Públio Clódio Pulcro (em latim: Publius Clodius Pulcher; c. dezembro de 93 a.C.–18 de janeiro de 52 a.C. (40 anos)), mais conhecido apenas como Clódio, foi um político da República Romana conhecido por suas táticas populistas. Como tribuno da plebe, Clódio defendeu um ambicioso programa legislativo que incluía até mesmo a distribuição gratuita de cereais. Contudo, ele é lembrado principalmente por seu conflito com Marco Túlio Cícero e Tito Ânio Milão, cujos guarda-costas o assassinaram na Via Ápia.
Um nobre da gente patrícia dos Cláudios, nascido Públio Cláudio Pulcro, e um senador de caráter excêntrico, arrogante e agressivo, Clódio foi um dos mais disruptivos políticos de Roma na época da ascensão do Primeiro Triunvirato (60–53 a.C.). Por iniciativa sua, diversas leis favoráveis aos populares, as chamadas Leges Clodiae, foram aprovadas.
Já foi considerado "um dos mais inovadores políticos urbanos na história ocidental".
Clódio participou da Terceira Guerra Mitridática sob o comando de Lúcio Licínio Lúculo, que era seu cunhado. Porém, acreditando não estar recebendo o respeito devido, Clódio incitou uma revolta entre as tropas. Outro cunhado, Quinto Márcio Rex, governador da Cilícia, entregou-lhe o comando da frota romana, mas Clódio foi capturado por piratas. Durante seu cativeiro, Clódio participou de um curioso incidente de grande repercussão. Os piratas tentavam conseguir o pagamento do resgate de Clódio de Ptolemeu de Chipre, um aliado nominal de Roma que estava, em paralelo, negociando o casamento de sua filha com Mitrídates VI do Ponto, inimigo de Roma. Ptolemeu enviou uma soma tão irrisória que os piratas, divertidos com a situação, soltaram Clódio sem ficar com o dinheiro. Humilhado, Clódio para sempre alimentou uma inimizade pelo monarca cipriota. Clódio seguiu para a Síria, onde quase perdeu a vida durante uma revolta que ele também foi acusado de instigar.
Depois de retornar a Roma, em 66 a.C., Clódio precisava urgentemente de proteção contra Lúculo por seu envolvimento no motim durante a Terceira Guerra Mitridática e por causa do escândalo provocado pelas suas relações incestuosas com a esposa de Lúculo, descobertas por ele assim que Clódio chegou em Roma e que levaram ao divórcio do casal. Clódio fez 27 anos neste mesmo ano, mais do que idade normal que um romano se casava, e casou-se com Fúlvia, da família dos Semprônios Tuditanos no ano seguinte. Na mesma época, um parente próximo de Lúculo (provavelmente sobrinho), Lúcio Licínio Murena, se tornou o terceiro marido de uma Semprônia. Clódio processou Catilina em 65 a.C. por extorsão durante seu comando na África. Segundo Cícero, Clódio recebeu dinheiro de Catilina para garantir que ele fosse absolvido.
Em 64 a.C., Clódio seguiu para a Gália Narbonense junto com Lúcio Murena e lá, ainda segundo Cícero "fraudou testamentos de homens mortos, assassinou órfãos e arranjou nefastos contratos e parcerias criminosas". No ano seguinte, voltou para Roma com seu comandante a tempo de testemunhar a conquista do consulado por Murena, o primeiro de sua família, que contou com a ajuda dos veteranos do exército de Lúculo e de Cícero, cônsul em 63 a.C.. É quase certo que Clódio tenha apoiado.
Catilina, derrotado nesta mesma eleição, deu início à sua tentativa de golpe de estado, cujo objetivo era assassinar um grande número de senadores e assegurar para si e seus aliados, todos patrícios, o comando do estado romano. Embora o próprio Clódio fosse ainda um patrício na época, ele não estava envolvido, apesar de Cícero tê-lo acusado depois de ser um dos conspiradores. Clódio se manteve próximo de Murena, que o protegia, e da causa dos optimates. Conforme os eventos da conspiração de Catilina se desenrolavam, Clódio aparentemente se juntou a vários jovens equestres e nobiles que passaram a formar uma espécie de corpo de guarda do cônsul.
No mesmo ano, uma das irmãs de Cícero (presumivelmente a ex-esposa de Lúculo, pois as outras duas estavam ainda casadas com Quinto Márcio Rex e Quinto Cecílio Metelo Céler respectivamente) tentou persuadir Cícero a se divorciar de sua esposa, Terência para se casar com ela, o que enfureceu Terência e piorou ainda mais a relação entre Cícero e Clódio.
Escândalo de Bona Dea e julgamento por incesto
Os ritos de Bona Dea ("Boa Deusa") eram realizados em dezembro na casa de um importante magistrado de Roma. Em 62 a.C., a cerimônia seria realizada na residência oficial de Júlio César, o pontífice máximo, em Régia. As anfitriãs foram sua esposa, Pompeia, e sua mãe, Aurélia, com a supervisão das virgens vestais. Este era um culto do qual os homens não tinham permissão para falar ou mesmo de saber o nome da deusa, que era chamada de "Boa Deusa". Clódio se intrometeu nos ritos disfarçado de mulher, supostamente com o objetivo de seduzir Pompeia, mas foi descoberto. O escândalo se arrastou pelos meses seguintes enquanto Pompeu retornava do oriente depois de vencer Mitrídates VI do Ponto. César se divorciou de Pompeia e todos os eventos públicos foram suspensos. Lúculo estava determinado a utilizar a oportunidade para destruir a carreira política de Clódio e acusou-o do crime capital de incesto. A acusação foi realizada por três membros da família dos Cornélios Lêntulos e a defesa ficou a cargo de Caio Escribônio Curião, cônsul em 76 a.C. Lúculo garantiu que diversos escravos de sua casa testemunhassem o incesto de Clódio com Clódia; Terência, que havia sido a anfitriã dos ritos da Bona Dea do ano anterior, certamente pressionou Cícero a testemunhar contra Clódio para se vingar da acusação de incesto com Catilina que ele havia feito em 73 a.C. contra a meia-irmã dela, a vestal Fábia, que, apesar de fracassada, foi bastante destrutiva. Aurélia e uma das irmãs de Cícero testemunharam contra Clódio. César fez o que pôde para ajudar Clódio alegando não saber de nada. Quando perguntado sobre o motivo de ele ter se divorciado sua esposa se ele de fato não sabia de nada, César respondeu com uma de suas mais famosas frases, afirmando que a esposa de César precisa ser acima de qualquer suspeita: "uma mulher casta não apenas deve não errar, mas não causar suspeita de erro". Clódio mentiu ao utilizar um álibi forjado para provar que estava fora de Roma durante os ritos e Cícero podia refutá-lo, mas hesitou em fazê-lo. No final, movimentos políticos e domésticos forçaram sua mão. Por um lado, ele estava ansioso para forjar um equilíbrio de forças entre Lúculo e Pompeu, que estava às turras entre si por causa dos eventos da Terceira Guerra Mitridática, e queria ajudar Lúculo nesta questão. Em casa, Terência exigiu que ele testemunhasse e assegurasse a destruição de Clódio. Cícero testemunhou, mas quem decidiu o resultado do julgamento foi Marco Licínio Crasso, que subornou todos os jurados para garantir a absolvição de Clódio.
Depois do escândalo, a forma como Clódio tratava a política mudou e se tornou mais pessoal do que antes. Ele passou a se apoiar em Crasso como principal aliado e demonstrou gratidão a César por sua tentativa de ajudá-lo. Ele chegou ao ponto de fingir não guardar nenhuma mágoa contra seus acusadores. Por outro lado, ele arriscou-se ao interferir no exército de Lúculo no oriente, o que ajudou Pompeu, que, por sua vez, nada fez para ajudá-lo mesmo estando em conflito político com Lúculo, meio-irmão de Clódio, e Cícero.
Se a República Romana foi destruída por uma pessoa, Cícero acusa Clódio em fingida resignação: "Quid est, quid valet, quid adfert, ut tanta civitas, si cadet — quod di omen obruant! — a viro tamen confecta videatur?" ("Por que, quanto vale, qual a relevância, se uma cidade como esta rui — que os deuses revertam esse destino! — a não ser que ao menos pareça que a causa tenha sido uma pessoa real?"). O transvestismo de Clódio durante o ritual da Bona Dea serviria de munição para Cícero nos anos seguintes. Como era o caso de outros políticos populares da época, como César e Marco Antônio, Clódio foi acusado de deter um magnetismo sexual que aumentava seu carisma político: "O poder sexual de Clódio, sua suspeita habilidade de conquistar a esposa de César, pode ser lido como um indicativo da potência de sua influência política".