Nise Magalhães da Silveira OMC (Maceió, 15 de fevereiro de 1905 — Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1999) foi uma médica psiquiatra brasileira. Reconhecida mundialmente por sua contribuição à psiquiatria, revolucionou o tratamento mental no Brasil por meio da arte, livre expressão e afetividade. Dona Ivone Lara foi uma das personalidades a trabalhar com Nise da Silveira. Nos seus estudos sobre esquizofrenia trocou correspondências com Jung em 1954.
Dedicou sua vida ao trabalho com doentes mentais, manifestando-se radicalmente contra as formas que julgava serem agressivas em tratamentos de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoque, insulinoterapia, coma insulínico e lobotomia. Nise foi pioneira em vários sentidos: ao enxergar o valor terapêutico da interação de pacientes com animais, coterapeutas no uso do afeto catalisador.
Seu trabalho antecedeu os movimentos de renovação da psiquiatria na Inglaterra (década de 1960), na Itália (década de 1970) e no Brasil (década de 1980).
No carnaval de 2024, a escola de samba carioca Arranco apresentou um enredo sobre o legado da Dra. Nise da Silveira. Com o enredo "Nise - Reimaginação da loucura" a agremiação do Engenho de Dentro fez um desfile emocionante em homenagem a esta grande figura brasileira.
Filha do professor de matemática Faustino Magalhães da Silveira e da pianista Maria Lídia da Silveira, Nise era bastante estudiosa. Sua formação básica realizou-se em um colégio de freiras, na época exclusivo para meninas, o Colégio Santíssimo Sacramento, em Maceió. Seu pai foi jornalista, diretor do Jornal de Alagoas e professor de matemática.
De 1921 a 1926 cursou a Faculdade de Medicina da Bahia, onde se formou como a única mulher entre os 157 homens daquela turma. Está entre as primeiras mulheres no Brasil a se formar em Medicina no Brasil. O sanitarista Mário Magalhães da Silveira, seu primo e colega de turma na faculdade, foi seu cônjuge e viveu ao seu lado até sua morte em 1986. O casal não teve filhos, por um acordo entre ambos, que queriam dedicar-se intensamente à carreira médica. Em seu trabalho médico, Mário publicava artigos onde apontava as relações entre pobreza, desigualdade, promoção da saúde e prevenção da doença no Brasil.
Após a morte do pai, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1927, morando em Santa Teresa, e teve como vizinho o poeta Manuel Bandeira e o líder comunista Otávio Brandão, responsáveis por fazê-la ter contato com a leitura marxista e a frequentar algumas reuniões do Partido Comunista Brasileiro. Nos anos 1930, militou no Partido Comunista Brasileiro e foi uma das poucas mulheres a assinar o "Manifesto dos trabalhadores intelectuais ao povo brasileiro". No entanto, acabou por ser expulsa de sua célula, sob a acusação de trotskismo.
Em 1933, cursando os anos finais da especialização em psiquiatria, estagiou na clínica neurológica de Antônio Austregésilo. Logo após terminar sua especialização, foi aprovada no mesmo ano em um concurso de psiquiatria, e começou a trabalhar no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental do Hospital da Praia Vermelha.
Durante a Intentona Comunista, foi denunciada por uma enfermeira pela posse de livros marxistas. Ficou presa entre 1936-1937 no presídio Frei Caneca. A Polícia Política e Social (DPPS) da Era Vargas foi responsável por prender Nise, entre outras figuras de destaque da época. Assim, neste período entrou em contato com o escritor Graciliano Ramos e as militantes comunistas Olga Prestes e Elisa Berger, que se encontravam igualmente presas pelas mesmas denúncias. Graciliano tornou-se seu grande amigo – fazendo de Nise um dos personagens do clássico Memórias do Cárcere, que narra justamente este momento.
Durante seu afastamento do serviço público, fez uma profunda leitura reflexiva das obras de Spinoza, material publicado em seu livro Cartas a Spinoza em 1995.
O período de prisão a influenciou durante e posteriormente em suas questões pessoais, profissionais e, sobretudo, em seu olhar sobre a loucura com a sua concepção de liberdade.
Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro
Em 1944 foi reintegrada ao serviço público e iniciou seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.
A psiquiatria durante seu período de afastamento passou por mudanças violentas. Ao se deparar com procedimentos como eletrochoques, coma insulínico e lobotomia, Nise da Silveira se rebelou. Por sua discordância com os métodos adotados nas enfermarias, recusando-se a aplicá-lo nos pacientes, foi transferida para o trabalho com terapia ocupacional, atividade então menosprezada pelos médicos. Assim, em 1946 fundou naquela instituição a Seção de Terapêutica Ocupacional Nise da Silveira.
No lugar das tradicionais tarefas de limpeza e manutenção que os pacientes exerciam sob o título de terapia ocupacional, ela criou ateliês de pintura e modelagem, com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, revolucionando a psiquiatria então praticada no país.
Museu de Imagens do Inconsciente
Em 1952, ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação dos trabalhos produzidos nos estúdios de modelagem e pintura que criou na instituição, valorizando-os como documentos que abriam novas possibilidades para uma compreensão mais profunda do universo interior do esquizofrênico.
Entre outros artistas-pacientes que criaram obras incorporadas na coleção dessa instituição, podem ser citados Adelina Gomes, Fernando Diniz, Carlos Pertuis, Emygdio de Barros e Octávio Inácio."O Museu é um centro vivo de estudo e pesquisa sobre as imagens e tem caráter marcadamente interdisciplinar, o que permite troca constante entre experiência clínica, conhecimentos teóricos de psicologia e psiquiatria, antropologia cultural, história, arte e educação".Esse acervo também alimentou a escrita de seu livro "Imagens do Inconsciente", filmes e exposições, participando de exposições significativas, como a "Mostra Brasil 500 Anos".