A participação das mulheres na construção do pensamento científico é tão antiga quanto o princípio da ciência. Historiadores interessados em estudos sobre gênero e ciência trouxeram à tona as contribuições e realizações científicas femininas, as barreiras por elas enfrentadas e as estratégias implementadas para que seus trabalhos fossem revisados e publicados em grandes periódicos científicos. O estudo histórico, crítico e sociológico dessas questões tornou-se uma disciplina acadêmica própria.
Em várias civilizações antigas, houve participação ativa das mulheres no campo da medicina. Na Grécia antiga, o estudo da filosofia natural era aberto às mulheres. Além disso, sabe-se da contribuição feminina para a protociência da alquimia no I ou II séculos d.C. Durante a Idade Média, os conventos foram um importante lugar de educação para as mulheres, e algumas dessas comunidades forneceram oportunidades para que as mulheres contribuíssem para a pesquisa acadêmica. Enquanto o século XI viu o surgimento das primeiras universidades, as mulheres foram, na maior parte, excluídas da educação universitária. A atitude em relação à educação das mulheres na área médica na Itália parece ter sido mais liberal do que em outros lugares. A primeira mulher a ganhar uma cadeira universitária em um campo científico de estudos foi a cientista italiana do século XVIII, Laura Bassi.
Apesar da imposição de papéis de gênero no século XVIII, as mulheres protagonizaram grandes avanços na ciência. Durante o século XIX, as mulheres foram excluídas da maior parte da educação científica formal, mas começaram a ser admitidas nas sociedades eruditas durante o mesmo período. No final do século XIX, a ascensão da faculdade de mulheres proporcionou empregos para mulheres cientistas e oportunidades de educação.
Marie Curie, uma química e física polonesa, foi a primeira mulher a receber um Prêmio Nobel em 1903 (física), e recebeu novamente o prêmio em 1911 (química), ambos por seu trabalho sobre radiação, sendo a primeira pessoa e única mulher a ser laureada duas vezes e continua sendo a única pessoa a receber o Prêmio Nobel em duas áreas distintas. Entre 1901 e 2019, apenas cinquenta e quatro mulheres, dentre um total de 923 laureados, receberam o Prêmio Nobel, das quais vinte foram em física, química, fisiologia ou medicina.
A atuação feminina na medicina foi registrada em diversas civilizações antigas. O registro mais antigo de uma mulher cientista na história da ciência é o de Merit Ptah (2.700 a.C.), no Antigo Egito, a qual era considerada "médica chefe", muito antes da conhecida Peseshet. Outras médicas conhecidas são Agamede, citada por Homero como uma curandeira na Grécia Antiga antes da Guerra de Troia (1194–1184 a.C.), e Agnodice, a primeira mulher médica a exercer legalmente essa profissão em Atenas no século IV a.C.
O estudo da filosofia natural na Grécia Antiga era aberto às mulheres. Aglaonice, filósofa e astrônoma, previa eclipses lunares. Teano, pupila e esposa de Pitágoras da escola de Crotona, na qual estudavam muitas outras mulheres, foi matemática, física, astrônoma, filósofa, médica e psicóloga. Dentre seus trabalhos mais importantes estão o Teorema do Retângulo de Ouro, o Teorema da Proporção Áurea, a Teoria dos Números, a Construção do Universo, Cosmologia e a Vida de Pitágoras (obra perdida) Temistocleia, filósofa, matemática e alta profetisa de Delfos, foi mestra de Pitágoras e o introduziu aos princípios da ética.
Durante o período da civilização babilônica (por volta de 1200 a.C.), duas perfumistas chamadas Tapputi-Belatekallim e -ninu (a primeira metade de seu nome é desconhecida) obtiveram essências de plantas usando procedimentos de extração e destilação. Se definirmos a química como o uso de equipamentos e processos químicos, então podemos identificar essas duas mulheres como as primeiras químicas. Mesmo durante a dinastia egípcia, houve participação feminina na química aplicada, como a fabricação de cerveja e a preparação de compostos medicinais.
Há muitos registros de mulheres na alquimia, muitas das quais viveram em Alexandria por volta do século I ou II d.C., onde a tradição gnóstica valorizava as mulheres. A mais conhecida, Maria, a Judia, foi a inventora de vários equipamentos para uso na química, incluindo o banho-maria (em homenagem à Maria) e um tipo de alambique ou aparelho de destilação simples. Tais equipamentos de destilação foram chamados de kerotakis (simples) e tribikos (complexo).
Hipátia de Alexandria (370-415) - filha de Teão de Alexandria, acadêmico e diretor da Biblioteca de Alexandria- foi uma professora reconhecida de astronomia, filosofia e matemática na Escola Neoplatônica. Ela é conhecida como a primeira mulher matemática na história por causa de suas grandes contribuições para essa ciência. Credita-se a Hipátia a escrita de três importantes tratados sobre geometria, álgebra, astronomia, bem como a invenção de um hidrômetro, de um astrolábio e um instrumento para destilar água. Há evidências de que Hipátia deu palestras públicas e pode ter exercido algum tipo de cargo público em Alexandria. No entanto, sua vida frutífera foi interrompida prematuramente no ano de 415 por cristãos fanáticos conhecidos como Parabalani, que a desnudaram, desmembraram-na e queimaram todas as partes do seu corpo. Diz-se que seu assassinato teve motivação político-religiosa. Alguns estudiosos mencionam que sua morte marcou o fim da participação ativa feminina na ciência por muitas centenas de anos.
O princípio da Idade Média na Europa, também conhecida como a Idade das Trevas, foi marcado pela queda do Império Romano. O Ocidente Latino passou por grandes dificuldades que afetaram dramaticamente a produção intelectual do continente. Embora a natureza ainda fosse vista como um sistema que poderia ser compreendido à luz da razão, havia pouca investigação científica inovadora. Foram os Árabes que mantiveram a ciência viva ao escrever trabalhos eruditos originais e ao copiar os manuscritos do período clássico. Foi durante esse período que o cristianismo ascendeu e, com ele, veio a recuperação da civilização ocidental. A lenta ascensão da civilização ocidental ocorreu com os mosteiros e conventos que mantiveram vivas as habilidades de leitura e escrita, além da manutenção de cópias de manuscritos de estudiosos do passado.
Nessa época, algumas abadessas contribuíram substancialmente para a pesquisa científica. Um exemplo é Hildegard de Bingen (1098-1179), uma famosa filósofa e botânica, conhecida por seus prolíficos escritos em diversas áreas como medicina, botânica e história natural (1151-1158). Algumas de suas obras conhecidas são o Livro dos Méritos da Vida, o Livro dos Trabalhos Divinos e Medicina. Hildegard é também conhecida como exímia compositora, além de ter cunhado muito das ideias de gravitação universal, séculos antes de Newton. Outra famosa abadessa alemã foi Hroswitha de Gandersheim (935-1000), a qual também encorajava as mulheres a serem intelectuais. No entanto, o crescimento do número e do poder das freiras não foi bem visto pela hierarquia clerical patriarcal e, assim, houve uma reação contra o avanço das mulheres. Tal reação impactou muitas ordens religiosas, que fecharam suas portas para as mulheres, excluindo-as da oportunidade de aprender a ler e escrever. Com isso, o mundo da ciência fechou mais uma vez suas portas para as mulheres.
No início do século XI, surgiram as primeiras universidades. As mulheres foram, na maior parte, excluídas da educação universitária. No entanto, houve algumas exceções. A Universidade italiana de Bolonha, por exemplo, permitiu que mulheres participassem de palestras desde seu início, em 1088. Na Itália, a atitude em relação à educação das mulheres na área da medicina parece ter sido mais liberal do que em outros lugares. A médica Trotula di Ruggiero supostamente ocupou uma cadeira na Faculdade de Medicina de Salerno, onde ministrou aulas a muitas mulheres da nobreza italiana, um seleto grupo por vezes referido como "as senhoras de Salerno". Inúmeros textos influentes sobre medicina da mulher, sobre obstetrícia e ginecologia, entre outros tópicos, também são creditados a Trotula.