Iracema de Sousa Ferreira (Rio de Janeiro, 20 de março de 1922 em Olaria, Rio de Janeiro – 28 de outubro de 2003), mais conhecida pelo seu nome artístico Nora Ney, foi uma cantora, compositora e instrumentista brasileira e torcedora declarada do Olaria Atlético Clube.
Seu disco de 78 rotações "Ninguém Me Ama", de 1952, lhe firmou como a primeira cantora brasileira na história a conseguir um disco com com certificado de ouro, quando o mesmo atingiu a marca de 300 mil cópias.
Credita-se a ela, também, como sendo a primeira intérprete brasileira a gravar uma canção de rock brasileiro, ao cantar "Ronda Das Horas", versão do clássico "Rock Around the Clock" de Bill Haley, em outubro de 1955, (trilha do filme Sementes da Violência), para a versão brasileira do filme. Em uma semana, a canção atingiu o topo das paradas de sucesso do país.
Dentre os hits "Ninguém Me Ama", "De Cigarro Em Cigarro", "Se Eu Morresse Amanhã", "Bar Da Noite", "Preconceito", "Menino Grande", "Felicidade", "Duas Lacraias" e "A Flor e o Espinho", Ney colecionou ao longo de sua carreira os títulos honorários de "Rainha das Rádios" e "Deusa". No decorrer de sua carreira, Nora apresentou-se na Argentina, China, Rodésia, Rússia e diversos outros.
Em 1958, a convite do Presidente do Brasil Juscelino Kubitschek, acompanhada de outros artistas, Ney ingressou em uma caravana artística com a finalidade de preparar a reaproximação com a União Soviética e a China. A turnê fez sucesso e resultou em seguidas viagens a trabalho para esses locais nos anos seguintes. Incluindo um show para um público de 45 mil pessoas na China. Ney foi uma das primeiras artistas e uma das poucas mulheres assumidamente de esquerda de sua época, sendo oposicionista ao regime militar no Brasil, tendo que exilar-se na Rússia devido a perseguição que viria a sofrer devido sua associação com Partido Comunista.
Fascinada com o mundo da música, Iracema frequentava assiduamente programas de rádio e de auditório durante sua juventude. Diferentemente das outras diversas cantoras de rádio, Nora Ney teve sua carreira incentivada por seu pai, que lhe presentou com um violão, onde a mesma aprendeu sozinha a tocar o instrumento, com a canção “Valsa de Cristal”.
Enquanto morando na Urca, conhece Dick Farney e Cibele, onde passou a apresentar-se em pequenos eventos. A amizade com este casal a levou Iracema a conhecer Lúcio Alves, que participava de reuniões do fã-clube Sinatra-Farney, na casa deste casal. Mais tarde, esse foi oficializado nos livros de história como o primeiro fã-clube da história do Brasil, que também contava com nomes como Johnny Alf, João Donato, Paulo Moura, Fafá Lemos, Klécius Caldas, Carlos Guinle, Armando Cavalcanti e Carlos Manga. Todos esses contatos a fizeram conhecer diretor da Rádio Tupi, que a contratou para cantar no programa noturno "Fantasias Musicais" apresentado por José Mauro.
Nessa mesma época, adotou o nome artístico Nora May.
Com sua fama crescendo cada vez mais, mudou seu nome artístico para Nora Ney após um fã erroneamente escrever uma carta para ela. Logo em seguida, foi convidada por Almirante para trabalhar no quadro “Viva o Samba” no programa "G-3", como substituta de Aracy de Almeida durante suas férias. Assim, começaram a surgir pedidos de Almirante e Haroldo Barbosa para que Nora adicionasse canções brasileiras ao seu repertório, onde ela adotou "Último Desejo" e "O X do Problema" de Noel Rosa que eram sucesso na voz de Aracy. Com o tempo, canções de Dorival Caymmi, Ary Barroso e outros compositores foram adicionados ao seu repertório, aumentando ainda mais seu sucesso.
Através de Copinha, por pedido de Caribé da Rocha, foi contratada pelo Copacabana Palace, onde apresentava-se como crooner. Entretanto, Ney recusou o convite e indicou Dóris Monteiro em seu lugar. O motivo da recusa foi devido seu marido não gostava da ideia dela apresentar-se a noite, mas mais tarde aceitou a proposta quando negociaram que seu marido iria acompanhá-la durante os shows. Seu talento lhe concedeu um sucesso estrondoso com o público do local e através de indicações de Marlene, Nora conseguiu um contrato na Rádio Nacional, onde firmou picos de audiência no programa Quando Canta o Brasil às 21hrs. Mais tarde, devido a grande demanda, Ney também começou a aparecer em outros programas de rádios, como "Trio do Osso" da Mayrink Veiga e a Cruzeiro do Sul. Com todas essas conquistas em sua carreira, ela conseguiu a independência financeira. Cada vez mais popular, sua voz rapidamente chamou atenção de produtores musicais.
Em 1952, através da gravadora Continental, gravou dois discos de 78 rotações; No primeiro disco, no lado A, "Menino Grande", e, no lado B, "Quanto Tempo Faz". A canção "Menino Grande" foi citada como a favorita de Getúlio Vargas. No segundo disco, a canção "Ninguém Me Ama", tornou-se um grande sucesso em território nacional. Em seu segundo disco, no lado A, "Amor, Meu Grande Amor", e, no lado B, "Ninguém me Ama". O sucesso da canção "Ninguém me Ama" foi tão grande que a canção levou o álbum a ser o primeiro disco brasileiro a receber certificação de Disco de Ouro por conta do extraordinário sucesso de vendas. O grande sucesso de "Ninguém Me Ama" foi mais tarde regravado pelo cantor estadunidense Nat King Cole quando o mesmo esteve em turnê no Brasil e apaixonou-se pela canção.
Com grande instrução de carreira, Ney rapidamente abraçou o público homossexual, grupo esse que era renegado pela MPB. Isso culminou no lançamento do sucesso "Preconceito", lançado em 1953. A canção tornou-se um hino entre o público da época. Durante esse tempo, também lançou as canções “De Cigarro Em Cigarro”, “Índia”, e “É Tão Gostoso, Seu Moço”, que a lhe rendeu o apelido honorário de "Rainha da Rádio" em 1963. Quando o filme Limelight de Charles Chaplin foi lançado, Nora regravou a canção "Luzes da Ribalta". Devido a boa recepção, ela também foi convidada para regravar o hit "Rock Around the Clock" de Bill Haley do filme americano Sementes da Violência, lançado no Brasil em outubro de 1955. Isso fez dela a primeira cantora a gravar o estilo musical rock em território nacional. Com apenas uma semana de lançamento, a canção estava em primeiro lugar nas paradas de sucesso do país, barrando "Cerejeira Rosa" de Zezé Gonzaga e "Farinhada" de Ivon Curi. Entretanto, apesar do grande sucesso, Nora não familiarizou-se com o estilo e dois anos mais tarde, gravou uma faixa intitulada "Cansei do Rock". Além destas obras, Nora também cantou canções para os filmes brasileiros Carnaval Atlântida e Carnaval em Caxias.
Ao lado de Jorge Goulart, seu marido, saiu em turnê internacional por países da América do Norte e do América do Sul, na Europa, na África e no Oriente Médio, tornando-se também uma das primeiras cantoras brasileiras a apresentar nos “países da cortina de ferro” no leste europeu.
Em 1 de abril de 1964, Ney apresentava-se no teatro da União Nacional dos Estudantes, quando o golpe de estado de 64 ocorreu. Com isso, Ney, ao lado se seu marido, mudaram-se para a Rússia, devido a perseguição que se iniciava contra os comunistas no Brasil. Na Rússia, Ney já era conhecida e amada devido uma apresentação feita em 1959. Apenas em 1968 ela retornou ao território nacional, onde continuou sua carreira de sucesso ao adequar-se ao estilo musical do momento; garantindo-a o apelido de "Deusa". Ao retornar para o Brasil, lançou "Mudando de Conversa" seu primeiro disco em oito anos.
No início dos anos 70, fez residência ao lado de Goulart na boate "Feitiço da Vila", em Belo Horizonte. Mais tarde, assinou com a Som Livre, onde lançou o álbum “Tire seu Sorriso do Caminho, que Eu Quero Passar com a Minha Dor”, contando com antigos sucesso e novas canções, como “Conselho” e “A Flor e o Espinho”. Em 1973 e em 1975, sua interpretação das canções "Quem És? (Chi Sei?)" e "Bar da Noite" fez parte das trilhas sonoras das telenovelas brasileiras da TV Globo, O Bem-Amado e Gabriela, respectivamente.
Em 1979, participou do projeto bem sucedido "Seis e Meia" e do show de grande sucesso intitulado “Casal Vinte”, no teatro Sidney Miller, com roteiro e direção de Ricardo Cravo Albin. Posteriormente, também participou do projeto teatral "Roteiro de um Boêmio", que tratava sobre a vida e obra de Lupicínio Rodrigues. Dentre seus sucessos seguintes, em 1982, em comemoração aos 30 anos de união com Jorge Goulart, o casal realizou o espetáculo “De Coração a Coração”, no Teatro Armando Gonzaga, em Marechal Hermes, no Rio Janeiro. Na turnê nacional "Projeto Pixinguinha" com Jamelão.