Zenzile Miriam Makeba, também chamada de "Mama Africa" (Joanesburgo, 4 de março de 1932 – Castel Volturno, 10 de novembro de 2008), foi uma cantora, compositora, atriz, embaixadora da boa vontade da ONU e ativista pelos direitos humanos e contra o apartheid sul-africana. Seus gêneros musicais incluíam o jazz, world music e afro-pop.
Filha de pais suazi e xhosa, Makeba foi forçada a encontrar trabalho ainda criança, após a morte do pai. Ela teve seu primeiro casamento com somente dezessete anos, num relacionamento aparentemente abusivo e do qual deu à luz sua única filha, em 1950. Sobreviveu a um câncer de mama. Seu talento musical foi reconhecido quando ainda era criança e começou a cantar profissionalmente na década de 1950 em conjuntos de seu país natal como os Cuban Brothers, os Manhattan Brothers e um grupo feminino, Skylarks, apresentando uma mistura de jazz, melodias tradicionais africanas e música pop ocidental. Em 1959 Makeba teve uma pequena participação no filme antiapartheid Come Back, Africa mas que foi suficiente para chamar atenção internacional e então apresentar-se em Veneza, Londres e Nova York. Em Londres conheceu o cantor estadunidense Harry Belafonte, que se tornou seu mentor e amigo. Ela então se mudou para Nova York, onde logo se tornou popular e gravou seu primeiro álbum solo em 1960. Sua tentativa de retornar à África do Sul naquele ano para o funeral da mãe foi impedida pelo governo do país.
A carreira de Makeba floresceu nos Estados Unidos. Ali ela teve a direção musical do brasileiro Sivuca a partir de 1964, realizando turnês e lançando vários álbuns e canções, sendo a mais popular "Pata Pata" (1967). Junto com Belafonte, ela recebeu um prêmio Grammy por seu álbum de 1965, An Evening with Belafonte/Makeba. Ela testemunhou contra o governo sul-africano nas Nações Unidas e envolveu-se no movimento pelos direitos civis. Ela se casou com Stokely Carmichael, líder do Partido dos Panteras Negras, em 1968. Como resultado, ela perdeu o apoio entre os americanos brancos. O governo dos EUA cancelou seu visto enquanto ela estava viajando para o exterior, o que forçou o casal a se mudar para a Guiné. Ela continuou a se apresentar, principalmente em países africanos, incluindo em várias celebrações de independência. Ela passou a escrever e executar músicas mais explicitamente críticas do apartheid; a canção "Soweto Blues" de 1977, escrita por seu ex-marido Hugh Masekela, era sobre o levante de Soweto. Depois que o apartheid foi desmantelado em 1990, Makeba voltou para a África do Sul. Ela continuou gravando e se apresentando, incluindo um álbum de 1991 com Nina Simone e Dizzy Gillespie, e apareceu no filme Sarafina!. Ela foi nomeada embaixadora da boa vontade da ONU em 1999 e fez campanha por causas humanitárias. Morreu de ataque cardíaco durante um show em 2008, na Itália.
Makeba, considerada a "imperatriz da canção africana", foi um dos primeiros músicos africanos a receber reconhecimento mundial. Ela trouxe a música africana para o público ocidental e popularizou a world music e o gênero afro-pop. Ela também popularizou várias canções críticas ao apartheid e se tornou um símbolo de oposição ao sistema, especialmente depois que seu direito de retorno foi revogado. Após sua morte, o ex-presidente sul-africano Nelson Mandela disse que "sua música inspirou um poderoso sentimento de esperança em todos nós".
Zenzile Miriam Makeba nasceu no township negro de Prospect, perto de Joanesburgo. Sua mãe de etnia suazi, Christina Makeba, era uma sangoma (curandeira tradicional) e empregada doméstica. Seu pai xhosa, Caswell Makeba, era professor, e morreu quando ela tinha seis anos. Miriam informou mais tarde que antes de sua concepção sua mãe, que havia se curado de um câncer de mama tratado de forma pouco convencional, tinha sido advertida de que mais uma gravidez poderia ser-lhe fatal, e que ela e o filho poderiam não sobreviver. A sua avó, que assistira ao parto, murmurava durante a recuperação de Christina a palavra xhosa "uzenzile" (que significa "você mesma é a responsável por isso", forma tradicional de dar suporte às dificuldades na vida), o que a teria inspirado a dar à filha o nome de "Zenzile".
Quando Miriam tinha dezoito dias de nascida sua mãe foi presa e sentenciada a seis meses de prisão por vender umqombothi — um tipo de cerveja caseira feita de malte e fubá. A família não tinha como pagar a pequena multa necessária para evitar a pena de prisão, de forma que ela passou os primeiros seis meses de sua vida na cadeia.
Quando criança, Miriam frequentou por oito anos uma escola primária metodista para negros, o Kilnerton Training Institute, onde ela cantava no coro. Já naquela época seu talento para o canto recebera elogios. Recebeu o batismo como protestante e cantava em coros de igreja em inglês, xhosa, sotho e zulu; ela declarou que havia aprendido a cantar em inglês antes mesmo de falar o idioma. A família se mudou para o Transvaal (norte do país) ainda em sua infância, e Caswell trabalhou para a Shell. Após a morte do pai ela se viu forçada a encontrar um emprego, então passou a fazer serviços domésticos, e trabalhou como babá. Ela se descreveu como uma pessoa tímida, na época. Sua mãe trabalhava para famílias brancas em Joanesburgo e, assim, passou a viver longe dos seis filhos. Miriam morou algum tempo com a avó e muitos primos, em Pretória.
Foi influenciada pelos gostos musicais da família. Sua mãe tocava vários instrumentos tradicionais e seu irmão mais velho colecionava discos, incluindo os de Duke Ellington e Ella Fitzgerald, e ensinava-lhe as canções. Seu pai tocava piano e, assim, sua inclinação para a música foi aceita pela família para uma carreira que era vista como uma escolha arriscada.
Em 1949 ela se casou com James Kubay (apelidado Gooli), um policial em treinamento quatro anos mais velho; ela tinha dezessete anos quando retomou o relacionamento com esse velho conhecido do colégio; ela então trabalhava como lavadeira, pois a mãe adoecera, e descobriu que estava grávida. Sozinha, pois a mãe viajara à Suazilândia (então um protetorado britânico) para tratar-se por "métodos tradicionais", ela teve que morar com a família de Gooli enquanto este continuava o curso preparatório e preparavam o casamento, e a futura sogra a tratava mal. Em 20 de dezembro nasceu sua única filha, Bongi Makeba, e o marido a agredia. Ela foi então diagnosticada com câncer de mama e seu marido, que a teria espancado, deixou-a pouco tempo depois, num casamento que durou dois anos. Uma década mais tarde ela novamente superaria outro câncer, realizando uma histerectomia.
Miriam começou sua carreira na música profissional no conjunto local Cuban Brothers, grupo sul-africano de close harmony, exclusivamente masculino, onde fazia covers de canções populares dos Estados Unidos. Pouco depois, aos vinte e um anos, ela se juntou a um grupo de jazz chamado Manhattan Brothers, onde realizava uma mistura de canções sul-africanas e peças da música negra estadunidense. Ela era a única mulher do grupo. Com eles gravou seu primeiro sucesso em 1953 — "Laku Tshoni Ilanga" — e ganhou reputação nacional na música. Em 1956 ela se juntou a um novo grupo feminino, the Skylarks, onde interpretava um misto de jazz e melodias sul-africanas tradicionais. Formado pela produtora local Gallotone Records, o conjunto era também conhecido como the Sunbeams. Ela integrou o the Skylarks enquanto os Manhattan Brothers excursionavam no exterior; mais tarde ela iria acompanhá-los em outras viagens. No grupo feminino Miriam interpretou ao lado da cantora rodesiana Dorothy Masuka, cujo trabalho ela seguia, assim como o de Dolly Rathebe. Várias peças de the Skylarks deste período se tornaram populares; o historiador musical Rob Allingham mais tarde descreveria o grupo como "verdadeiro criador de tendências, com uma harmonização nunca antes ouvida". Miriam não recebeu royalties por seu trabalho no the Skylarks.
Sua fama transcendeu o país natal, irradiando-se pelos países vizinhos onde excursionou com os Manhattan Brothers; essas nações passavam por um processo de busca pela libertação dos colonizadores europeus e, em 1954, quando percorreram o Congo Belga, Moçambique (então uma colônia de Portugal) e as Rodésias do Sul e do Norte (atuais Zimbábue e Zâmbia, ocasião em que visitou as Cataratas de Vitória), ela pôde perceber que a condição do negro nas colônias, mesmo na própria África, era difícil e muitas vezes sua presença era proibida em alguns hotéis e eles tinham que se alojar nas áreas reservadas para os nativos. Miriam se lembra de que, nesta turnê, viu um outdoor com a sua imagem segurando uma Coca-Cola: além de não se lembrar de haver tirado a fotografia, ela jamais recebera nada pelo uso de sua imagem.