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Motim do HMS Bounty

Rebelião de 1789 a bordo do navio da Marinha Real Britânica HMS Bounty

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O motim do HMS Bounty ocorreu a bordo do navio HMS Bounty da Marinha Real Britânica em 28 de abril de 1789 no meio do Oceano Pacífico. Tripulantes insatisfeitos liderados pelo mestre assistente Fletcher Christian tomaram o controle da embarcação das mãos de seu comandante, o tenente William Bligh, deixando-o à deriva abordo de um bote com poucos suprimentos junto com outros dezoito marinheiros. Os amotinados se estabeleceram no Taiti ou nas Ilhas Pitcairn; enquanto isso Bligh conseguiu realizar uma viagem de mais de 6 500 quilômetros no bote até encontrar terra, começando então um processo para levar os amotinados para a justiça.

O Bounty havia deixado a Grã-Bretanha em 1787 para recolher e transportar frutas-pão do Taiti até as Índias Ocidentais. A disciplina dentre os homens se deteriorou depois de cinco meses de descanso passados no Taiti, período em que muitos marinheiros viveram em terra e formaram ligações sexuais com mulheres nativas. As relações de Bligh com sua tripulação foram piorando à medida que ele passava punições cada vez mais severas e aumentava suas críticas e abusos, com Christian sendo um alvo frequente. Ele realizou com sucesso um motim contra o comandante por volta de três semanas depois do navio ter deixado o Taiti.

Bligh conseguiu voltar para a Grã-Bretanha em abril de 1790 e o Almirantado Britânico enviou o HMS Pandora para prender os amotinados. Catorze foram capturados no Taiti e aprisionados no navio, que então procurou sem sucesso por Christian e o resto dos homens que haviam ficado em Pitcairn. O Pandora encalhou na Grande Barreira de Coral no caminho de volta, perdendo 31 tripulantes e quatro prisioneiros do Bounty. Os dez restantes chegaram na Grã-Bretanha em junho de 1792 e foram julgados na corte marcial; quatro foram absolvidos, três perdoados e três enforcados.

O grupo de Christian permaneceu sem ser descoberto até 1808, altura em que apenas um dos amotinados, John Adams, ainda estava vivo. Quase todos os outros homens, incluindo Christian, haviam sido mortos uns pelos outros ou por suas companheiras polinésias . Nenhuma ação foi tomada contra Adams. Os descendentes dos amotinados com suas consortes taitianas vivem até os dias de hoje em Pitcairn. A visão que acabou entrando no imaginário popular era a de Bligh como um tirano e Christian como uma vítima trágica das circunstâncias, como mostrada em vários filmes sobre os eventos, porém historiadores dos séculos XX e XXI estão trazendo uma imagem mais simpática de Bligh.

O HMS Bounty foi construído em 1784 no estaleiro da família Blaydes em Kingston upon Hull, Yorkshire, originalmente como um navio carvoeiro chamado Bethia. Ele foi rebatizado em maio de 1787 depois de ser comprado por 1 950 libras esterlinas pela Marinha Real Britânica. O Bounty tinha três mastros, 28 m de comprimento por 7,6 m de largura, com uma capacidade de carga de 230 t. Seu armamento consistia em quatro canhões curtos e dez pequenos canhões giratórios, suplementados com pequenas armas como mosquetes. Foi classificado pelo Almirantado Britânico como um cúter, a menor categoria de um navio de guerra, assim seu comandante seria um tenente ao invés de um capitão, sendo o único oficial abordo. O mandato de cúter também não garantia o destacamento usual de Fuzileiros Navais que os comandantes usavam para reforçar sua autoridade.

O Bounty foi adquirido para transportar frutas-pão do Taiti (então chamada de "Otaheite"), uma ilha polinésia no sul do Oceano Pacífico, até as colônias britânicas nas Índias Ocidentais. A expedição foi patrocinada pela Royal Society e organizada por seu presidente sir Joseph Banks, que compartilhava a visão dos donos de plantações caribenhos de que frutas-pão poderiam ser cultivadas lá e servir como comida barata para os escravos. Banks supervisionou a reforma do Bounty realizada no Estaleiro Deptford no rio Tâmisa. A cabine, normalmente os aposentos do capitão, foi convertida em uma estufa para mais de cem frutas-pão, com janelas vidraçadas, clarabóias, um convés coberto e um sistema de drenagem para impedir o desperdício de água fresca. O espaço necessário para esses arranjos em uma navio pequeno significou que a tripulação passaria por uma superlotação durante toda viagem.

O comando da expedição foi entregue com a aprovação de Banks ao tenente William Bligh, cujas experiências anteriores incluíam a terceira e última viagem de James Cook entre 1776 e 1780 quando serviu como mestre de navegação abordo do HMS Resolution. Bligh nasceu em 1754 na cidade de Plymouth, Devon, vindo de uma família com tradição militar e naval. Sua nomeação para o navio de Cook aos 21 anos de idade foi considerada uma honra, apesar de Bligh acreditar que sua contribuição não foi propriamente reconhecida no relato oficial da expedição. O tamanho da marinha britânica foi reduzido depois do fim da Guerra da Independência dos Estados Unidos em 1783, com Bligh sendo dispensado e recebendo metade do pagamento.

Bligh passou por um período de ociosidade e então conseguiu trabalho temporário na marinha mercante, sendo comandante em 1785 do Britannia, navio propriedade do tio de sua esposa Duncan Campbell. Bligh assumiu em 16 de agosto de 1787 a nomeação no Bounty, com um considerável custo financeiro: seu pagamento de quatro xelins por dia (totalizando setenta libras por ano) contrastava com as quinhentas libras anuais que recebeu como comandante do Britannia. Ele também teve de assumir a posição de comissário do Bounty por causa do limitado número de oficiais abordo. Suas ordens para a viagem ditavam que Bligh deveria entrar no Pacífico através do Cabo Horn, coletar as frutas-pão, velejar para leste na direção do Estreito Endeavour e cruzar os oceanos Índico e Atlântico até as Índias Ocidentais. O Bounty assim completaria uma circum-navegação completa pela Terra.

A tripulação do Bounty consistia em 46 homens, dos quais 44 eram marinheiros da Marinha Real e dois eram botânicos civis. Diretamente abaixo de Bligh estavam seus subtenentes, nomeados pelo Conselho da Marinha e chefiados pelo mestre de navegação John Fryer. Os outros subtenentes eram o contramestre, o cirurgião, o carpinteiro e o artilheiro. Foram adicionados vários aspirantes honorários – chamados de "jovens cavalheiros", eram aspirantes a oficiais navais – para os dois mestres assistentes e os dois aspirantes de marinha. Esses foram registrados no navio como marinheiros aptos, porém foram alojados com os aspirantes e tratados da mesma maneira que eles.

A maior parte da tripulação do Bounty foi escolhida por Bligh ou recomendada para ele por patrocinadores. William Peckover, o artilheiro, e Joseph Coleman, o armeiro, haviam servido com o tenente no Resolution; vários outros tinham velejado sob Bligh mais recentemente no Britannia. Dentre esses estava Fletcher Christian, então com 23 anos, que vinha de uma rica família de Cumberland. Christian havia escolhido uma vida no mar ao invés da carreira jurídica desejada por seus pais. Os dois homens já haviam viajado juntos em duas ocasiões para às Índias Ocidentais, tendo formado uma relação mestre–pupilo em que Christian acabou se tornando um navegador habilidoso. Christian, sendo um dos "jovens cavalheiros", estava disposto a servir no Bounty sem pagamento; Bligh mesmo assim lhe conferiu uma acomodação de mestre assistente. Outros jovens cavalheiros recomendados incluíam Peter Heywood de quinze anos de idade, que havia deixado a escola um ano antes para servir no HMS Powerful, um navio de treinamento em Plymouth. Sua recomendação veio de Richard Betham, um amigo da família Heywood e o sogro de Bligh.

Banks foi quem escolheu os dois botânicos, ou "jardineiros". O botânico chefe era David Nelson, um veterano da terceira expedição de Cook que já havia ido para o Taiti e aprendido um pouco da língua nativa. Seu assistente era William Brown, um ex-aspirante de marinha que já havia participado de batalhas contra os franceses. Banks também ajudou a conseguir acomodações de aspirante de marinha para dois de seus protegidos: Thomas Hayward e John Hallett. A tripulação do Bounty era relativamente jovem, com a maioria tendo menos de trinta anos de idade; Bligh tinha 33 anos na época da partida. Dentre os tripulantes mais velhos estavam Peckover com 39 anos, que viajou nas três expedições de Cook, e Lawrence Lebogue, um ano mais velho e que serviu como fabricante de velas do Britannia. Os mais jovens abordo eram Hallett e Heywood, ambos com quinze anos quando deixaram a Grã-Bretanha.

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