Os 120 Mártires da China, ou Agostinho Zhao Rong e 119 Companheiros, mártires na China, são mártires católicos da China e santos da Igreja Católica canonizados no dia 1 de Outubro de 2000 pelo Papa João Paulo II.
Entre 1648 e 1930, 87 chineses e 33 missionários ocidentais (incluindo sete religiosas) foram martirizados simplesmente por serem católicos e, em vários casos, pela sua recusa a apostatar. Muitos morreram no Levante dos Boxers (1899-1900), em que camponeses e ultra-nacionalistas chineses xenófobos mataram milhares de cristãos chineses, missionários e outros estrangeiros ocidentais. Na Igreja Católica, os 120 mártires chineses são lembrados todos os anos no dia 9 de Julho como uma memória facultativa.
No século XVI, uma nova e mais forte vaga de evangelização na China foi iniciada por missionários católicos, sob a orientação do Padroado português, nomeadamente pelos jesuítas, de entre os quais se destacavam Matteo Ricci, Adam Schall e Ferdinand Verbiest. Já antes, a China conheceu outras vagas tentativas de evangelização com algum sucesso relativo: no século V até ao século X, com os nestorianos, que sofreram perseguições no século IX; e nos séculos XIII e XIV, com os missionários franciscanos, de entre os quais se destacavam Giovanni da Montecorvino, que foi o primeiro arcebispo de Pequim. Porém, com o início da dinastia Ming (1368–1644), o cristianismo voltou a ser perseguido.
No século XVI, devido à sua religiosidade, ao seu vasto saber em vários campos da ciência e aos seus conhecimentos humanísticos, estes missionários católicos conseguiram fascinar a elite intelectual chinesa e acabaram por ser empregados pelo Imperador chinês como matemáticos, astrónomos, mecânicos, músicos, pintores, fabricantes de instrumentos (principalmente de relógios e mapas) e em outras áreas que exigiam um grau superior de competência técnica. Fora da Corte imperial em Pequim, eles conseguiram também estabelecer-se em várias cidades chinesas e converteram muitos chineses: em 1617, a Igreja chinesa contava com 13 mil convertidos; em 1650, já conseguiu 150 mil novos convertidos; e de 1650 até 1664, o número de convertidos aproximava-se dos 255 mil.
Porém, com o fim da dinastia Ming (1368–1644) causado pelas invasões manchus, houve perseguições à Igreja em várias províncias chinesas, porque vários comandantes manchus eram inicialmente hostis à religião cristã. Quando os manchus invadiram a província de Fujian, eles encarceraram, torturaram e decapitaram no dia 15 de Janeiro de 1648 o sacerdote dominicano Francisco Fernández de Capillas, O.P. (1607-1648). Este missionário espanhol foi reconhecido pela Santa Sé como o protomártir da China.
Mais tarde, os governantes manchus, que instauraram a dinastia Qing (1644-1912), acabaram por tolerar o cristianismo e continuaram a empregar os missionários na sua Corte imperial em Pequim. Ganhando cada vez mais influência, eles tiveram, como por exemplo, um papel importante na reforma do calendário chinês e na assinatura do Tratado de Nerchinsk (1689), que foi o primeiro tratado subscrito pela China com uma potência da Europa, neste caso com o Império Russo. Tudo isso contribuiu para que, em 1692, o Imperador Kangxi publicasse o Édito de Tolerância ao Cristianismo, que concedia a liberdade religiosa aos católicos.
Porém, as doutrinas filosófico-religiosas estrangeiras e novas são muitas vezes consideradas suspeitas pela sociedade chinesa como sendo uma ameaça à segurança nacional. No século IX, até o budismo sofreu perseguições. Nesta sociedade oriental, a cultura, os ritos chineses de inspiração confucionista, as religiões tradicionais chinesas e a soberania nacional estavam intrinsecamente ligadas. Por isso, a controvérsia dos ritos chineses irritou profundamente o Imperador Kangxi, fazendo-o temer pela segurança nacional e pela estabilidade social. Este imperador acabou por proibir as missões cristãs na China, em 1721, dando início às perseguições contra os católicos, que se agravaram em 1746, quando já reinava na China o Imperador Qianlong, neto de Kangxi. No dia 26 de Maio de 1747, o bispo espanhol dominicano Pedro Sans i Yordà (1680-1747) foi martirizado em Fuzhou. No dia 28 de Outubro de 1748, foram mortos em Fujian quatro sacerdotes dominicanos espanhóis, que se chamavam Francisco Serrano Frías, O.P. (1695-1748); Joaquín Royo Pérez, O.P. (1691-1748); Juan Alcober Figuera, O.P. (1694-1748); e Francisco Díaz del Rincón, O.P. (1713-1748).
As perseguições contra a Igreja variavam muito de intensidade e de frequência, podendo haver períodos de relativa tolerância entre as vagas de perseguição, visto que tudo dependia da maior ou menor tolerância dos vários imperadores ou do zelo dos mandarins regionais em aplicar os decretos imperiais. Os mais afectados eram os missionários ocidentais e os sacerdotes chineses.
Durante os reinados do Imperador Jiaqing (1796-1820) e de Daoguang (1820-1850), as perseguições tornaram-se bastante severas e vários decretos imperiais foram publicados com o fim de dizimar a Igreja: uma em 1811 contra os chineses que estavam a estudar para receber as ordens sacras; mais uma em 1811 contra os padres que estavam a propagar a religião cristã, nomeadamente os missionários estrangeiros (europeus); e outra em 1813 que livravam de qualquer castigo as pessoas que espontanea e voluntariamente abandonavam a fé cristã (os apóstatas voluntários). Muitos católicos chineses, missionários e sacerdotes foram martirizados nesta época difícil, de entre os quais se destacavam os seguintes mártires canonizados:
Pedro Wu Guosheng (1768-1814), um leigo catequista chinês de Guizhou, foi baptizado em 1796 e estrangulado no dia 7 de Novembro de 1814, após várias tentativas frustradas de forçá-lo a apostatar.
José Zhang Dapeng (1754-1815), um leigo catequista e comerciante chinês de Guizhou, foi baptizado em 1800, preso em 1814 e estrangulado no dia 12 de Março de 1815. Na prisão, conheceu o também leigo e mártir Pedro Wu Guosheng.
Gabriel-Taurin Dufresse, M.E.P. (1750-1815), foi um sacerdote e missionário francês que desenvolveu a sua missão em Sichuan (China) a partir de 1775. Foi várias vezes preso e libertado a seguir, sendo que numa vez, em 1785, foi mesmo enviado de Chengdu para Pequim para ser interrogado. Nesta longa viagem, ele conseguiu impressionar um dos seus guardas militares, Agostinho Zhao Rong, que se tornou depois padre e mártir. Em 1801, Dufresse, já sendo bispo, foi nomeado vigário apostólico de Chengdu, onde organizou um sínodo para dinamizar a Igreja local. Foi mais uma vez preso no dia 18 de Maio de 1815, mas desta vez foi condenado à morte e executado no dia 14 de Setembro de 1815 em Chengdu (Sichuan).
Agostinho Zhao Rong (1746-1815), um padre diocesano, foi considerado o primeiro mártir nativo chinês. O seu processo de conversão iniciou-se quando, em 1785, fez parte de um grupo de guardas que escoltou o prisioneiro e padre Gabriel-Taurin Dufresse a Pequim. Também contribuiu para a sua conversão o seu contacto com o padre Jean-Martin Moye, que foi beatificado em 1954. Posteriormente, foi baptizado e tornou-se padre, acabando por desenvolver a sua missão em Yunnan, junto da minoria étnica Yi ou Lolo. Foi preso e severamente torturado, acabando por morrer na prisão uns dias mais tarde, no dia 21 de Março de 1815, em Chengdu.
Giovanni da Triora, O.F.M. (1760-1816), nascido com o nome de Francesco Maria Lantrua, foi um padre italiano que iniciou a sua obra missionária na China em 1800, tendo trabalhado como por exemplo em Hunan e em Hubei. Em Julho de 1815, foi preso e, após várias tentativas frustradas em forçá-lo a apostatar, acabou por ser estrangulado no dia 7 de Fevereiro de 1816 em Changsha (Hunan).
José Yuan Zaide (1766-1817) foi um padre diocesano chinês que nasceu em Sichuan, numa família católica. Foi muito influenciado pelos exemplos do padre Gabriel-Taurin Dufresse e do padre Paulo Liu Hanzuo. Em 1795, tornou-se padre e trabalhou em vários distritos de Sichuan. Em 1816, foi preso por ter sido denunciado por uma católica a quem tinha feito algumas repreensões acerca da sua infidelidade ao marido. Num dos inúmeros interrogatórios, as autoridades acusaram-no de auxiliar os europeus a conquistar a China só porque ele recitava a oração do Pai-Nosso, que contém a frase "venha a nós o vosso reino". Após várias tentativas frustradas em forçá-lo a apostatar, foi estrangulado em Sichuan, no dia 24 de Junho de 1817.