A Organização Europeia para a Investigação Nuclear (em francês: Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire), conhecida como CERN (antigo acrônimo para Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire) é o maior laboratório de física de partículas do mundo, localizado em Meyrin, no cantão de Genebra, na fronteira Franco-Suíça. Criada em 1954 a organização tem 23 Estados-membros, incluindo Portugal que aderiu em 1986. Em 2010, contava com um efetivo de aproximadamente 2 400 funcionários a tempo integral, assim como mais de 11 mil cientistas e engenheiros (representando 580 universidades e centros de pesquisa e 80 nacionalidades).
As contribuições dos Estados-membros do CERN para o ano de 2011 totalizaram 1 130 milhões de francos suíços (CHF). Desenvolvido com aproveitamento constante de infraestruturas preexistentes, o CERN possui os equipamentos necessários para a pesquisa de física a altas energias pelo que vários experimentos têm sido construídos por colaborações internacionais.
No local de Meyrin, onde se encontra a sede da organização, existe um grande centro de informática, contendo instalações de processamento de dados muito poderosas que, a princípio, servia para a análise de dados experimentais, mas atualmente, e devido à enormidade de dados recolhidos diariamente pelo LHC, é o Tier 0 da Grelha de cálculo LHC (LCG), para pôr esses dados à disposição dos outros pesquisadores que historicamente tem sido (e continua a ser) um hub de rede de longa distância.
Uma das particularidades do CERN é o fato de ser um laboratório transfronteiriço, com instalações na Suíça e na França. Assim como já havia acontecido durante a extensão do laboratório em Meyrin, nos anos 1970, onde cerca de 1/3 da sua superfície se expandiu em território francês, também para a construção do SPS em 1976 a França cedeu o terreno para o sítio de Prevessin, no País de Gex, a fim de albergar as infraestruturas necessárias a esse acelerador. Posteriormente para o LEP, foram edificadas as instalações de superfície correspondentes às atuais experiências do LHC de ALICE em St.Genis, CMS em Cessy e LHCb em Ferney-Voltaire, já que ATLAS se encontra na comuna de Meyrin no cantão de Genebra, Suíça.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a ciência fundamental na Europa estava completamente antiquada e assim como o tinham feito as organizações internacionais, um grupo de cientistas e políticos visionários, idealizaram um laboratório europeu de pesquisa atómica. Um laboratório deste tipo permitiria, não só reunir os cientistas europeus dispersos pela Europa, com muitos deles fugitivos e mesmo receosos uns dos outros, como resolver o problema dos custos cada vez maiores na construção das instalações necessárias. A ideia de uma organização deste gênero foi exposta a François de Rose por um americano, Robert Oppenheimer, cientista que havia sido educado na aura da ciência europeia e lhe disse, em substância: "Não é normal que a Europa dependa dos Estados Unidos ou da URSS para fazer a pesquisa fundamental. Ela necessitará de grandes máquinas e vocês devem-se unir para as poderem construir."
A ideia tinha sido lançada e hoje são os americanos que vêem à Europa para fazer a pesquisa fundamental. Penso que Oppenheimer tinha previsto isso. Mas acho esta reviravolta de situação extraordinária.
A Sociedade Americana de Física (APS) e o CERN anunciaram em conjunto, em 2014, uma parceria para que todos os artigos e tratados do CERN publicados na coleção revista APS sejam de acesso livre. Todos os resultados do CERN, seja em física teórica e física experimental, no acelerador LHC, bem como outros programas experimentais, beneficiam desta parceria.
Pierre Auger, Raoul Dautry, François de Rose e Lew Kowarski pela França, Edoardo Amaldi pela Itália e Niels Bohr pela Dinamarca, são os precursores e grandes obreiros na criação de um laboratório deste género pelo que são regularmente designado como os pais fundadores. Desde 1949, na companhia de Francis Perrin, físico francês e François de Rose, diplomata, deslocaram-se a várias capitais europeias para ver a reacção dos responsáveis, que foi péssima, pois cada país pensava que alocar fundos a uma organização iria tirar meios financeiros à pesquisa nacional. O preconceito da pesquisa nuclear também não ajudava à saída da Segunda Guerra Mundial, e a presença de Frédéric Joliot-Curie à frente do Comissariado da energia atómica francesa também não ajudava visto ser um membro importante do partido comunista. Durante a Conferência Europeia da Cultura, Lausana, em dezembro 1949, é feita a primeira proposta oficial da criação de um laboratório desse tipo pela boca do Nobel francês Louis de Broglie. Em junho de 1950, durante a Quinta Conferência da UNESCO, em Florença, o Nobel de física norte-americano, Isidor Rabi, fez inscrever uma resolução autorizando a organização a "assistir e encorajar a criação de laboratórios regionais para aumentar a cooperação científica internacional". Em dezembro de 1951, é adoptada uma primeira resolução com vista à criação de um Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire (Conselho Europeu para Pesquisa Nuclear) e, dois meses mais tarde, onze países assinam um acordo estabelecendo o conselho provisório. Tinha nascido o acrónimo CERN.
Durante a terceira sessão do conselho provisório, Genebra é escolhida como local para a implantação do futuro laboratório, escolha depois aprovada num referendo organizado no Cantão de Genebra, em junho de 1953. A convenção do Conselho Europeu para a Investigação Nuclear, definitivamente estabelecido em julho de 1953, foi assinada por doze países fundadores: Bélgica, Dinamarca, França, Grécia, Itália, Noruega, Holanda, República Federal da Alemanha, Reino Unido, Suécia, Suíça e Jugoslávia, mas já desde 29 de setembro de 1954, depois da rectificação pela França e pela Alemanha, o CERN provisório é dissolvido e criada é criada a Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire (Organização Europeia para a Investigação Nuclear). No entanto, esta nova organização conservou o acrónimo do Conselho, CERN. Como, por esta altura, a física fundamental tinha como principal objectivo a compreensão do interior do átomo, o núcleo atómico, o termo nuclear foi empregue, mas pela imagem belicosa desta palavra o CERN passou a chamar-se Organização Européene pour la Physique des Particules (Organização Europeia para a Física de Partículas).
Várias vezes foi o CERN incubadora de grandes avanços técnicos que se tornaram públicos pelo simples facto da organização publicar sempre seus os trabalhos ou descobertas em domínio público, como foi o caso da invenção da World Wide Web. Além disso, certos avanços técnicos necessários e exigidos pelas experiências conduzidas, assim como novas técnicas desenvolvidas, acabam sempre em domínio público.
A nível médico, e atendendo à colaboração cada vez mais desejada dos serviços hospitalares, foi criado em 2014 um Escritório para Aplicações Médicas, mas mesmo antes deste, o CERN e as suas experiências, detectores e desenvolvimento de píxeis, estavam na origem de conferências sobre física e saúde, e no desenvolvimento do TEP-TC. De facto foi em 1970, que se iniciou a primeira colaboração com um hospital, o Hospital de Genebra e a tecnologia emergente da tomografia por emissão de positrões (TEP) que hoje está na base dos scanners TEP-IRM que conjugam a tecnologia de cristais utilizados no LEP juntamente com desenvolvimentos próprios ao LHC.
Fora do campo científico, o CERN é principalmente conhecido por ter sido o berço da invenção da World Wide Web, ou simplesmente WWW ou Web. Em 1990, Tim Berners-Lee que tinha construído o seu primeiro computador na Universidade de Oxford, onde se formou em 1976 tornava-se, quatro anos mais tarde, consultor de engenharia de software no CERN e escrevia o seu primeiro programa para armazenamento de informação – chamado Enquire e, embora nunca tenha sido publicado, foi a base para o desenvolvimento da Web. Na sua proposta para o projecto em 1989 - é curioso ver o comentário do seu chefe de serviço - sugere a ideia de hipertexto que permite às pessoas trabalhar em conjunto, combinando o seu conhecimento através uma rede de documentos ligados entre si. Foi esse projecto que ficou conhecido como a World Wide Web. Para a sua realização T. Berners-Lee foi ajudado tanto na especificação da linguagem HTML, do navegador, assim como na criação do servidor web por Robert Cailliau. A Web funcionou primeiro dentro do CERN, e no verão de 1991 foi disponibilizada mundialmente. Em 1994 Berners-Lee criou o World Wide Web Consortium, onde assumiu a função de director. Membro fundador da Internet Society, o CERN festejou o vigésimo aniversário da sua fundação durante uma conferência, no CERN, entre 22 a 24 de abril de 2012.