Orlando Fedeli (São Paulo, 7 de fevereiro de 1933 – 9 de junho de 2010) foi um historiador, professor catedrático, apologeta e polemista católico tradicionalista brasileiro. Em 1983, fundou e presidiu a Associação Cultural Montfort.
Fedeli nasceu em 7 de fevereiro de 1933 no bairro do Cambuci, em São Paulo, Brasil. Sua mãe, Tosca Soderi (1908–2005), se casou com Guilherme Fedeli (1890-1956) em 30 de dezembro de 1924. Ambos sobrenomes possuem origem italiana, indicando ascendência de imigrantes europeus. Orlando tinha dois irmãos: Aurélio (1925–1925) e Luiz Aurélio (1931–2014). Fedeli estudou no Colégio Dom Bosco, de sacerdotes salesianos, e no Colégio Nossa Senhora do Carmo, de irmãos maristas.
Em março de 1988, casou-se com Ivone Fedeli, com quem teve um filho, Marcello Fedeli. A residência da família serviu como primeira sede da Montfort. Após sua morte, Ivone Fedeli ingressou na vida consagrada, passando a adotar o nome de Irmã Anna Maria Fedeli.
Formação acadêmica e primeiras influências
Fedeli serviu como oficial da reserva do Exército Brasileiro, na arma de infantaria, pelo CPOR/SP. Se graduou em História na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1954, tendo Plínio Corrêa de Oliveira como professor, e obteve doutorado em História pela Universidade de São Paulo (USP). Sua formação acadêmica foi orientada pela tradição intelectual católica, o capacitando para atuação como docente e pesquisador. Lecionou em escolas secundárias de São Paulo, na PUC-SP e em universidades do Canadá e dos Estados Unidos, ministrando também palestras no Brasil.
Durante a juventude, Fedeli desenvolveu compromisso com a ortodoxia católica, o que influenciou sua oposição ao liberalismo e ao modernismo, moldando sua atuação na apologética e na crítica de correntes ideológicas consideradas heterodoxas. Essa orientação se consolidou nas décadas de 1930 e 1940, antecedendo sua participação em movimentos tradicionalistas.
Fedeli participou de debates públicos sobre temas religiosos e filosóficos, incluindo discussões na Rádio USP com Hélio Bicudo sobre a pena de morte e com Olavo de Carvalho sobre gnosticismo, acusando Carvalho de envolvimento com a escola perenialista. Também debateu sobre modernismo com representantes do Instituto Paulo VI de Bréscia, com Felipe Aquino, da Comunidade Canção Nova, e com o monge beneditino Dom Estevão Bettencourt. Foi crítico da Teologia da Libertação, da Renovação Carismática Católica (RCC) e do ecumenismo, opondo-se a figuras como Leonardo Boff, Frei Betto, padre Marcelo Rossi e monsenhor Jonas Abib.
Seus escritos posicionam-se contra o Concílio Vaticano II, a liberdade religiosa, o comunismo, americanismo, liberalismo, ecumenismo, modernismo, gnosticismo, a maçonaria e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Produziu trabalhos sobre a Idade Média, e sobre o Romantismo Alemão, tema de sua tese de doutorado Elementos esotéricos e cabalísticos nas visões de Anna Katharina Emmerick, se consolidando como um dos poucos especialistas brasileiros nesse campo. Atuou na defesa e promoção da Missa Tridentina, cujo interesse foi ampliado após o motu proprio Summorum Pontificum de Bento XVI.
Entre o final de 2004 e o início de 2005, no contexto das polêmicas sobre o uso de células-tronco embrionárias, organizou a coleta de mais de 150.000 assinaturas contrárias à sua utilização, entregando uma placa representativa ao Papa João Paulo II no Vaticano em 26 de janeiro de 2005.
Atuação na Tradição, Família e Propriedade (TFP)
Fedeli ingressou na Tradição, Família e Propriedade (TFP) nos estágios iniciais de seu desenvolvimento, se tornando colaborador próximo de seu fundador, Plinio Corrêa de Oliveira. Seu envolvimento ocorreu durante a formação da organização, voltada à oposição ao comunismo e à defesa dos valores católicos tradicionais, em consonância com sua formação como historiador e apologista católico.
Durante aproximadamente trinta anos de participação, até 1983, Fedeli desempenhou funções destacadas, concentradas em atividades intelectuais e educacionais. Atuou como professor de história da TFP, responsável pelo treinamento de membros em doutrina católica, análise histórica de revoluções e apologética contra o modernismo. Suas atribuições incluíram a liderança de grupos de estudo, elaboração de materiais internos e participação na formulação de campanhas públicas da TFP, como as contrárias à reforma agrária e ao marxismo cultural. A proximidade com Plinio conferiu-lhe influência na definição da estrutura ideológica do grupo e nas respostas estratégicas às ameaças percebidas à sociedade cristã.
Fedeli ingressou no precursor da TFP, denominado "Grupo de Catolicismo", em 1956, enquanto lecionava no Colégio Rio Branco. Nesse período, recrutou novos cooperadores, conduzindo alunos a sessões de estudo lideradas por Plinio e formando o "Grupo da Aureliano", sediado na Rua Aureliano Coutinho, nº 23, em São Paulo. Esses esforços ampliaram a base de membros, incorporando indivíduos das classes média e média-baixa, de diversas origens étnicas, incluindo italianos, espanhóis, sírios, japoneses e alemães, contribuindo para o crescimento inicial da organização.
Como mentor de jovens integrantes, Fedeli orientou sua formação intelectual e espiritual, ministrando conteúdos de doutrina católica, filosofia e teologia. Participou de debates sobre questões religiosas e ideológicas durante a década de 1960, consolidando o rigor doutrinário da TFP. Seu trabalho de recrutamento recebeu reconhecimento público de Corrêa de Oliveira, conforme registrado em publicações da associação e na imprensa, incluindo artigo da Folha de S. Paulo de 1969.
Entre suas produções, destaca-se um estudo de 700 páginas sobre as Visões e Revelações de Anna Catarina Emmerich e a participação de Clemens Brentano na sua edição, no qual identificou influências e erros de caráter gnóstico. Apresentou suas conclusões em 6 reuniões, totalizando 15 horas, com Plinio em 1983, influenciando a decisão da TFP de condenar e retirar as obras de Emmerich de suas bibliotecas. Além disso, analisou práticas devocionais internas, compilando relatórios sobre mais de duzentas possíveis questões canônicas e buscando validação teológica externa.
Fedeli deixou a TFP em 1983, após 24 anos de participação, alegando incompatibilidades doutrinárias e espirituais com a ortodoxia. Sua crítica central referia-se à suposta promoção de uma espiritualidade esotérica e heterodoxa, que colocava o fundador Plinio em posição quase mística, interpretada como figura central na realização do "Reino de Maria". Fedeli argumentou que tais práticas incluíam rituais internos, interpretações simbólicas da vida de Plinio e de sua mãe, Dona Lucília, e uma veneração hierárquica que, segundo ele, se afastava da piedade e introduzia elementos gnósticos, conforme sua obra No país das maravilhas: a Gnose burlesca da TFP e dos Arautos do Evangelho.
Fedeli documentou essas preocupações em carta à liderança da TFP e em correspondência com clérigos simpáticos à sua posição, como Antônio de Castro Mayer, enfatizando que a organização promovia um culto à personalidade. Segundo ele, a centralidade atribuída a Plinio incluía hierarquias espirituais dualistas e expectativas apocalípticas. Embora a TFP tenha interpretado a saída de Fedeli como motivada por ressentimento pessoal devido ao reconhecimento insuficiente de seus talentos, ele manteve que divergências teológicas substanciais justificavam sua saída. Inicialmente, apenas 14 cooperadores o acompanharam, evidenciando impacto imediato limitado.
Após sua saída, Fedeli tornou públicas críticas à TFP, descrevendo a organização como portadora de desvios teológicos, introduzindo elementos gnósticos centrados na personalidade do fundador. Em cartas datadas de 31 de maio de 1983, dirigidas ao bispo Antônio de Castro Mayer e a membros da TFP, ele apontou práticas de esoterismo interno, desvios da epistemologia tomista e alegações da suposta "inocência primária" de Plinio, consideradas incompatíveis com a ortodoxia católica.