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Otto Maria Carpeaux

Otto Maria Carpeaux, pseudônimo de Otto Maria Karpfen, nascido Otto Karpfen  (Viena, 9 de março de 1900 – Rio de Janeiro

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Otto Maria Carpeaux, pseudônimo de Otto Maria Karpfen, nascido Otto Karpfen  (Viena, 9 de março de 1900 – Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1978), foi um historiador, crítico e jornalista de origem austríaca que se naturalizou brasileiro em 1944 e foi aclamado pela crítica e público pelas obras Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira,  Uma nova história da música e, sobretudo, História da literatura ocidental, reputadas entre as mais importantes que se publicaram no Brasil no século XX.

Otto Karpfen nasceu a 9 de março de 1900 na casa paterna,  situada no prédio de apartamentos na rua Kaiser Josefstrasse, n.º 35,. em Leopoldstadt, isto é, no segundo distrito da “Capital Imperial e Real e Cidade Residencial de Viena” (k. k. Reichshaupt- und Residenzstadt Wien), como era o seu nome oficial sob a Coroa habsburga; “capital imperial”, no entanto, apenas para a porção germânica do Império Austro-Húngaro, o qual se constituía do estado soberano do Império Austríaco, de que os Karpfen eram naturais, e do Reino da Hungria, que tinha Budapeste por capital. Seu pai era o israelita de ascendência morávia Dr. Max Karpfen (Viena, 1869-1931), doutor em Direito titulado, com toda a probabilidade, na Universidade de Viena; irmão mais novo de Friederike Engel (1868-1937) e tio dos meninos Ernst e Oskar; e agente de seguros na Versicherungs-Gesellschaft “Donau”, a sesquicentenária “Companhia de Seguros Danúbio”, que ainda hoje, há mais de século e meio, ocupa o casarão  onde Herrn Max trabalhou entre 1904 e 1931; — e sua mãe, a israelita de origem polonesa Gisela Schmelz (1880-1942), natural de Cracóvia, capital do grão-ducado austríaco homônimo, e irmã mais velha do engenheiro Dr. Ernst Moriz Schmelz (1883-1962)  e, por fim, vítima dos nacional-socialistas entre abril e outubro de 1942, período no qual seu filho, que lhe ignorava o paradeiro em meio à guerra, preparava no Rio de Janeiro sua primeira obra de língua portuguesa, A cinza do purgatório: ensaios, publicada na primeira quinzena de dezembro de 1942.

“O ambiente em que vivia a família”, escreveu Renard Perez em artigo de série biográfica memorável, “era burguês sem riqueza”, e Otto, filho único, “fez os estudos primários em Viena: mas esse período de sua vida”, observa o jornalista, “se encontra quase totalmente esquecido, e daria trabalho para um psicanalista a tentativa de sua reconstituição. Também o ginásio (8 anos) foi feito em Viena”.

Por desejo do pai, iniciou em 1918 o curso de Direito, mas o abandonou um ano depois, por não sentir a vocação. Por volta de 1922 até 1925 estudou na Faculdade de Filosofia da Universidade de Viena, frequentando cursos de filosofia e química e graduando-se em Química em 29 de junho de 1925, obtendo o título de Doutor em Filosofia com a tese Über die Hypohirnsäure, ein neues Triaminomonophosphorsulfadit aus Menschenhirn, publicada em 1926 na revista Biochemische Zeitschrift. Embora não seguisse a profissão, continuou na Universidade de Viena de 1925 a 1927, exercendo o cargo de assistente da Faculdade de Filosofia.

Num período ainda não esclarecido (antes de 1922 ou depois de 1927), Carpeaux ainda teria estudado na Faculdade de Filosofia da Universidade de Leipzig, bem como Literatura Comparada na Faculdade de Filosofia da Universidade de Nápoles e Sociologia e Política na Hochschule für Politik (Escola Superior de Política), de Berlim.

De 1927 a 1929, segundo registros da Fundação Getúlio Vargas, Carpeaux teria percorrido a Europa, especializando-se em universidades e atuando, a partir de 1928, como correspondente de jornais vienenses, em Paris, Londres, Roma e Amsterdã. Em 1927 ou 1928, teria se formado na Haute École des Sciences Politiques, de Paris; em 1928 na Faculté de Lettres de Genebra. Entre 1928 e 1929, conforme revela Homero Senna, "teria trabalhado em Berlim redigindo roteiro para o cinema mudo", atividade a que Carpeaux se referiu em um pronunciamento, em 15 de julho de 1942, no Rio, durante um "debate sobre cinema silencioso e sonoro".

De volta a Viena, casou-se em 22 de fevereiro de 1930, na Sinagoga Hietzinger, com a cantora Helene Silberherz (Ottynia, 18 de setembro de 1899  – Rio de Janeiro, c. 1988) que ele já conhecia havia anos e, no ano seguinte, morre-lhe o pai. Meses antes, em 1931, teria começado a escrever ensaios e resenhas literárias e musicais para alguns periódicos, como a revista Die Literatur (Stuttgart), o jornal Neue Freie Presse (Viena), a revista Der Querschnitt (Berlim) e, de 1931 a 1934, a revista musical Signale für die musikalische Welt (Berlim).

Em 18 de abril de 1933 renuncia formalmente ao judaísmo e se converte ao catolicismo, motivo por que ora acrescenta "Maria", ora substitui "Karpfen" por "Maria Fidelis" ao seu nome, este último até o ano de 1935. Ainda em 1933 é nomeado diretor da Biblioteca de Ciências Econômicas e Sociais de Viena, cargo exercido até 1938. De 1934 a 1938, torna-se segundo redator-chefe do jornal Reichspost, o "maior jornal católico da Áustria", onde, durante longo tempo, escreveu "os artigos de fundo políticos e econômicos", como revelou em carta a Alceu Amoroso Lima. Também neste período (1934-1938), foi diretor e redator-chefe da revista Berichte zur Kultur und Zeitgeschichte, periódico oficial da Ação Católica na Áustria, fundado pelo amigo Nikolaus Hovorka (1900-1966) e por Viktor Matejka. Hovorka também adquirira a Editora Reinhold, provavelmente em 1934, onde se editaram a citada revista e, entre outros, dois livros de Carpeaux e um de Engelbert Dollfuss. Foi por meio de Hovorka que conheceu o fundador do jornal católico Der Christliche Ständestaat (Viena) Dietrich von Hildebrand (1889-1977), teólogo e filósofo católico cuja "oposição a Hitler e ao nazismo", afirma projeto dedicado a ele, "foi tão sincera que foi forçado a fugir da Alemanha em 1933". Nas memórias de Hildebrand, publicadas recentemente em My battle against Hitler (2014), Carpeaux é descrito como "amigo e colaborador" de Hovorka. "Karpfen", prossegue, "era um judeu convertido. Hovorka recomendou-mo como colaborador do Ständestaat. Karpfen era muito talentoso e, desde então, escreveu frequentemente em nosso jornal".

Por esta época, Carpeaux tornou-se homem de confiança dos primeiros-ministros Engelbert Dollfuss e Kurt Schuschnigg, últimos antes da anexação da Áustria pelo Reich alemão. Com a queda do Reich, Otto Maria e Helene foram obrigados a seguir para o exílio, durante o qual Otto deixou a mãe para trás e levou consigo apenas um missal.

Em princípios de 1938, foge para Antuérpia, na (Bélgica), onde trabalha como jornalista na Gazet van Antwerpen, maior jornal belga de língua holandesa.

Diante da escalada nazista, Carpeaux sente-se inseguro e foge com a mulher, em fins de 1939, para o Brasil. Durante a viagem de navio, estoura a II Guerra. Recusando qualquer ligação com o que estava acontecendo no Reich, muda seu sobrenome germânico Karpfen para o francês Carpeaux.

Ao desembarcar, nada conhecia da literatura brasileira, nada sabia do idioma e não tinha conhecidos. Na condição de imigrante, foi enviado para uma fazenda no Paraná, designado para o trabalho no campo. O cosmopolita e erudito Carpeaux ruma para São Paulo. Inicialmente passa dificuldades; sem trabalho, sobrevive à custa da venda de seus próprios pertences, inclusive livros e obras de arte. Poliglota, o homem que já sabia inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, flamengo, catalão, galego, provençal, latim e servo-croata, em um ano aprendeu e dominou o português, com muita facilidade devido ao conhecimento do latim e de outras línguas dele derivadas.

Em 1940, tenta ingressar no jornalismo nacional, mas não consegue. Então escreve uma carta a Álvaro Lins a respeito de um artigo sobre Eça de Queiróz. A resposta veio em forma de convite, em 1941, para escrever um artigo literário para o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Seu artigo é publicado, iniciando uma colaboração regular. Até 1942, Carpeaux escrevia os artigos em francês, que eram publicados em tradução. Mostrando sua grande inteligência e erudição, divulgou autores estrangeiros pouco ou mal conhecidos entre o público brasileiro, desenvolvendo-se um grande crítico literário. Nesse mesmo ano, Otto Maria Carpeaux naturalizou-se brasileiro. Ainda em 1942, publica o livro de ensaios A Cinza do Purgatório.

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