Neste Dia

Murilo Mendes

Poeta e prosador brasileiro

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Murilo Monteiro Mendes (Juiz de Fora, 13 de maio de 1901 — Lisboa, 13 de agosto de 1975) foi um poeta, prosador e crítico de artes plásticas brasileiro, católico expoente do surrealismo na literatura brasileira.

Nascido na cidade de Juiz de Fora, no estado de Minas Gerais, em 13 de maio de 1901, aniversário da abolição da escravidão no Brasil pela Lei Áurea, em 1888 (assim ele gostava de assinalar), Murilo Mendes é filho de Onofre Mendes, funcionário público, e Elisa Valentina Monteiro de Barros. No dia 20 de outubro de 1902, sua mãe, "afeiçoada ao canto e ao piano, morre de parto com vinte e oito anos". Casou-se então o seu pai com Maria José Monteiro ("Minha segunda mãe, Maria José, grande dama de cozinha e salão, resume a ternura brasileira. Risquei do vocabulário a palavra madrasta.").

Em Juiz de Fora, fez seu curso primário e parte do curso ginasial no Colégio Moraes e Castro, no Colégio Malta e na Academia de Comércio. Presenciou, em 1910, a passagem do cometa Halley, que o despertou para a poesia. Em 1916, ingressou na Escola de Farmácia de Juiz de Fora, a qual abandonou decorrido um ano apenas. Como aluno interno, estudou no Colégio Santa Rosa, em Niterói. Irregular e indisciplinado, fugiu para, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, assistir a dois espetáculos de Diaguilev e ver Nijinski dançar. Desde jovem, teve predileção por Wolfgang Amadeus Mozart.

Entre 1917 e 1921, devido a várias tentativas da família de conseguir-lhe um trabalho, foi empregado como telegrafista, prático de farmácia, guarda-livros (antiga nomeclatura para contador), funcionário do cartório do pai, professor de francês em um colégio de Palmira (atual Santos Dumont) e, mudando-se para o Rio de Janeiro com o irmão mais velho, trabalhou como arquivista na Diretoria do Patrimônio Nacional, subordinado ao Ministério da Fazenda. Nesse órgão público, Murilo Mendes conheceu, em 1921, Ismael Nery, desenhista da Seção de Arquitetura e Topografia, tornando-se amigos fraternos. Contudo, o poeta continuou a buscar, sem vocação, ocupações várias, desde funcionário do Banco Mercantil, escrevente no cartório de seu primo Aníbal Monteiro Machado, inspetor federal de ensino secundário até escrivão da 4a Vara da Família do Distrito Federal.

A morte prematura de Ismael Nery, em 1934, provocou em Murilo Mendes uma crise religiosa, a qual o converteu em definitivo ao catolicismo. Na edição Tempo e Eternidade (1935) escreveu um poema em homenagem ao amigo. A influência de Ismael fez Murilo ainda publicar, entre junho a dezembro de 1948, no suplemento Letras e Artes do jornal A Manhã, artigos com o título Recordação de Ismael Nery.

Em 1938, quando Salzburgo foi tomada na Segunda Guerra Mundial pelos alemães, Luciana Stegagno Picchio, amiga e organizadora da extensa obra de Murilo Mendes, indica um episódio paradigmático de seu caráter singular: Murilo "telegrafa a Hitler o seu protesto em nome de Wolfgang Amadeus Mozart".

Devido à tuberculose, passou um período de convalescença na pensão em que morou, transferindo-se, em 1943, ao Sanatório Boa Vista, em Corrêas, no Município de Petrópolis. Em 1947, casou-se com a poeta e tradutora portuguesa Maria da Saudade Cortesão, filha de Jaime Cortesão, escritor e historiador português exilado no Brasil. Fixou o casal, inicialmente, o domicílio no Rio de Janeiro.

Viajou a turismo para a Espanha em 1952. No ano seguinte, esteve novamente na Espanha, como professor visitante na Universidade de Madri. Em 1953, proferiu, na Sorbonne, palestra sobre Jorge de Lima, amigo cuja morte ocorrera há pouco. Entre 1953 e 1955, ministrou conferências nas Universidades de Bruxelas, Louvain, Amsterdam e Paris sobre temas de cultura brasileira. Mudou-se para a Itália em 1957, contratado pelo Departamento Cultural do Itamaraty, a fim de exercer a função de professor de literatura brasileira na Universidade de Roma "La Sapienza", desenvolvendo ainda curso idêntico na Universidade de Pisa. Instalaram-se o poeta e sua esposa no domicílio definitivo, situado em Roma, na Via del Consulato 6.

Murilo Mendes faleceu por problemas cardíacos no dia 13 de agosto de 1975, na casa onde habitara seu sogro, Jaime Cortesão, em Lisboa. Foi sepultado no Cemitério dos Prazeres.

Após a morte de Murilo Mendes, surgiram diversas manifestações. Entre elas, dois meses após o falecimento, o pintor Pasquale Santoro fomentou, na Itália, evento em sua homenagem. No Museu de Arte de São Paulo (MASP), Pietro Maria Bardi organizou, em 1980, a Exposição Brasil-Itália, tendo salas especiais denominadas "Um Poeta Brasileiro na Itália - Murilo Mendes" e "Um Poeta Italiano no Brasil - Giuseppe Ungaretti". Em Lisboa, com a contribuição de Maria da Saudade Cortesão Mendes e João Nuno Alçada, a Fundação Calouste Gulbenkian realizou, em 1987, a exposição "Murilo Mendes - O Olhar do Poeta".

A Murilo Mendes o reconhecimento também o alcançou em poesia. Na bela Carta de Natal a Murilo Mendes, sua amiga e poeta Sophia de Mello Breyner Andresen enviou: "Querido Murilo: será mesmo possível / Que você este ano não chegue no verão / Que seu telefonema não soe na manhã de Julho / Que não venha partilhar o vinho e o pão". A cordialidade e o carisma de Murilo deixaram, junto à sua obra artística, inúmeros amigos.

Em sua Apresentação da Poesia Brasileira, Manuel Bandeira assinala que Murilo Mendes "é talvez o mais complexo, o mais estranho e seguramente o mais fecundo poeta desta geração". Considerando primeiro o seu estilo, de uma espiritualidade particular e, à frente, de uma liberdade da sintaxe, Afrânio Coutinho posiciona então Murilo Mendes na segunda fase, ou geração, do modernismo na poesia, que se estende de 1930 até 1945. Ao incorporar o surrealismo e o catolicismo, a sua obra destaca-se na literatura brasileira.

Murilo Mendes publicou o seu primeiro livro, Poemas, em 1930, o qual seu pai custeara em Juiz de Fora. Por ele recebeu, no mesmo ano, o Prêmio de Poesia da Fundação Graça Aranha. Já no ano seguinte, 1931, Mário de Andrade percebe o aparecimento de Poemas, atribuindo a Murilo Mendes com outros três autores marcantes a designação de "poetas feitos". No mesmo ano, 1931, publicou o auto Bumba-meu-poeta. Em 1932, foi publicado o livro de poemas-piadas História do Brasil, os quais, por considerar o poeta que "destoam do conjunto da minha obra", excluiu da obra completa Poesias, editada em 1959. Poesias reuniu a produção literária de Murilo Mendes entre 1925 a 1955, excluindo também O Sinal de Deus (1936), edição de poemas em prosa que havia sido retirada do mercado. Luciana Stegagno Picchio, em sua História da Literatura Brasileira, observa que, meticuloso, constituiu Murilo "em torno do núcleo primitivo (Poemas e Bumba-meu-poeta, 1930)" [...] uma "obra coerente como poucas".

A mais próxima biógrafa de Murilo Mendes, Laís Corrêa de Araújo (com quem Murilo correspondeu-se durante longa data), nota que o primeiro livro, Poemas (1930), foi publicado posteriormente à Semana de Arte Moderna, acontecimento do modernismo brasileiro ocorrido no Theatro Municipal de São Paulo, em 1922. É questionável o intervalo, por volta de oito anos, da "Semana de 22" até à edição de Poemas. Entretanto, verifica a sua biógrafa que "não seria o mero fato de um distanciamento geográfico do escritor do eixo das operações renovadoras (São Paulo - Rio de Janeiro) - pois já residia no Rio em 1920" e que "em 1922 tinha Murilo vinte e um anos, uma idade portanto psicologicamente propícia às contestações, à rebeldia". Colocando à parte o desvio do livro História do Brasil, Laís Corrêa de Araújo apresenta a justificação de que, ainda que adotando o verso livre, as "ideias filosóficas", as "preocupações estéticas" de Murilo Mendes já não repercutiam os movimentos de 1920 a 1930. No poema emblemático Mapa, que pertence ao livro Poemas, lê-se Murilo afirmando que "tudo é ritmo do cérebro do poeta. Não me inscrevo em nenhuma teoria". Alceu Amoroso Lima, em carta à biógrafa, escreveu, com agudo senso crítico, que Murilo Mendes nunca foi um "homem de rebanhos".

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