados. E, por este motivo, inicia uma pendência contra a irmã, Teresa Margarida, disputando o seu direito à herança.
Herdeiro do vínculo, após a morte do pai, Matias Aires sucede-lhe também no cargo de Provedor da Casa da Moeda. Tenta então uma nova pendência contra a irmã, mais uma vez sem sucesso. Posteriormente, com as reformas introduzidas na administração portuguesa pelo Marquês de Pombal, Matias Aires é destituído do cargo e, em 1761, recolhe-se à sua Quinta na Corujeira e falece no ano de 1763.
Segundo Carvalho dos Reis (2019), o pai de Matias, homem ambicioso, foi para Portugal com o objetivo de conquistar a nobilitação: o último degrau da hierarquia da vaidade social. Com este objetivo, no ano de 1716, acomodou-se com tanta pompa quanta a ambição, procurando reconduzir a si os holofotes de Lisboa. Todavia, não encontrou a mesma sorte que no Brasil (Aires: 2005, p.218, apud CARVALHO REIS), pelo contrário, foi recebido com inimizade. O mesmo se terá passado com o filho Matias, igualmente habituado à deferência com que era tratado no Brasil, «agora, era apenas o filho de um dos tais mineiros que o povo da corte invejava, mas não estimava». Estas experiências terão ensinado, posteriormente, ao filho que a vaidade própria tende a ofender a alheia dando início ao seu interesse e reflexões sobre a Vaidade.
Esta reflexões foram publicadas em 1752: Reflexões sobre a Vaidade dos Homens, onde o autor tece suas ponderações a partir do trecho bíblico extraído do Eclesiastes: Vanitas vanitatum et omnia vanitas, ou seja, "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade". Num dos trechos mais conhecidos da obra, ele afirma:"Muitas vezes obramos bem por vaidade, e também por vaidade obramos mal: o objeto da vaidade é que uma ação se faça atender, e admirar, seja pelo motivo, ou razão que for. Não só o que é digno de louvor, é grande; porque também há cousas grandes pela sua execração; é o que basta para a vaidade as seguir, e aprovar. [...] A vaidade apetece o estrondoso, sem entrar na discussão da qualidade do estrondo: faz-nos obrar mal, se deste mal pode resultar um nome, um reparo, uma memória. Esta vida é um teatro, todos queremos representar nele o melhor papel, ou ao menos um papel de circunstância, ou em bem, ou em mal. A vaidade tem certas regras, uma delas é que a singularidade não só se adquire pelo bem, mas também pelo mal, não só pelo caminho da virtude, mas também pelo da culpa; não só pela verdade, mas também pelo engano: quantos homens têm havido a quem parece que de algum modo enobreceu a sua iniquidade" (id., pp. 79-81).Citação: AIRES, Matias. "Reflexões sobre a Vaidade dos homens, ou Discursos Moraes sobre os effeitos da Vaidade, Offerecidas a El rey nosso senhor D. Josepho I." Lisboa, 1761.Este período de grande produtividade corresponde também a uma fase de maior recolhimento, sem dúvida induzido pelas crescentes dificuldades econômicas mais do que por um genuíno desgosto com a vida em sociedade em Portugal, e ao progressivo adensamento de uma misantropia e de um ceticismo que se revelam inclusive na relação com a obra. Sua linguagem é clara e inspirada em Vauvenargens. Aliás, Reflexões sobre a vaidade dos homens, do primeiro filósofo moralista brasileiro, apresenta inúmeros exemplos, em linguagem clara e fluente, em que os períodos compostos por subordinação raramente assumem estrutura labiríntica, o que parece decorrência da feição sentenciosa da sua frase: muitas orações ou períodos simples de Matias Aires são verdadeiras máximas. Além disso, conforme Prado Coelho, Matias não tinha ao seu dispor palavras como pensador, moralista, pessimista - que hoje servem para o caracterizar. Esse é um problema de língua, do século XVIII.
Seguem as estas, Philosofia rationalis (Filosofia Racional); Via ad campum sophie seu physicae subterranae (O caminho para o campo da sabedoria ou da física subterrânea); Lettres bohémiennes (Cartas boêmias); Discours panégyriques sur la vie de Joseph Ramos da Silva (Discursos Panegíricos sobre José Ramos da Silva); Discurso congratulatório pela felicíssima convalescença e real vida d’el rei D. José; Carta sobre a fortuna; e Problema de Arquitectura Civil, único texto, dentro deste último grupo, que subsistiu até aos dias atuais. Deixou trabalhos sobre as ações de Alexandre e César e traduções de Quinto Curcio e Lucano. Aos poucos opta por abandonar a língua materna na redação dos seus escritos, anunciada no prólogo das Reflexões e de facto levada a efeito nas edições subsequentes, utilizando-se de outra grafia, e experienciando principalmente uma profunda descrença relativamente ao mérito intrínseco de suas composições (caracterizadas como meros esboços inconclusos) e o profundo desencanto quanto à sua capacidade para influenciar e agir sobre a realidade. Em 1761, as desinteligências como o Marquês de Pombal conduzem ao seu afastamento do cargo de Provedor, o que se reflete sobre a sua já premente situação econômica. E neste contexto que escreve a um amigo a muito pessimista a Carta sobre a Fortuna, desde 1778 habitualmente incluída nas edições de as Reflexões. Eis um trecho da Carta sobre a Fortuna incluída nas Reflexões a partir de 1778: