Nelson Pereira dos Santos (São Paulo, 22 de outubro de 1928 — Rio de Janeiro, 21 de abril de 2018) foi um cineasta, roteirista, produtor cinematográfico, ator e cinegrafista brasileiro. Tendo sido um dos fundadores do movimento do Cinema Novo, sua produção atravessa um período de sessenta anos na história da cinematografia brasileira.
Considerado um dos mais importantes e renomados cineastas de dentro e fora do país, foi fortemente influenciado pelas obras da geração de 1930 do modernismo literário brasileiro, tendo adaptado para o cinema obras de Graciliano Ramos e Jorge Amado. Entre suas produções, destacam-se Rio, 40 Graus (1955) e Rio, Zona Norte (1957), considerados filmes de importância basilar para o Cinema Novo, e Vidas Secas (1963), baseado no romance de Graciliano, um dos filmes brasileiros mais premiados e importantes em todos os tempos, sendo reconhecido como obra-prima.
Dirigiu ainda Fome de Amor (1968), Azyllo Muito Louco (1970) e Quem é Beta? (1972), seguindo uma linha mais experimental e metafórica. Em 1995, foi convidado pelo British Film Institute (BFI) para dirigir Cinema de Lágrimas, como parte de uma série para comemorar os cem anos da invenção do cinema, ao lado de nomes como Martin Scorsese e Jean-Luc Godard.
Em 1998, recebeu o Troféu Oscarito no Festival de Gramado por sua relevante contribuição ao cinema brasileiro. Em 2005, foi incluído no Quadro Suplementar da Ordem de Rio Branco, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a Ordem de Rio Branco, no grau de Grande Oficial. Em 2006, foi eleito Imortal pela Academia Brasileira de Letras, posto que ocupou até seu falecimento em 2018.
Nascido em 1928 na cidade de São Paulo, Nelson foi batizado em homenagem ao Almirante Horatio Nelson. Frequentador assíduo de salas de cinema, o pai de Nelson o teria levado para uma delas pela primeira vez quando ele ainda era uma criança de colo. Aos 15 anos de idade, no colégio secundarista, Pereira dos Santos, já aficionado pela literatura, torna-se membro do Partido Comunista Brasileiro e aproxima-se do intelectual Astrojildo Pereira, um de seus integrantes. O Partido, na época, era classificado como clandestino pelo governo de Getúlio Vargas.
Estudou por um ano no IDHEC, escola francesa de formação de cineastas, mas não gostou da experiência, decidindo aprender sobre a arte tornando-se crítico de cinema.
1950-1953: Formação e primeiros trabalhos no cinema
Em 1950, realizou um curta-metragem sobre os trabalhadores fabris de São Paulo, intitulado Juventude, hoje tido como filme perdido graças ao sumiço do negativo original . Entre 1950 e 1951, escreveu uma série de artigos para a revista Fundamentos, publicação paulistana de orientação marxista com escopo editorial voltado à cultura geral. Tornou-se um dos principais articulistas a discutir as questões correntes relativas ao cinema brasileiro na revista, ao lado de nomes como Alex Viany, Carlos Ortiz e Rodolfo Nanni, alguns dos quais, como Nelson, também viriam a se fixar como cineastas antes do fim da década.
Graduou-se em direito pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, na turma de 1952. Com vontade de fazer cinema e após algumas experiências trabalhando em estúdios paulistanos, Nelson decide mudar-se para o Rio de Janeiro. Ainda em 1952 foi lançado o filme Balança, Mas Não Cai, comédia na qual atuou como assistente de direção. No ano seguinte, foi assistente de Alex Viany na produção Agulha no Palheiro.
1955-67: A polêmica de Rio, 40 Graus e a fundação do Cinema Novo
O primeiro longa-metragem de ficção que Nelson realiza enquanto diretor é Rio, 40 Graus (1955). O filme foi parcialmente financiado pelo Partido Comunista, por intermédio do produtor João Tinoco, com direito a negativos estrangeiros contrabandeados ao Brasil. Fundos para a realização do longa também foram adquiridos quando seu diretor apresentou, para um produtor tradicional de cinema, um roteiro relativo a uma comédia musical que supostamente seria feito caso ele conseguisse arrecadar o dinheiro necessário. A equipe de filmagem teria trabalhado mediante pouco ou nenhum pagamento, e as câmeras utilizadas na produção do longa foram emprestadas pelo Instituto Nacional de Cinema, graças a um dos seus funcionários mais célebres, o cineasta Humberto Mauro. Entre os integrantes da equipe estava o sambista Zé Kéti, autor da canção "A Voz do Morro", que serve como abertura para Rio, 40 Graus.
Nelson deixaria o Partido Comunista em 1956, ao retornar de um festival em Praga, onde apresentara Rio, 40 graus. Lá, o movimento anti-stalinista crescera, após a publicação do Relatório Kruschev, que denunciava os crimes de Stálin. Segundo Nelson, "o pessoal do partido no Brasil dizia que era intriga da imprensa burguesa. Eu simplesmente caí fora daquele subterrâneo e não me arrependo. Nunca mais me filiei a nenhum partido político".
O filme ficou meses retido pela polícia do Rio de Janeiro, então chefiada pelo coronel Geraldo Menezes Côrtes. A justificativa oficial para a censura da obra foi a de que, no Rio de Janeiro, a sensação térmica nunca teria atingido os 40 graus do título. Os motivos reais, entretanto, estavam na forma como o filme retratava a desigualdade social na cidade e abordava a cultura popular brasileira. A censura de Rio, 40 Graus virou notícia em todo o Brasil, gerando uma campanha pela liberação do filme, que afinal foi lançado em 1955.
Segundo a biógrafa Helena Salem, depois de todo o escândalo envolvendo Rio, 40 Graus, o filme foi lançado em Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, em grande circuito, e foi um estouro de bilheteria . Além disso, ecoou entre os jovens intelectuais brasileiros, que se entusiasmaram com as inovações estéticas e temáticas do filme, tidas como precursoras do movimento do Cinema Novo.
Na época, o então jovem crítico de cinema baiano Glauber Rocha estava entre as pessoas que se interessaram por Nelson, e acabou indo ao Rio de Janeiro com a intenção de trabalhar com ele. De fato, Glauber trabalhou como assistente para Nelson em seu longa seguinte, Rio, Zona Norte (1957), cuja produção foi possibilitada graças ao sucesso do filme anterior. O filme conta a história do sambista Espírito da Luz, interpretado por Grande Otelo, tendo sido livremente inspirado na vida de Zé Kéti, que também compôs a trilha sonora. Em retribuição ao entusiasmo do jovem baiano, Nelson montou Barravento (1962), primeiro longa-metragem de Glauber. Tendo realizado ambas as películas e participado da estreia de Glauber no longa-metragem, Nelson rapidamente passou a ser visto como uma espécie de figura paterna entre os diretores cinemanovistas.
1960-66: Adaptando Vidas Secas e carreira como professor
Após ver Rio, Zona Norte logrando fracasso com a crítica e o público, Nelson retornou ao jornalismo por um período de dois anos, tornando-se redator do Diário Carioca e diretor de curta-metragens publicitários para os cinejornais de Jean Manzon e Isaac Rosemberg, nomes fortes na indústria do filme institucional. Em 1960, foi contratado pelo Departamento Nacional de Obras Contra a Seca para realizar um documentário sobre as fortes secas pelas quais passavam o município baiano de Juazeiro. Relendo durante o trajeto o romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, decidiu abandonar o projeto institucional e projetar seu retorno ao cinema de ficção com uma adaptação do livro.
Ao chegar em Juazeiro, escolhida para as filmagens em locação, se deparou com fortes tempestades que resultaram em uma cheia do rio São Francisco, diversos desabrigados e, após sua estiagem, na caatinga sertaneja totalmente florida. Depois de rodar algumas reportagens sobre as enchentes de Juazeiro para o cinejornal Bahia na Tela da Iglu Filmes, e tendo à disposição agora uma paisagem incompatível com o cenário da obra literária, redigiu um roteiro às pressas para não perder a viagem e rodou, em modestas condições, o faroeste à brasileira Mandacaru Vermelho (1961), no qual também participa à frente das câmeras no papel de protagonista.