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Mosteiro de Alcobaça

Antigo mosteiro cisterciense em Alcobaça, Portugal

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O Mosteiro de Alcobaça, também conhecido como Real Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça (o seu nome oficial na Congregação de Alcobaça que chefiava), é um mosteiro situado na cidade de Alcobaça, na região Oeste portuguesa.

É a primeira obra plenamente gótica erguida em solo português, tendo sido começada a sua construção em 1178 pelos monges da Ordem de Cister.

Está classificado como Património da Humanidade pela UNESCO desde 1989 e como Monumento Nacional português desde 1910. A 7 de julho de 2007, foi eleito como uma das Sete Maravilhas de Portugal.

Em 1834 os monges foram forçados a abandonar o mosteiro, na sequência do decreto de supressão de todas as ordens religiosas de Portugal, promulgado por Joaquim António de Aguiar, ministro dos negócios eclesiásticos e da justiça do governo da regência de D. Pedro, Duque de Bragança.

Em 2022, o mosteiro registou 193.881 entradas, sendo um dos monumentos mais visitados do país.

Em finais do século X organizou-se em Cluny, na Borgonha, um novo mosteiro beneditino que procurava seguir com fervor a Regra de S. Bento. Porém, com o tempo, este fervor foi esmorecendo, a Regra de São Bento foi sendo "aligeirada" e, em 1098, alguns monges abandonaram o seu mosteiro de Molesme, também na Borgonha, para fundarem um novo mosteiro em Cister, a sul de Dijon. Os religiosos de Cister procuravam seguir à letra a Regra de São Bento, queriam viver do seu trabalho e não acumular riquezas. Bernardo de Claraval, que se recolhera em 1112 em Cister, donde saiu em 1115 para fundar a Abadia de Claraval, deu grande incremento a esta reforma que restituiu à Regra de São Bento todo o rigor inicial.

Enquanto D. Afonso Henriques se empenhava na Reconquista, chegaram ao território português, já em 1138, os monges cistercienses que iriam fundar o Mosteiro de São João de Tarouca por volta de 1142

D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, doou e coutou a S. Bernardo muitas terras na região de Alcobaça, em cumprimento da promessa feita, em 1147, quando da conquista de Santarém. É de cerca de 1152 o começo da construção provisória do mosteiro, sendo conhecida no mesmo ano uma referência ao seu abade. No entanto, a carta de doação foi assinada por D. Afonso Henriques no ano seguinte, em 1153, para este mosteiro promovesse o povoamento e o arroteamento das terras conquistadas aos muçulmanos. Se se comparar a planta da igreja do Mosteiro de Alcobaça com a da segunda igreja de Claraval, vemos que têm quase a mesma dimensão e disposição espacial.

Os primeiros monges de Alcobaça, conhecidos como monges brancos, tiveram uma ação civilizadora notável. Também desempenharam ações de assistência e beneficência através da botica (a farmácia), e da distribuição de pão e de esmolas na portaria.

No tempo do geral Fr. Sebastião de Sottomaior tomaram grande incremento as oficinas de imaginaria da Abadia.

Imunidade e Jurisdição (1153–1231)

A consolidação do Mosteiro de Alcobaça enquanto território imune à jurisdição episcopal não dependeu apenas da doação régia de 1153, mas de uma complexa estratégia de obtenção de privilégios concedidos pelo poder apostólico da Santa Sé. Embora a construção física tenha iniciado por volta de 1152, em cumprimento da promessa de D. Afonso Henriques após a conquista de Santarém, o arquivo abacial revela uma génese normativa (pré-1152) que recua às origens da Ordem de Cister. Esta ligação era reforçada pela filiação direta à Abadia de Claraval, de onde o mosteiro importou não apenas o modelo arquitetónico, mas também a legitimidade jurídica de São Bernardo, a quem as terras foram originalmente doadas. O arquivo abacial revela uma matriz legislativa composta por bulas anteriores à fundação física do cenóbio, como a Molesmensium (1099) e a Desiderium quod (1100). A presença destes documentos em Alcobaça, contudo, não decorreu de uma concessão direta, mas da sua integração nos textos normativos da Ordem de Cister (como o Exordium Parvum) copiados pelo scriptorium para regular a vida monástica.

Após um hiato documental inicial (1153–1163), que sugere um período de harmonia com o bispo Gilberto de Hastings, a comunidade iniciou uma "blindagem" sistemática do seu património. O marco inicial foi a bula Religiosam vitam eligentibus (1164), que colocou o mosteiro sob proteção apostólica relativamente ao espaço e às pessoas. No ocaso do século XII, face à instabilidade causada pela investida do califa almóada Abu Iúçufe Iacube Almançor (1190), os monges recorreram a privilégios genéricos da Ordem e a bulas de isenção de dízimas para garantir a continuidade do desenvolvimento da economia monacal das suas granjas.

Esta arquitetura jurídica culminou no reinado de D. Fernando I, quando a jurisdição dos Coutos de Alcobaça foi definitivamente fixada, transformando a região num "Estado dentro do Estado" que se manteve como um dos polos agrícolas mais produtivos de Portugal até ao século XIX, consolidando o domínio senhorial da abadia.

A crescente complexidade dos litígios territoriais e a necessidade de gerir a "documentação graciosa" (privilégios e isenções) levaram os monges de Alcobaça a desenvolver, na primeira metade do século XIII, um sistema de registo interno altamente sofisticado. Perante o risco de perda ou deterioração dos originais, o scriptorium produziu bulários específicos, como o manuscrito Alc. 187 (1231) e o registo da Coleção Especial (1229), que funcionavam como "arquivos de segurança" e manuais de consulta rápida. Esta transição de um arquivo físico de pergaminhos soltos para uma "memória escriturária" em códices foi o que permitiu à abadia resistir aos cercos jurisdicionais dos bispos e de outras ordens, como os Crúzios e os Templários, garantindo que as prerrogativas de isencão de dízimas e autonomia senhorial permanecessem operacionais mesmo em tempos de crise. Esta "memória escriturária" permitiu à abadia resistir aos cercos jurisdicionais de outras ordens e dos bispos, culminando no reinado de D. Fernando I, quando a jurisdição plena dos Coutos foi definitivamente fixada, consolidando Alcobaça como um "Estado dentro do Estado" até ao século XIX.

O mosteiro é constituído por uma igreja ao lado da sacristia e, a norte, por três claustros seguidos, sendo cada um circundado, na sua totalidade, por dois andares, assim como também por uma ala a sul. Os claustros, inclusive o mais antigo, possuem, igualmente, dois andares. Os edifícios à volta dos claustros mais recentes possuem três andares. Entre 1998 e 2000 foi descoberto um presumível quarto claustro no lado sul da igreja. Este claustro foi, provavelmente, aplanado na sequência da destruição causada pelo terramoto de 1755 e da grande inundação de 1774. Também é possível que os vestígios dos habitantes da ala sul tenham sido eliminados em 1834. O edifício completo ainda hoje possui uma área de construção de 27 000 m² e uma área total de pisos de 40 000 m². A área construída, juntamente com o claustro sul, terá tido a dimensão de 33 500 m². A fachada principal do mosteiro, da igreja e da ala norte e sul tem uma largura de 221 m, tendo o lado norte ca. de 250 m.

É no ano de 1178, sob o governo do Abade D. Simão, que se dá o início da construção da atual igreja, num projeto que rompe com as estruturas provisórias anteriores. Esta edificação não é apenas uma obra religiosa, mas a transposição direta do modelo de Claraval II para solo português, afirmando a grandeza da Ordem e a sua autonomia face aos poderes locais. Entre 1178 e 1240, a igreja e o primeiro claustro foram construídos no estilo pré-gótico, da passagem do românico, tendo a Igreja sido inaugurada em 1252 -é a primeira obra plenamente gótica erguida em solo português. Os edifícios do lado sul foram provavelmente construídos no século XIV. No último terço do século XVI, iniciou-se a construção do Claustro da Levada que se ligava ao claustro medieval norte. Por último, entre o século XVII e a metade do século XVIII construiu-se o Claustro da Biblioteca (ou do Rachadoiro).

A Igreja é constituída por uma nave central, duas naves laterais, e um transepto, ou cruzeiro, criando a imagem de uma cruz — planta de cruz latina. Com a particularidade de ser uma igreja-salão, onde a nave central e as laterais têm a mesma altura, criando um espaço amplo e luminoso, é discutível se a Igreja foi construída, em relação ao altar-mor, ao deambulatório e ao transepto, na forma actual ou se se desviou de forma semelhante àquela desenvolvida no mesmo período por Claraval, tendo um transepto mais curto e sem deambulatório. Todas as naves têm ca. de 20m de altura. A capela-mor é limitada a oriente por um deambulatório, ou charola, com nove capelas radiais. As outras quatro capelas vão dar, pelos dois lados, ao transepto. O comprimento total é de 106 m, a largura média é de 22 m e a largura do transepto é de 52 m. Desta forma, esta Igreja é uma das maiores abadias cistercienses, tendo sido apenas a hoje já não existente abadia de Vaucelles (132 m) maior. Apesar de a abadia de Pontigny, que se localiza igualmente em França, ter com os seus 108 m dois metros a mais, ela tem um transepto mais estreito. A igreja de Claraval, que hoje já não existe e que serviu de modelo à parte medieval do Mosteiro, tinha o mesmo tamanho. A arquitectura da igreja de Alcobaça é um reflexo da regra beneditina na procura da modéstia, da humildade, do isolamento do mundo e do serviço a Deus. Os Cistercienses partilhavam estas ideias, ornamentando e construindo a estrutura das suas igrejas de forma simples e poupada. Apesar da sua enorme dimensão, o edifício apenas sobressai através dos seus elementos de estrutura necessárias que se dirigem ao céu. Esta impressão foi restabelecida através da restauração efectuada em 1930. Neste mesmo ano ficou decidida a reconstrução nos moldes da época medieval, eliminando-se muitas construções que foram surgindo ao longo dos séculos. Infelizmente, também se eliminou um órgão. Por conseguinte, as pedras à base de calcário, que constituem o muro, ficaram visíveis, contendo muitas os símbolos do entalhador. Por isso, sabe-se que o seu trabalho era remunerado.

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