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Matthias Sindelar

Futebolista austríaco

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Matthias Sindelar (Koslau, 10 de fevereiro de 1903 – Viena, 23 de janeiro de 1939), nascido como Matěj Šindelář, foi um futebolista austríaco de origem tcheca. Nascido na Morávia, região então parte do Império Austro-Húngaro e que hoje pertence à Tchéquia, sua família mudou-se para Viena quando ele possuía dois anos de idade. Tornar-se-ia o maior esportista austríaco do século XX, eleito assim de modo oficial em dezembro de 1998, sessenta anos após sua morte.

Seu desempenho como um centroavante goleador que também voltava para buscar jogo e puxar os marcadores para fora da área, tabelando com os meias, lhe deixou como um dos mais revolucionários jogadores europeus no início do século passado. Embora os registros em filme de suas atuações sejam ínfimos, a elegância e qualidade de seu futebol foram asseguradas pelos jornalistas que o viram em ação. O jogador, porém, ficaria ainda mais marcado como um herói de resistência ao nazismo, inspirando diversos mitos reforçados por sua misteriosa morte, embora estudos modernos tenham desfeito algumas versões romanceadas dessa história.

Como jogador, Sindelar conquistaria sobretudo duas Copas Mitropa (torneio precursor da Liga dos Campeões da UEFA), em 1933 e em 1936, tendo também conquistado um campeonato austríaco, o de 1926. Sua elasticidade e leveza (1,75 m e 63 kg) renderam-lhe o apelido de Der Papierene, o "Homem de Papel". Ele também é o segundo maior artilheiro do Austria Viena, com 226 gols, e por anos foi o maior - foi superado por um fã assumido, Ernst Stojaspal, que acumulou 258. Mesmo passados setenta anos da morte de Sindelar, ele foi escalado para o "time dos sonhos" do Austria na ocasião do centenário do clube.

Sindelar também seria conhecido como "Mozart do futebol" (os amigos o chamavam pelo diminutivo Motzl)ou "Pelé do Danúbio"Pela seleção austríaca, Sindelar foi o principal expoente de uma talentosa geração apelidada de Wunderteam. Marcou o primeiro gol da Áustria na Copa do Mundo FIFA, o que ocorreu na edição de 1934, onde a equipe terminou em quarto lugar, posição que seria superada apenas uma vez, na edição de 1954, com um time que contava, dentre outros, com Stojaspal. Também obteve o único título da seleção, na Copa Internacional, torneio precursor da Eurocopa; bem como protagonizou as primeiras vitórias austríacas sobre a Inglaterra e a Escócia, nação que jamais havia sido derrotada por uma seleção de fora das Ilhas Britânicas - ambas consideravam-se as melhores do mundo e desprezavam a Copa do Mundo e a Copa Internacional.

Matěj Šindelář nasceu em Kozlov. Trata-se de povoado situado no distrito de Jihlava, capital regional da subregião de Vysočina, nos limites da região da Morávia, no centro da atual Tchéquia. Na época, essas áreas pertenciam à Áustria-Hungria – em cuja língua alemã Kozlov chamava-se Koslau, Jihlava chamava-se Iglau e Vysočina chamava-se Hochland. Quando nasceu, Kozlov tinha cerca de setecentos habitantes. O sobrenome tcheco Šindelář derivava da pronúncia do alemão Schindler, sobrenome que originalmente designava quem trabalhasse com telhas. Seu pai, Johann Šindelář, tinha como pai František Šindelář (por sua vez filho de outro Johann Šindelář com Kateřina Ježek) e tinha como mãe Franziska Ryšavý (filha de Johann Ryšavý com Kateřina Krátká). Já sua mãe, Marie Švenger, tinha como pai Johann Švenger (por sua vez filho de outro Johann Švenger com Marie Pollak) e tinha como mãe Rosalia Krčal (filha de Johann Krčal com Barbara Muheil).

O avô František Šindelář era um ferreiro que buscava oportunidade em um lugar em que a atividade industrial era escassa, enquanto o avô Johann Švenger era proprietário de casa campestre provavelmente voltada à agricultura. Ambos já moravam no povoado, onde os pais do jogador, ambos empregados de uma fábrica, se conheceram, casando-se na igreja central de Kozlov em 30 de janeiro de 1899 quando o pai tinha 23 anos e a mãe, 21, precisando ela de autorização especial por ser ainda considerada menor de idade, com ambos os pais já mortos. Constou na certidão de casamento que tanto os pais como os avós paternos e os maternos do casal eram católicos, seguindo a religião oficializada na Morávia desde uma Constituição de 1628. O jogador foi o filho primogênito, registrado pelo mesmo padre que casara seus pais. No ano seguinte, ganhou a primeira irmã, Rosa. Por não demonstrar fanatismo religioso e por ter jogado quinze anos em um clube ligado aos judeus (o Austria Viena), inspirou lendas de que teria origem judaica ou de que se convertera ao judaísmo, mas todos os seus documentos o registraram como católico.

Em 1905, os pais, achando-se em vida instável em Kozlov, decidiram mudar-se para a capital Viena, que vinha atraindo cada vez mais imigrantes, mais que dobrando de população em vinte anos entre 1880 (cerca de 700 mil) e 1900 (cerca de 1 milhão a mais), o que representou grande elevação de aluguéis no centro da cidade. Os Šindelář radicaram-se no distrito de Favoriten, na periferia vienense, com instalações baratas que se tornou refúgio de diversas famílias de trabalhadores pouco qualificados. Era também o distrito com maior porcentagem de tchecos em Viena, com cerca de um quarto dos habitantes no censo oficial da época – com a possibilidade dos números serem inferiores aos reais, em função do temor de alguns em perder oportunidades por não declararem o alemão como primeira língua. A discriminação e agressões por extremistas germânicos, liderados pelo político Karl Lueger, futura referência de Adolf Hitler, eram frequentes. Já em Viena, nasceu em 1906 outra irmã, Leopoldine. O pai Johann arrumara trabalho em uma empresa de ladrilhos, indústria de ambientes que mais exploravam a mão-de-obra imigrante: recebiam os piores salários mas trabalhavam quinze horas diárias em todos os dias da semana, incluindo menores de idade, precisando cavar no chão banheiros artesanais. Originaram o termo pejorativo Ziegelböhm ("ladrilhos da Boêmia").

Começou a vida escolar em 1909. Nela, aperfeiçoou o idioma alemão, ainda que a família continuasse a falar em tcheco em casa – com o alemão usado de modo rudimentar (Johann, em cartas na Primeira Guerra Mundial, grafava "Vin" ao invés do que seria correto em alemão, "Wien", quando destinava correspondências à Viena). Em 1913, ganhou outra irmã, Theresa, morta já em 1922. Foi na vida escolar que foi introduzido ao futebol, em oficinas extracurriculares para o esporte ainda negativamente visto como "da classe operária". Dos dois distritos mais humildes de Viena, Favoriten e Floridsdorf, é que sairiam mais de um terço dos futebolistas profissionais das ligas principais da Áustria, de acordo com censo de 1937. Seu último dia na escola foi na data em que completou 14 anos, em 10 de fevereiro de 1917. Cumpriu sete dos oito ciclos letivos obrigatórios em meio à Primeira Guerra Mundial, que fez com que diversos colégios tivessem de se dispor aos militares. Nesse contexto, a evasão escolar era comum.

Naquele mesmo ano de 1917, em 21 de agosto, o pai Johann morreu em luta pelo Exército Austro-Húngaro nas proximidades de Gorizia, na décima primeira Batalha do Isonzo, sendo enterrado naqueles mesmos arredores, em cemitério que hoje fica na Eslovênia. Para sustentar sozinha as quatro crianças, a mãe Maria improvisou uma lavanderia em casa; o filho já vinha alternando atividades nos juvenis do Hertha Viena com curso técnico cursando para serralheria e, já famoso, sempre mostrou-se grato à mãe. Curiosamente, outro soldado austro-húngaro da mesma batalha que vitimou Johann foi Hugo Meisl, futuro técnico de Matthias na seleção austríaca.

O próprio Sindelar, em 1932, declararia que começou no Hertha, situado no distrito de Favoriten, por permissão que as escolas locais davam aos garotos para que praticassem futebol duas vezes por semana no campo dessa equipe – que, admitida em 1911 na primeira divisão austríaca, focava precisamente em aperfeiçoar seu estádio de 15 mil lugares. Após uma exibição em que marcou cinco gols, chamando a atenção também pelos dribles, Sindelar foi então convidado por um dirigente de sobrenome Febus a integrar-se oficialmente aos juvenis do clube, ingressando oficialmente em 26 de maio de 1918. Na época, apesar da estrutura do Hertha ser elogiada, sua situação esportiva estava crítica, normalmente sempre nos últimos lugares do campeonato austríaco; como os rebaixamentos estavam suspensos em função da Primeira Guerra Mundial, o time permanecia na elite. A chegada de Sindelar veio justamente em um momento de reação dos dirigentes do Hertha aos resultados ruins, vendo uma solução em reforçar as categorias de base com a prospecção de jovens talentos que sabiam existir pelo distrito.

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