Neste Dia

Miguel Nicolelis

Médico-Neurocientista Brasileiro

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Miguel Ângelo Laporta Nicolelis (São Paulo, 27 de março de 1961) é um médico, neurocientista e pesquisador brasileiro amplamente reconhecido como um dos pioneiros mundiais no campo das interface cérebro-computador e das neuropróteses voltadas à reabilitação de pacientes com paralisia, considerado um dos vinte maiores cientistas em sua área pela revista Scientific American. Formado em Medicina pela Universidade de São Paulo e doutor em Ciências (Fisiologia Geral) pela mesma instituição, destacou-se desde o início da carreira por desenvolver métodos inovadores para registrar simultaneamente a atividade de grandes populações de neurônios, contribuindo para a consolidação da neurofisiologia de populações neurais como área central da neurociência moderna.

Mudou-se para os Estados Unidos no fim da década de 1980, onde realizou pós-doutorado em Fisiologia e Biofísica e, posteriormente, estabeleceu uma carreira de grande impacto na Universidade Duke, na Carolina do Norte. Ali tornou-se Professor Titular de Neurobiologia e Engenharia Biomédica, cofundou o Center for Neuroengineering e liderou um dos laboratórios mais influentes do mundo na pesquisa de sistemas neurais e controle motor. Nesse período, seu grupo demonstrou pela primeira vez que primatas podiam controlar braços robóticos por meio da atividade cerebral, estabelecendo bases conceituais e tecnológicas que influenciariam diversas linhas de pesquisa e empresas especializadas em implantes neurais décadas depois.

Nicolelis também ganhou notoriedade por coordenar o Projeto Andar de Novo, iniciativa internacional que culminou na utilização de um exoesqueleto robótico controlado por sinais cerebrais por um voluntário paraplégico durante o chute inicial da Copa do Mundo FIFA de 2014. O projeto demonstrou, além da viabilidade de interfaces cérebro–máquina complexas, indícios de recuperação sensitiva e motora em pacientes submetidos a protocolos prolongados de treinamento, ampliando o potencial terapêutico das neuropróteses.

Paralelamente à carreira nos Estados Unidos, Nicolelis fundou no Brasil a Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa (AASDAP), o Instituto Santos Dumont e o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra (IIN-ELS), no Rio Grande do Norte, concebidos para promover pesquisa de ponta, formação científica e inclusão social em regiões historicamente afastadas dos principais centros acadêmicos. Suas iniciativas combinam laboratórios avançados, programas educacionais e projetos comunitários, constituindo um modelo de integração entre ciência e desenvolvimento social.

Autor de livros de divulgação científica e figura frequente nos debates públicos sobre ciência, educação, saúde e democracia no Brasil, Nicolelis recebeu diversas distinções nacionais e internacionais, incluindo o Director’s Pioneer Award do National Institutes of Health (NIH) e a inclusão na lista dos 100 brasileiros mais influentes da revista Época em 2009. Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Pontifícia Academia das Ciências, é considerado um dos cientistas brasileiros de maior projeção global no campo da neuroengenharia.

Nicolelis nasceu em 1961, na Maternidade Matarazzo, no bairro da Bela Vista, descendente de uma família com origens espanhola e grega pelo lado materno e italiano pelo lado paterno. É filho da escritora infantil e juvenil Giselda Laporta Nicolelis, conhecida por sua produção voltada ao público jovem, e de Ângelo Brasil Nicolelis, juiz de carreira. Passou a infância no bairro de Moema, onde recorda ter observado com frequência a movimentação dos aviões no aeroporto de Congonhas.

Estudou inicialmente na Escola Professor Napoleão de Carvalho Freire e, mais tarde, no Colégio Bandeirantes, onde teve contato mais sistemático com biologia e passou a desenvolver uma visão humanista da ciência. Segundo relatos biográficos, suas primeiras inquietações intelectuais incluíam questões como “o que somos?” e “de onde viemos?”, e o estudo da teoria da evolução despertou seu interesse pela complexidade e inteligibilidade dos fenômenos naturais.

Nicolelis também cita a influência de sua avó Lígia Maria, descrita como agnóstica, e de suas leituras de adolescência, especialmente os livros "Hospital", de Arthur Hailey, e "O Cérebro", de Isaac Asimov, que contribuíram para sua decisão inicial de seguir a carreira médica. Ele atribui parte da motivação juvenil para estudar ciência ao desejo de pensar “fora de modelos e padrões” e à percepção de que a atividade científica poderia unir criatividade, desafio intelectual e liberdade de experimentação.

Ao comentar sua própria trajetória, Nicolelis frequentemente afirma ser “filho da Ditadura Militar”, expressão com a qual se refere ao impacto que o contexto político brasileiro dos anos 1960 e 1970 teve sobre seu pensamento crítico e sua postura diante de autoridades e estruturas institucionais. Segundo ele, esse ambiente contribuiu para a consolidação de uma visão cética em relação a convenções estabelecidas e para a defesa persistente de valores democráticos, aspectos que mais tarde marcariam sua atuação pública e científica.

Formação acadêmica e início da carreira científica

Nicolelis ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) no final da década de 1970, inicialmente motivado pelo desejo de se tornar neurocirurgião, interesse despertado pelas leituras de adolescência, especialmente de livros de Isaac Asimov e Arthur Hailey. Durante o curso, porém, descobriu que a rotina da clínica médica não correspondia ao tipo de investigação intelectual que buscava, o que o levou a direcionar sua formação para a pesquisa científica, área que considerava mais compatível com sua necessidade de autonomia e experimentação criativa.

Ainda na graduação, quando exercia o cargo de diretor esportivo do centro acadêmico no quarto ano do curso, teve contato com o neurofisiologista César Timo-Iaria, a quem mais tarde descreveria como “uma das mentes mais brilhantes” e seu principal mentor. A aproximação ocorreu durante um plantão médico, experiência que marcou profundamente sua trajetória ao apresentar-lhe a neurofisiologia como campo capaz de integrar modelos matemáticos, biologia sistêmica e teoria da informação.

Com apoio de uma bolsa de iniciação científica da FAPESP, Nicolelis passou a estudar interação bacteriana e modelos computacionais, aproveitando o acesso emergente à primeira geração de computadores no Brasil. Esse período consolidou seu interesse pela investigação multidisciplinar e reforçou sua percepção de que a ciência poderia unir criatividade, rigor analítico e liberdade de formulação teórica — elementos que já o atraíam desde o ensino médio.

Formou-se médico em 1984 e iniciou, de forma direta, o doutorado em Ciências (Fisiologia Geral) no Instituto de Ciências Biomédicas da USP, concluído em 1989. Sua tese teve como foco o uso de métodos computacionais aplicados ao estudo de circuitos neurais, aprofundando a capacidade de registrar e interpretar sinais oriundos de múltiplas populações de neurônios, tema que se tornaria o eixo central de sua carreira científica.

Ao término do doutorado, buscou oportunidades de pós-doutorado no exterior, chegando a enviar cerca de quarenta cartas a diferentes instituições. Recebeu duas respostas positivas, ambas de universidades norte-americanas: Universidade Yale, sob supervisão de Gordon Shepherd, e Universidade Hahnemann, na Filadélfia, sob supervisão de John Chapin. Optou pela segunda, atraído pelo perfil ousado do laboratório, que buscava registrar conjuntos de células nervosas de forma integrada — abordagem pioneira na época e decisiva para a evolução futura das interfaces cérebro-máquina.

Três meses após a aceitação, mudou-se para os Estados Unidos com bolsa da FAPESP, inicialmente sem a família, dedicando-se à adaptação ao idioma e ao ambiente científico norte-americano. Na Universidade Hahnemann, descreveu ter encontrado condições de pesquisa excepcionais, incluindo liberdade acadêmica, acesso a laboratório próprio e um ambiente de inovação que considerou determinante para sua formação como neurocientista. Entre 1989 e 1993, afirmou ter vivido um dos períodos mais intensos de estudo de sua carreira, marcado por leitura extensiva, experimentação contínua e contato direto com pesquisadores que estavam na vanguarda da neurofisiologia contemporânea.

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Miguel Nicolelis | World in Stories